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Internacional

Governo de Myanmar rejeita cessar-fogo unilateral anunciado por rebeldes rohingya

Em menos de um mês, pelo menos 264 mil muçulmanos Rohingya procuraram refúgio no Bangladesh

Dan Kitwood

Trégua foi proposta “para permitir que atores humanitários acedam e respondam à crise humanitária em Rakhine”, mas Governo de Aung San Suu Kyi diz que não negoceia com “terroristas”

Myanmar (antiga Birmânia) recusou um cessar-fogo unilateral anunciado domingo pelo autoproclamado Exército Arakan de Salvação Rohingya (Arsa), um grupo de rebeldes armados que nasceu em 2016 para combater a repressão e perseguição da minoria étnica muçulmana. O porta-voz do governo, Zaw Htay, declarou que o Executivo não negoceia com “terroristas”.

Ontem, o grupo financiado e armado pela Arábia Saudita anunciou uma trégua de um mês, pedindo ao Exército de Myanmar que também abandone as armas durante esse período para se negociar uma solução para a crise humanitária em curso no estado de Rakhine, no norte do país. Cerca de 294 mil muçulmanos rohingya fugiram para o Bangladesh em menos de três semanas.

O Arsa foi responsável por um ataque a um posto das forças de segurança que, a 25 de agosto, provocou 12 mortos, levando o Exército a lançar uma nova “operação de limpeza” em Rakhine que, segundo um balanço do Governo, já se saldou em 400 mortos. O número ainda não foi verificado de forma independente porque o Governo de Aung San Suu Kyi (a Nobel da Paz de 1991 é Conselheira de Estado, cargo que não é oficialmente de líder do Executivo, mas é vista como a líder “de facto” do país) continua a impedir o acesso à zona de conflito por jornalistas e funcionários de organizações humanitárias.

Os rohingya, minoria étnica muçulmana que ao longo de décadas nunca viu os seus direitos serem reconhecidos no país de maioria budista, acusam o Exército e a população budista de estarem a executar uma campanha brutal que várias ONG e até o Bangladesh dizem corresponder ao crime de genocídio. Este fim de semana, o alto comissário da ONU para os Direitos Humanos, Zeid Ra’ad al-Hussein, voltou a denunciar a “brutal operação de segurança” em curso no estado de Rakhine, sublinhando que o que está a acontecer é “um exemplo de limpeza étnica por definição”. Myanmar rejeita as acusações e classifica a luta contra os rohingya como uma operação de “contraterrorismo”.

A proposta de cessar-fogo foi anunciada pelo Arsa no Twitter sob o argumento de que é necessária uma trégua “para que atores humanitários possam aceder e responder à crise humanitária” em Rakhine. Na mesma publicação, o grupo rebelde pediu ao Governo birmanês “que retribua esta pausa humanitária”, ao que Htay, porta-voz de Suu Kyi, respondeu também no Twitter: “Não temos qualquer política que passe por negociar com terroristas”.

No Bangladesh, país que faz fronteira com Myanmar e que tem estado a acolher as centenas de milhares de rohingya que já estão a fugir da onda de violência, as autoridades disseram este fim de semana que não estão a conseguir lidar com o enorme fluxo de chegadas e destacaram mais soldados e agentes da polícia para a fronteira.

Pela primeira vez, o ministro bangladeshiano dos Negócios Estrangeiros descreveu ontem a violência contra os rohingya como “genocídio”. Os membros daquela minoria étnica que já chegaram ao país vizinho estão a viver em campos improvisados de acolhimento ao longo da fronteira e, apesar dos esforços de agências internacionais humanitárias e de grupos de voluntários locais, continua a faltar água, comida e medicamentos suficientes para garantir apoio aos refugiados.