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O estranho e assustador “ataque sónico” que está a ameaçar as relações EUA-Cuba

reuters

A Administração Trump pode estar prestes a encerrar a sua embaixada em Havana, face a um crescente número de diplomatas que ficaram surdos, com tonturas e com outros problemas de saúde. Os Estados Unidos falam de um ataque à embaixada com ondas sónicas, Cuba nega e está a ajudar a investigar o caso, que vai ficando cada vez mais denso e misterioso à medida que passam os dias

É possível que nem Ian Fleming conseguisse imaginar uma ficção tão surreal quanto a vida real de alguns diplomatas norte-americanos e canadianos instalados em Havana. Se o autor da saga James Bond fosse vivo, até poderia aventurar-se no mundo das novas tecnologias para pôr o agente 007 a lutar contra o mal, mas no final acabaríamos por descobrir quem andou a provocar problemas auditivos e neurodegenerativos aos diplomatas, como e porquê. Mas não é isso que está a acontecer na realidade, desde o final de 2016, quando surgiram as primeiras suspeitas de um “ataque sónico” às embaixadas dos Estados Unidos e do Canadá em Cuba.

Este domingo, numa entrevista à CBS, o chefe da diplomacia norte-americana avançou que o Departamento de Estado está a ponderar encerrar a sua embaixada na ilha por causa do caso, cada vez mais envolto em mistério — que, em maio, já tinha levado a Administração Trump a expulsar dois diplomatas cubanos de Washington, sob o argumento de que o Executivo cubano não estava a fazer o suficiente para proteger os representantes norte-americanos em Havana. Na altura, como agora, os norte-americanos abstiveram-se de acusar diretamente o governo de Raul Castro pelo que tem estado a acontecer.

Nem os cientistas conseguem explicar

Ao todo, e nos últimos dez meses, pelo menos 21 diplomatas e seus familiares, cinco deles do Canadá, já foram internados por causa de perda de audição, danos cerebrais traumáticos e potenciais danos irreversíveis no sistema nervoso central, por causa de um alegado ataque com ondas sónicas que nem os cientistas conseguem explicar.

O facto de não estarem a ser atribuídas culpas é só um dos sinais da complexidade deste caso. “Mesmo que os investigadores acreditem que houve elementos das forças de segurança cubanas envolvidos, não parecem crer que eles tenham recebido ordens de cima”, referia a Associated Press na semana passada, quando foi confirmado que mais dois diplomatas dos EUA foram hospitalizados.

Acresce a isso o facto de as autoridades cubanas estarem a colaborar ao máximo com a investigação a ser conduzida no terreno pelos EUA e pelo Canadá, país que sempre manteve boas relações com Cuba, mesmo durante os 54 anos de divórcio diplomático entre Washington e Havana.

FBI até foi fazer inspeções em Cuba

Apesar do silêncio oficial, a AP tem conseguido saber alguns pormenores sobre os incidentes, a começar pelas suspeitas iniciais de que os alvos foram atingidos “por uma arma sónica avançada que opera fora do leque de sons audíveis” e que teria sido instalada dentro ou fora da embaixada dos EUA ou das casas dos diplomatas. Inspeções a esses locais pelo FBI e pela Real Polícia Montada do Canadá não deram em nada. As autoridades, refere a agência, parecem estar às escuras quanto a todos os contornos do mistério.

Uma das partes mais complexas do caso é que as manifestações ultrassónicas parecem ser diferentes, consoante a vítima e o local dos “crimes”, que aconteceram sempre à noite. “Em vários episódios relatados por fontes oficiais dos EUA, as vítimas sabiam o que estava a acontecer em tempo real”, nota a AP. “Algumas sentiram vibrações e ouviram sons — zumbidos altos ou uma espécie de chilrear agudo semelhante ao estridular dos grilos ou das cigarras. Outros ouviram um ranger. Algumas vítimas acordaram com um som nos ouvidos e acorreram aos seus alarmes, percebendo que esse som parava assim que se afastavam das suas camas.” Contudo, outras vítimas não ouviram nem sentiram nada antes de começarem a manifestar sintomas, entre eles “inchaços no cérebro, tonturas, náuseas, dores de cabeça graves, problemas de equilíbrio e zumbidos prolongados nos ouvidos”.

A complicar a investigação está o facto de Cuba não ter motivos aparentes para arriscar a recém-nascida relação com os EUA, ainda frágil e a dar os primeiros passos depois de Barack Obama e o irmão de Fidel terem oficializado a retomada das relações, no final de 2014. Fica em aberto a possibilidade de os autores do ataque serem espiões de outros Estados. Resta a certeza de que, mesmo que houvesse suspeitas concretas sobre os responsáveis, não parece ser fisicamente possível causar este tipo de problemas de saúde com recurso a ultrassons.

Joseph Pompei, especialista em psicoacústica e ex-investigador no conceituado MIT, explicava na semana passada que para ondas sónicas causarem danos cerebrais ou concussões como aquelas manifestadas pelos diplomatas seria necessário que “alguém submergisse as cabeças deles numa piscina cheia de transdutores de ultrassom muito poderosos”.

Há um mês, Toby Heys, que dirige o centro Future Technologies da Universidade de Manchester, já tinha avançado à revista “New Scientist” que, em teoria, é possível causar perda de audição permanente através de ultrassons dirigidos para a cavidade auditiva dos alvos, mas que para isso é necessária uma “segmentação precisa” e caminho livre entre a arma e o ouvido.

Posto isto, tudo permanece em aberto: estarão as autoridades a lidar com um tipo de tecnologia que a maioria dos especialistas desconhece por completo? Estará a “arma” escondida à vista de todos, à espera que um investigador ou especialista tenha um momento Eureka? E quem está por trás deste “ataque sónico”? Para já, ninguém parece saber.