Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

Afinal, Trump vai ou não retirar os EUA do Acordo do Clima de Paris?

JONATHAN ERNST

Chefe da diplomacia norte-americana deu a entender que a administração Trump pode não abandonar o tratado de combate ao aquecimento global, um dia depois de a Casa Branca ter desmentido que o Presidente tenha dado um passo atrás nessa matéria

Os Estados Unidos podem continuar a integrar o acordo do clima alcançado em Paris no final de 2015 "sob as circunstâncias certas", admitiu este domingo o secretário de Estado norte-americano, sinalizando um potencial volte-face do Presidente quanto à sua decisão de retirar o país do tratado de combate às alterações climáticas, anunciada por Donald Trump em junho.

Em entrevista ao programa "Face the Nation" da CBS, Rex Tillerson disse este domingo que Trump está disposto a trabalhar com os parceiros mundiais se estes permitirem que os EUA apresentem condições mais justas e equilibradas para os norte-americanos. Diretamente questionado sobre se ainda há hipóteses de o país permanecer no acordo, Tillerson respondeu: "Penso que sim, sob as circunstâncias certas. O Presidente já disse que está aberto a encontrar essas condições para poder continuar envolvido no que todos concordamos ser uma questão desafiante."

A mesma ideia foi transmitida este domingo pelo chefe do Conselho de Segurança Nacional da Casa Branca, H. R. McMaster, quando no programa "This Week", da ABC, declarou que o líder norte-americano sempre esteve disposto a considerar aplicar partes do Acordo do Clima. "Ele deixou a pota aberta para reentrar [no pacto] algures no tempo se conseguir um acordo melhor para os EUA. Se houver um acordo que beneficie o povo americano, certamente [que o fará]."

As declarações vieram aumentar a confusão sobre os planos do Presidente quanto ao acordo negociado e aprovado por quase 200 países, no final de 2015, para limitar o aquecimento global a um máximo de dois graus centígrados até 2100, sobretudo através de reduções das emissões de dióxido de carbono e de outros gases com efeito de estufa, na sua maioria provenientes da queima de combustíveis fósseis.

Em junho, Trump cumpriu a sua promessa de campanha ao anunciar a retirada imediata dos EUA sob o argumento de que o Acordo de Paris mina os interesses económicos e a soberania nacional do país, uma decisão que angariou duras críticas e condenações de inúmeros líderes mundiais, entre eles a chanceler alemã Angela Merkel e o presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker.

Trump anunciou a "retirada imediata" do acordo em junho, mas são precisos quatro anos para completar o processo de saída

Trump anunciou a "retirada imediata" do acordo em junho, mas são precisos quatro anos para completar o processo de saída

Win McNamee

No fim de semana, o "Wall Street Journal" noticiou que fontes da administração Trump garantiram aos parceiros dos EUA num encontro em Montréal que o país não vai abandonar o pacto global, atribuindo essa garantia a declarações do comissário europeu do Clima, Miguel Arias Cañete. O jornal avançou que, durante o encontro de mais de 30 países na cidade canadiana para preparar a cimeira do clima da ONU, marcada para novembro, Cañete declarou: "Os EUA disseram que não vão renegociar o Acordo de Paris, mas que vão tentar rever os termos sob os quais poderão envolver-se neste acordo."

Segundo a AFP, o comissário europeu também disse que haveria um encontro bilateral à margem da assembleia-geral da ONU, esta semana, no qual representantes da administração Trump "iam avaliar a real posição dos EUA", sublinhando: "É uma mensagem que é muito diferente daquela que ouvimos do Presidente Trump no passado."

Reagindo às notícias, a Casa Branca veio garantir que o Presidente não alterou a sua posição e que, portanto, os norte-americanos continuam fora do tratado do clima. Contudo, como sublinha a Reuters esta segunda-feira, "são precisos quatro anos para que um país abandone o Acordo de Paris, pelo que os EUA vão continuar a integrá-lo até dois dias antes de o primeiro mandato de Trump estar concluído".

Ainda este domingo, também em reação às notícias do WSJ e da AFP, McMaster desmentiu que Trump tenha revertido a sua decisão, garantindo que, pelo menos para já, "ele está fora do acordo do clima de Paris". Tillerson, por sua vez, remeteu o assunto para Gary Cohn, conselheiro económico do Presidente. "Penso que o plano é que o diretor Cohn considere outras formas de podermos trabalhar com os parceiros sobre o Acordo do Clima de Paris. Queremos ser produtivos e úteis."

Recorde-se que, em julho, depois de ter recebido Trump no Palácio do Eliseu, o Presidente francês Emmanuel Macron já tinha deixado a porta aberta a um passo atrás do líder norte-americano, ao declarar que "algo pode acontecer no que toca aos Acordos de Paris".