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Curdistão, a Catalunha do Iraque

Saiba as semelhanças e as diferenças entre o referendo de 1 de Outubro na Catalunha e o de 25 de Setembro no Iraque

Tanto em Espanha como no Iraque os referendos de 1/10 e 25/9 opõem províncias já com alto grau de autonomia e com recursos económicos importantes (indústria no primeiro caso, petróleo, no segundo) a governos centrais que, por sua vez, os tentam impedir por todos os meios. Há também uma potência externa, no caso espanhol a União Europeia e no caso iraquiano os Estados Unidos, que faz pressão no sentido de que a secessão não ocorra

Posto isto, há duas diferenças. A primeira é que, se o sim vencer no referendo, o governo regional catalão quer proclamar de imediato a independência. Já a liderança curda quer sobretudo promover uma demonstração de força que aumente o seu poder negocial junto do governo de Bagdade. A segunda diferença é que o Iraque está em guerra e ainda não erradicou totalmente a ameaça do Daesh, ainda que este se limite agora a controlar cerca de 7% do território (na faixa ocidental junto à fronteira da Síria e ao vale do rio Eufrates).

Ora há justamente uma dívida de gratidão do governo iraquiano e dos próprios americanos junto dos curdos do país já que, nas horas difíceis do Verão de 2014, quando o Daesh conquistou Fallujah, Ramadi, Kirkuk, Mossul e muitas outras cidades, a única força militar credível para lhe fazer face depois da implosão do exército governamental foram os peshmerga (combatentes em língua curda).

Em particular as forças curdas foram decisivas para manter a posse da estratégica cidade de Tikrit (multi-étnica e dominando importantes campos petrolíferos) e para dar alguma protecção aos yazidis, assírios, cristãos e outras minorias vítimas do genocídio islamo-fascista.

Tikrit é justamente um dos pomos de discórdia entre os governos de Erbil e Bagdade pois, situando-se fora do “Curdistão histórico”, está na prática ocupada militarmente e administrada pelos curdos que aí garantem ir realizar também o referendo à independência.

A consulta, marcada para próximo dia 25, inquieta o governo central de Bagdade que a considera ilegal, embora ao contrário do Governo de Madrid não tenha força militar para a impedir, quer por os peshmerga serem um adversário sério, quer por o inimigo principal ser o o Daesh, quer ainda porque o poder central iraquiano teria de apostar nas milícias xiitas, o que radicalizaria ainda mais as pretensões independentistas curdas.

Os americanos, num comunicado da Casa Branca, consideram o referendo “provocador e desestabilizante”, podendo entravar a continuidade da luta contra o Daesh. Apelam ao diálogo entre Erbil e Bagdade.

A principal preocupação norte-americana parece ser não enfraquecer o aliado iraquiano, à qual se junta uma outra: não pôr em risco os frágeis equilíbrios do Médio Oriente. Os curdos são 40 milhões, divididos entre o Iraque (onde, como se disse, têm uma região autónoma), o Irão, a Síria (onde combatem contra o Daesh apoiados pelos americanos) e a Turquia (onde há guerra civil entre o governo e os independentistas do PKK).

Um Curdistão independente do Iraque não deixaria de encorajar movimentos semelhantes na Síria (onde na prática já há uma região curda ocupando quase toda a fronteira com a Turquia) e na própria Turquia.