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Um furacão “sem precedentes” para nos lembrar do futuro

Ruas inundadas em Miami

Foto Carlos Barria/Reuters

No rescaldo do rasto de destruição em dez países e territórios das Caraíbas, que deixou alguns deles totalmente arrasados, a chegada do Irma à Florida trouxe ventos de 195 km/h e chuvas torrenciais ao sudeste dos EUA, ainda sob ameaça apesar de o furacão estar a perder força. Especialistas alertam que as alterações climáticas, rejeitadas por Donald Trump, vão multiplicar estes desastres em número e violência

Foi com estrondo que, depois de ter espalhado caos e devastação na região do Caribe, provocando pelo menos 28 mortos e deixando milhões de pessoas sem eletricidade e sem casas, o furacão Irma chegou à costa dos Estados Unidos este fim-de-semana. Começou por ser de escala 5, entrou no estado da Florida já com força reduzida, no nível 2 da escala Saffir-Simpson e ventos de 195 quilómetros/hora, e apesar de esta segunda-feira de manhã ter sido revisto para o nível 1, as autoridades continuaram sob alerta perante as antevisões de mais ventos fortes, chuvas torrenciais e consequentes inundações ao longo dos próximos dias.

Foi a primeira vez desde 1921 que a baía de Tampa foi varrida por um furacão desta magnitude — uma tempestade “sem precedentes” no oceano Atlântico, segundo o barómetro dos meteorologistas desde que há registos, que entre ontem e hoje causou pelo menos três mortos nos EUA.

Populares olham para a destruição em Havana

Populares olham para a destruição em Havana

Foto Ernesto Mastrascusa/EPA

Ao longo da última semana, dez países e territórios das Caraíbas ficaram parcial ou totalmente destruídos e com várias partes sem eletricidade — veja-se o caso de Barbuda, uma ilha que se tornou “praticamente inabitável” à passagem do Irma, segundo o presidente da Cruz Vermelha local. Depois disso, pelo menos seis milhões de pessoas tiveram de ser retiradas de Miami e arredores antes da chegada do furacão, com 100 mil residentes colocados em abrigos temporários e mais de 2,6 milhões de lares sem eletricidade. Os custos de reconstrução na região do Caribe e no sudeste dos EUA continuam a aumentar, devendo atingir os milhares de milhões de dólares.

No meio do desastre, houve histórias com final feliz. Na madrugada de domingo, enquanto os correspondentes das televisões locais faziam a cobertura das operações da proteção civil para colmatar a fúria prometida do Irma, uma mulher de Miami ligou para o 911 (o 112 dos EUA) a pedir uma ambulância; tinha entrado em trabalho de parto mas os ventos fortes que já estavam a abalar as costas marítimas da Florida impediram que uma equipa de emergência chegasse ao local. Um médico e um enfermeiro acabaram por orientar o parto pelo telefone, passo a passo, até à retirada da placenta e ao corte do cordão umbilical. Três horas depois, na sua página oficial no Twitter, a cidade de Miami anunciava: “É uma menina!”

Esta tarde, o “Washington Post” lembrava que, apesar de qualquer morte ser lamentável e de o balanço de mortes poder subir nos próximos dias, “é notável até que ponto o custo humano de uma tempestade tão poderosa como esta, que vai causar milhares de milhões de danos em propriedades e infraestruturas, pode ser mitigado.” O jornal recordava, a título de exemplo, o furacão de menor intensidade que, a 8 de setembro de 1900, atingiu a cidade de Galveston, no Texas, provocando entre 6 e 10 mil mortos. Hoje, graças à melhoria dramática das previsões meteorológicas alcançadas no último século, a par da melhoria da qualidade das construções e das respostas preventivas a desastres, é possível limitar o número de vítimas face a tempestades poderosas como o Irma.

Imagem disponibilizada pela NASA, em que se vê Cuba e a península da Florida

Imagem disponibilizada pela NASA, em que se vê Cuba e a península da Florida

Foto EPA/NASA

O problema, apontam especialistas, é que a temperatura da Terra está a aumentar por causa das alterações climáticas e isso são más notícias no que toca a fenómenos desta natureza. Não é que o aquecimento do planeta por si provoque tempestades e ciclones tropicais, explicava na semana passada Clare Nullis Kapp, da Organização Meteorológica Mundial. “O que se pode dizer é que o facto de termos alterações climáticas, o facto de a nossa atmosfera estar mais quente, significa que quando um evento destes tem lugar sabemos que as alterações climáticas muito provavelmente aumentam o nível associado de precipitação.”

Para entender isto, é preciso perceber como se formam estas tempestades. Os furacões costumam aproveitar as águas quentes como combustível e, neste momento, tempestades como o Irma estão a mover-se sobre águas que estão entre 1,2 e 1,8 graus acima do normal. Em maio, os serviços meteorológicos dos EUA tinham citado 70% de probabilidades de, este ano, haver entre 11 a 17 tempestades às quais seriam atribuídos nomes (todas as que trazem consigo ventos superiores a 68 km/h são batizadas) e de 5 a 9 delas se transformarem em furacões, dos quais dois a quatro poderosos.
Esses números foram revistos no início de agosto, já a meio da época de furacões e ciclones, que decorre entre 1 de junho e 30 de novembro. Nessa altura, as autoridades avisaram que havia 60% de probabilidades de ocorrência de 14 e 19 tempestades, com entre 5 e 9 a passarem a furacões, dos quais dois a cinco muito fortes.

Em pleno pico da estação de desastres, marcado entre 10 e 11 de setembro, o Irma é o quatro furacão a abalar o sul dos EUA este ano.

Neste contexto, os últimos dias foram prolíficos em artigos de análise sobre o problema de o atual Presidente norte-americano rejeitar as alterações climáticas como facto científico. Quem seguiu o rasto do furacão Harvey no final de agosto, e em particular os habitantes do Texas que sobreviveram ao desastre, não esquecerá que, na sua primeira visita ao estado, Donald Trump não só não fez referência às vítimas provocadas pelo desastre como nada disse sobre o aquecimento global.

A omissão espantou poucos vinda de um líder que, em junho, retirou os EUA — um dos maiores poluidores do mundo — do Acordo do Clima de Paris e que, assim que chegou ao poder, não só cortou o financiamento à Agência de Proteção Ambiental (EPA) e aos programas meteorológicos da NASA como proibiu referências diretas às alterações climáticas nos sites oficiais do governo federal. Há três meses, em reação à decisão de Trump, Marcelo Rebelo de Sousa acusou o homólogo norte-americano de estar “a tapar o sol com um dedo”, sublinhando que “negar o problema não o faz desaparecer”. É o mesmo alerta que os meteorologistas e cientistas do clima estão a repetir agora que a expressão “sem precedentes” ameaça tornar-se obsoleta no que toca a desastres climatéricos.