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Internacional

Criticada pela comunidade internacional, Aung San Suu Kyi estará ausente da assembleia-geral da ONU

Spencer Platt

A Nobel da Paz que lidera Myanmar há um ano e meio continua em silêncio face às suspeitas de "limpeza étnica" da minoria Rohingya pelo Exército. Porta-voz do governo diz que a conselheira de Estado "talvez" tenha "assuntos mais urgentes para gerir" e garante: "Ela nunca tem medo de enfrentar críticas nem de confrontar problemas

Aung San Suu Kyi vai falhar a assembleia-geral das Nações Unidas na próxima semana, anunciou esta quarta-feira o governo de Myanmar, perante o amontoar de críticas à líder do país pelo seu silêncio e inação face à perseguição e repressão da minoria étnica muçulmana Rohingya pelo Exército.

Desde 25 de agosto, quando os militares deram início à sua última "operação de limpeza" no estado de Rakhine, onde os Rohingya vivem concentrados no norte de Myanmar, cerca de 370 mil pessoas já fugiram para o Bangladesh, com cada vez mais ONG e até o alto comissário da ONU para os Direitos Humanos a acusarem as forças da antiga Birmânia de "limpeza étnica" da minoria.

Suu Kyi, que foi laureada com o Nobel da Paz em 1991 pelo seu ativismo contra a Junta Militar que manteve Myanmar em ditadura durante mais de meio século, enfrenta acusações dos seus antigos apoiantes no Ocidente por nada fazer perante a crescente perseguição dos Rohingya, que são considerados imigrantes ilegais pelas autoridades de Myanmar e pela maioria budista do país e que nunca tiveram quaisquer direitos reconhecidos.

O Exército continua a defender que está a lutar contra "terroristas" e desmente estar a matar civis, apesar do amontoar de provas de que tem estado a incendiar aldeias inteiras, a queimar os corpos das vítimas para ocultar provas de suspeito genocídio e a plantar minas antipessoal na fronteira com o Bangladesh para impedir a fuga dos muçulmanos étnicos.

Citado pelos media locais, um porta-voz do governo disse esta manhã que "a conselheira estatal não vai estar presente" na assembleia-geral da ONU, que estará a decorrer em Nova Iorque entre 19 e 25 de setembro, sem avançar motivos para a ausência. Um outro porta-voz de Suu Kyi — que apesar de estar impedida de ser Presidente é tida como a verdadeira líder de Myanmar desde que o seu partido Liga Nacional para a Democracia venceu as eleições de 2015 com maioria — disse à Reuters que é possível que ela "talvez" tenha "assuntos mais urgentes para gerir", acrescentando: "Ela nunca tem medo de enfrentar críticas nem de confrontar problemas."

Há um ano, no seu primeiro discurso aos parceiros da ONU enquanto líder de Myanmar, Suu Kyi prometeu que o seu governo ia trabalhar para resolver a crise dos Rohingya, mas desde então, e perante a deterioração da situação da minoria, continua sem nada fazer ou dizer para acabar com o massacre de civis muçulmanos em Rakhine.

Esta semana, o enviado de Myanmar na ONU adotou a mesma retórica do Exército e culpou um grupo de insurgentes Rohingya pela violência em Rakhine, garantindo que o governo e as autoridades nunca irão tolerar tais atrocidades e rejeitando a sugestão do comissário da ONU Zeid Raad al-Hussein de que o tratamento dos muçulmanos parece corresponder ao crime de "limpeza étnica".

Muitas das pessoas que já conseguiram fugir para o Bangladesh dizem que a minoria a que pertencem está a ser vítima de uma brutal campanha de violência e que os militares estão a incendiar as suas casas e aldeias para os forçar a abandonar Myanmar. Esta quarta-feira, a pedido da Suécia e do Reino Unido, o Conselho de Segurança da ONU vai debater esta crise e potenciais respostas aos mais recentes acontecimentos.