Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

Como o apoio a um pedófilo fez cair o Governo islandês

Bjarni Benediktsson, primeiro-ministro islandês

GEIRIX / Reuters

O primeiro-ministro Bjarni Benediktsson terá ocultado aos outros partidos do Executivo que o seu pai assinara uma carta a favor de alguém que violara uma filha menor

Luís M. Faria

Jornalista

A Islândia vai ter novas eleições gerais, um ano após as anteriores e escassos nove meses depois da posse do atual Governo. O motivo é mais um escândalo, que neste caso envolve primeiro-ministro Bjarni Benediktsson.

Nos últimos anos houve vários escândalos, incluindo o do primeiro-ministro anterior, Sigmundur Davíð Gunnlaugsson, que foi apanhado por jornalistas a negar que tinha dinheiro em offshores durante uma entrevista televisiva. Infelizmente para ele, os jornalistas tinham informação dos Panama Papers sobre o assunto.

Antes, as sequelas da crise financeira iniciada em 2008, que foi extremamente brutal na Islândia, já tinham derrubado outros Executivos. A confiança nos políticos para gerir o país ficou bastante abalada, não se podendo dizer que tenha recuperado plenamente. Mas agora o escândalo é de outro género. Tem a ver com uma atitude privada do pai do primeiro-ministro, que em 2016 assinou uma declaração a apoiar a restauração de certos direitos civis a um pedófilo condenado que é tão célebre como detestado no país.

Bjarni Benediktsson, ladeado pelos seus dois parceiros de coligação: Ottarr Proppe (à esq.), líder do Futuro Luminoso, e Benedikt Johannesson, líder da Regeneração

Bjarni Benediktsson, ladeado pelos seus dois parceiros de coligação: Ottarr Proppe (à esq.), líder do Futuro Luminoso, e Benedikt Johannesson, líder da Regeneração

BIRGIR THOR HARDARSON / EPA

O primeiro-ministro Bjarni Benediktsson foi atingido por constar que sabia do caso há um ano mas não disse nada aos seus parceiros de coligação. Um destes é o Futuro Luminoso (FL), partido liberal que se considerou traído e por isso abandonou o Governo, levando-o a cair. No seu conjunto, os três partidos da coligação (Partido da Independência – a que pertence Benediktsson –, Regeneração e FL) tinham uma maioria de apenas um deputado no Parlamento islandês: 32 votos em 63.

A deserção do FL foi fatal, mas é provável que mesmo sem ela Benediktsson não conseguisse aguentar. Afinal, ele próprio, um antigo ministro das Finanças, foi apanhado pelas revelações dos Panama Papers.

Um original sistema de perdões

Hjalti Sigurjon Hauksson, o criminoso no centro da polémica, foi condenado em 2004 por ter violado a sua filha adotiva, repetidamente, entre os cinco e os 18 anos. Após cumprir a pena foi libertado, mas ficou com alguns direitos limitados. Entre eles, o de exercer a sua profissão, a advocacia. Foi aí que interveio Benedikt Sveisson, pai do atual primeiro-ministro e amigo de infância de Hauksson, assinando a polémica carta que permitiu a este "restaurar" a sua "honra", e com ela os tais direitos.

Para um não islandês, o aspeto mais surpreendente de toda esta história é justamente o sistema original de perdões na Islândia. Ligado a esse curioso conceito de "honra restaurada", assenta numa declaração que tem de ser feita por dois cidadãos de boa reputação, sendo depois confirmada pelas autoridades. O processo foi instituído em 1940 para permitir a pessoas com cadastro votarem. Mais tarde foi alargado a outros direitos, inclusivé profissionnais.

Quando se soube que Hauksson tinha tido a sua honra "restaurada", houve indignação generalizada. As assinaturas nas cartas de recomendação não são públicas, mas começou a correr o rumor de que o pai do primeiro-ministro era uma delas, e a imprensa não parou de insistir que essa informação fosse relevada. As autoridades acabaram por lhe dar razão.

A vítima de violação, entretanto, aparecera a contar que o seu agressor ainda hoje continuava a persegui-la com mensagens e telefonemas. Sveisson sentiu-se obrigado a dar uma explicação: "Nunca considerei a honra restaurada mais do que um procedimento legal que torna possíveis aos criminosos condenados recuperarem alguns direitos civis. Não pensei nela como algo que podia justificar a posição de Hjalti para com a sua vítima. Disse-lhe para admitir o que fez e arrepender-se".

"Um pequeno gesto de boa vontade"

Na perspetiva de Sveisson, "aquilo que devia ter sido um pequeno gesto de boa vontade para com um criminoso condenado tornou-se, em lugar disso, uma continuação da tragédia para a vítima. Por isto, peço novamente desculpa".

Quem não ficou impressionada foi a Associação Islandesa dos Direitos das Mulheres. Numa declaração feita a seguir à queda do Governo, disse: "A noite passada teve lugar um momento de separação das águas, quando o Governo caiu, não por causa de dinheiro, não por discordâncias políticas de políticos profissionais, mas porque as mulheres falaram. As pessoas falaram. Falaram sobre a violência a que as mulheres e as crianças estão sujeitas. Falaram quando abusadores condenados bateram à porta de amigos a pedir favores".

A declaração continua: "Falaram quando a burocracia carimbou papéis sem pensar, concedendo a esses abusadores a honra restaurada, sem discussão, sem transparência. Nós, enquanto sociedade, já não toleramos a violência sexual, já não toleramos a violência com mulheres e crianças. Tem havido demasiado silêncio neste país sobre o facto de que um grande número de mulheres e crianças são abusados no seu ambiente mais fechado, não têm segurança onde deviam estar mais seguras, nas suas próprias casas".

  • Governo islandês demite-se devido ao Panama Papers

    Primeiro-ministro da Islândia pediu ao presidente para dissolver o parlamento depois de o seu nome ter sido associado ao caso, com alegações de que Sigmundur David Gunnlaugsson e a sua mulher detêm secretamente uma empresa offshore com sede em Tortola, nas Ilhas Virgens Britânicas

  • O vídeo que corre mundo: líder islandês abandona entrevista por causa dos Panama Papers

    Um dos nomes envolvidos no escândalo Panama Papers é o do primeiro-ministro islandês. Durante uma entrevista a uma TV sueca, Sigmundur David Gunnlaugsson foi questionado sobre a empresa detida com a sua mulher, que teve títulos que valeram milhões de euros em três grandes bancos da Islândia que faliram durante a crise financeira de 2008. Por entre respostas atabalhoadas, o político acaba por abandonar a sala. O vídeo está a correr mundo