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Internacional

Autoridades de Myanmar acusadas de plantarem minas anti-pessoal na fronteira com o Bangladesh

Pelo menos 290 mil Rohingya fugiram no último mês para o Bangladesh perante nova "operação de limpeza" do Exército de Myanmar em Rakhine

Dan Kitwood

Médicos de um hospital do Bangladesh dizem à BBC que têm recebido cada vez mais muçulmanos Rohingya com membros amputados por causa de engenhos explosivos que pisaram ao fugirem do seu país

A equipa de correspondentes da BBC que está a acompanhar a situação na fronteira de Myanmar com o Bangladesh entrevistou nos últimos dias vários muçulmanos Rohingya que dizem ter ficado feridos após pisarem minas anti-pessoal na rota que liga os dois países. Entre eles conta-se um rapaz de 15 anos que perdeu as duas pernas, o seu irmão e a mãe, uma mulher de 50 anos que também terá pisado uma dessas minas após o Exército começar a disparar contra o grupo em fuga.

Fontes oficiais do Bangladesh disseram ao canal britânico que, apesar de a área ter sido minada na década de 1990, tudo aponta que o Exército de Myanmar (antiga Birmânia) está a plantar novas minas anti-pessoal na fronteira para travar os membros da minoria étnica muçulmana que estão a fugir de Rakhine perante a mais recente "operação de limpeza" das forças militares naquele estado — uma alegação que as autoridades de Myanmar rejeitam. Desde o início dessa campanha militar no final de agosto, pelo menos 290 mil Rohingya já fugiram para o Bangladesh.

Ontem, o chefe do alto comissariado da ONU para os Direitos Humanos, Zeid Raad al-Hussein, denunciou a "cruel operação militar" em curso em Rakhine, classificando-a como "um exemplo de limpeza étnica por definição", isto numa altura em que o governo da Nobel da Paz Aung San Suu Kyi continua a ser acusado de nada fazer perante o que várias ONG dizem corresponder ao genocídio do povo Rohingya — uma minoria étnica sem Estado que é reprimida e perseguida há décadas pelas autoridades de Myanmar e pela maioria budista do país, aos seus olhos um grupo de "imigrantes ilegais" a quem nunca foram reconhecidos quaisquer direitos ou cidadania.

Esta semana, a primeira-ministra do Bangladesh, Sheikh Hasina, deverá visitar um dos principais campos de refugiados Rohingya na fronteira, depois de, no final da semana passada, ter sublinhado que este é um problema que Myanmar criou e que Myanmar tem de resolver. Ontem, a Casa Branca pediu às autoridades do país asiático que respeitem o Estado de Direito e que acabem com a deslocação forçada de civis.

No domingo, a Amnistia Internacional já tinha acusado o Exército de Myanmar de estar a plantar minas antipessoal na passagem fronteiriça que os Rohingya estão a usar para escapar à repressão, isto depois de fontes do governo bangladeshiano terem tecido a mesma acusação em declarações à Reuters na semana passada. Os médicos do hospital que a equipa da BBC visitou tamném garantem que os ferimentos de alguns refugiados são consistentes com os ferimentos causados por minas antipessoal.

É o caso de Azizu Haque, um rapaz de 15 anos que chegou àquele hospital sem pernas e cujo irmão, internado noutro hospital, também perdeu as pernas após pisarem minas, refere a mãe dos rapazes, Sabequr Nahar, ao canal britânico. "Os ferimentos deles são tão graves que é como se estivessem mortos. Estão a sofrer tanto que é melhor que Alá [deus] os leve."

Amanhã, o Conselho de Segurança da ONU vai discutir a situação em Myanmar a pedido da Suécia e do Reino Unido, uma reunião que vai decorrer à porta fechada face à "deterioração da situação" no estado de Rakhine. A atual "operação de limpeza" do Exército naquele estado da fronteira norte começou a 25 de agosto, depois de insurgentes do autodenominado Exército Arakan de Salvação Rohingya (Arsa) terem atacado postos da polícia, matando 12 agentes.

No final de 2016, no rescaldo do primeiro ataque executado pelo grupo de militantes, o International Crisis Group (ICG) tinha alertado que, após décadas de repressão e perseguição em Myanmar, um grupo de Rohingya exilados na Arábia Saudita tinha pegado em armas para lutar pela sua autodeterminação e que, sem políticas para a sua inclusão, a violência só iria escalar.

Neste momento, e depois de uma série de campanhas militares semelhantes em anos recentes, que pioraram desde 2012, o Bangladesh já está a albergar centenas de milhares de Rohingya que fugiram de Rakhine, com os campos improvisados na fronteira sem margem para acolher mais gente. Entretanto, a perseguição da minoria étnica está a piorar noutras partes de Myanmar. No domingo, a polícia usou balas de borracha para dispersar uma multidão que atacou a casa de um talhante muçulmano na região de Magway, no centro do país; citado pela AFP, um dos manifestantes budistas disse que o ataque era uma resposta aos eventos em Rakhine, onde o Exército é suspeito de estar a incendiar vilas inteiras e de queimar os corpos das vítimas para esconder as provas de "limpeza étnica".