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Internacional

Traficantes estão a transportar migrantes pelo Mar Negro, uma rota ainda mais perigosa que o Mediterrâneo

Em novembro de 2014, 24 migrantes, entre eles crianças, perderam a vida no Mar Negro ao largo da costa turca

OZAN KOSE

Guarda costeira da Roménia detetou aumento no número de barcos que estão a arriscar a perigosa travessia, alimentando suspeitas de que as redes de tráfico humano estão a tentar reativar essa passagem marítima para a Europa

O Mar Negro pode estar a tornar-se a nova rota marítima para os refugiados e migrantes que continuam a tentar chegar à Europa, com a Guarda Costeira da Roménia, um Estado-membro da União Europeia que não integra o Espaço Schengen, a avisar que a travessia é ainda mais perigosa que as atuais rotas do Mediterrâneo.

Com os países vizinhos a tentarem gerir a crise de refugiados que, nos últimos anos, trouxe mais de um milhão de pessoas do Médio Oriente e de África para o continente, a Roménia diz ter registado nos últimos dias um aumento exponencial no número de barcos que estão a cruzar o Mar Negro, o que alimenta os receios de que as redes de tráfico humano estão a alterar a sua estratégia face aos bloqueios impostos aos requerentes de asilo e aos traficantes no Mediterrâneo.

No sábado, a Guarda Costeira romena interceptou uma traineira com 97 migrantes a bordo, 36 deles crianças, nacionais do Iraque e do Irão, na fronteira marítima com a Bulgária; na noite anterior, um outro barco de pesca foi avistado a dirigir-se para as águas territoriais da Bulgária, transportando 120 pessoas e que acabaria por ser interceptado pela polícia fronteiriça e entregue à Guarda Costeira turca. A 3 de setembro, um outro pesqueiro com 87 requerentes de asilo a bordo foi parado em trânsito para a costa romena pelo Mar Negro, com as autoridades a dizerem na altura que o barco terá partido da costa norte da Turquia — isto depois de outros três barcos terem sido travados entre 13 e 21 de agosto, transportando um total de 287 migrantes, na sua maioria sírios e iraquianos.

Apesar de os números serem pequenos quando comparados com as centenas de milhares de pessoas que têm viajado da Turquia para a Grécia (Mediterrâneo Oriental) e da Líbia para Itália (Mediterrâneo Central), o aumento do número de barcos interceptados no Mar Negro sugere que as redes de tráfico já encontraram uma alternativa para transportar as pessoas que buscam asilo na Europa — pessoas essas que "precisam de ajuda" e que "não são criminosas", sublinhou a ministra romena do Interior, Carmen Dan, num encontro com a polícia marítima na semana passada.

Citado pelo "Guardian", um porta-voz da agência de patrulhamento de fronteiras europeias (Frontex), diz que é demasiado cedo para ver neste aumento uma nova tendência de migração mas admite que as redes de tráfico podem estar a tentar reativar a rota, que "já foi usada no passado". Em 2014, aponta Krzysztof Borowski, "tivemos 430 pessoas a chegar à Roménia e à Bulgária pelo Mar Negro; em 2015 foram 68 e em 2016 um. Talvez haja movimentação para reativar [a travessia], com os traficantes a porem pessoas a atravessá-la para a testar." Ao mesmo jornal, Borowski sublinha que as condições climatéricas naquele mar são muitas vezes piores que as do Mediterrâneo, sobretudo por causa dos ventos fortes. "Os migrantes estão em grande perigo, especialmente se embarcarem em pequenos botes. É um mar revolto que é difícil de atravessar."

Gabriela Leu, porta-voz do alto comissariado da ONU para os Refugiados (ACNUR) na Roménia, diz que apesar de ainda não se poderem tirar conclusões definitivas a partir do punhado de incidentes registados no último mês, "o que é claro é que, quando as rotas legais são encerradas, as pessoas que fogem de guerras e perseguição agem em desespero para encontrar segurança". A isto Leu acrescenta: "A probabilidade de estas pessoas morrerem na tentativa de chegarem à Europa pelas rotas definidas pelos traficantes é alta e alarmante." Até agora, as autoridades romenas já detiveram dois turcos, um búlgaro, um sírio, um iraquiano e um cipriota suspeitos de envolvimento em tráfico humano no Mar Negro.

As informações surgem depois de a Organização Internacional para as Migrações (OIM) ter revelado ontem que, entre janeiro e julho de 2017, houve pelo menos 2.224 migrantes a perderem a vida no Mediterrâneo Central, a rota que liga a costa líbia às costas marítimas italianas e que atualmente é tida como a mais perigosa travessia marítima de migração do mundo.

A par disso, dados oficiais das autoridades romenas mostram que também o número de entradas clandestinas no país pelas suas fronteiras terrestres tem estado a aumentar — nos primeiros sete meses de 2017, cerca de 2.800 pessoas foram apanhadas a tentar cruzar essas fronteiras para a Roménia, em comparação com as 1.624 tentativas registadas em 2016. A maioria, 1.370, são nacionais do Iraque, seguidos de 525 sírios e 319 paquistaneses.