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Internacional

Hamas faz cedência histórica

O movimento radical que governa a Faixa de Gaza desde 2007 quer reatar o diálogo com a Autoridade Palestiniana e admite promover eleições

O Hamas difundiu este domingo um comunicado en que anuncia estar pronto a discutir a formação de um governo de reconciliação nacional com os seus rivais da Fatah, hegemónicos na Autoridade Palestiniana. Diz-se também pronto a promover eleições gerais em Gaza.

Uma vez realizadas essas eleições o Hamas compromete-se a devolver o poder a um governo de unidade, formado em função dos resultados das urnas, e a desmantelar a sua própria administração do território. O comunicado refere tratar-se de uma resposta do Hamas aos “generosos esforços de promoção da reconciliação nacional promovidos pelo [vizinho] Egipto”.

Em 2007 aquele movimento islâmico armado, nascido da radicalização de grupos da Irmandade Muçulmana, tomou o poder pela força na Faixa de Gaza (onde fora o mais votado um ano antes), rompendo com a Autoridade Palestiniana que desde então ficou a administrar somente a Cisjordânia. Todos os esforços de reaproximação dos dois governos palestinianos promovidos desde então têm falhado.

Nos últimos 10 anos, a Faixa de Gaza já foi alvo de três operações militares israelitas de grande envergadura: Operação Chumbo Fundido (2008/09), Operação Pilar de Defesa (2012) e Operação Barreira de Proteção (2014). Desde que o Hamas tomou o poder o território é alvo de um bloqueio por terra, mar e ar, imposto por Israel e Egito.

A situação na Faixa de Gaza degradou-se a partir do momento em que no Egipto o presidente Morsi, próximo da Irmandade Muçulmana, foi destituído (2013). 90% dos túneis através dos quais se fazia contrabando para Gaza foram destruídos pelas novas autoridades do Cairo. Mais recentemente, a crise diplomática entre o Qatar e a Arábia Saudita afastou da cena um dos principais financiadores do governo do Hamas.

Finalmente a própria Autoridade Palestiniana apertou o garrote à administração do Hamas, ao pedir a Isarel a redução em mais 40% do fornecimento de electricidade à Faixa de Gaza. Neste momento a maior parte das pessoas só tem luz duas horas por dia. Deixou também de pagar os salários dos funcionários públicos em Gaza.

De tudo isto resultou um agravamento das condições de vida dos dois milhões de habitantes da Faixa de Gaza, mais de metade dos quais estão abaixo do limiar da pobreza e 45% desempregados. A densidade populacional e o crescimento demográfico são dos maiores do mundo, prenunciando uma catástrofe a curto prazo. Os cortes de electricidade impedem o tratamento dos esgotos e lixos, sendo os efluentes diariamente lançados no Mediterrâneo equivalentes ao volume de 40 piscinas olímpicas.

A ONU admite que por este andar Gaza seria inabitável em 2020. Ao visitar o território em finais de Agosto, o secretário-geral da ONU António Guterres pedira o fim dos bloqueios, tanto israelita, como egípcio.