Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

Porque é que os turistas ricos gostam de fazer férias na Europa dos pobres?

A subida até Oia pode ser penosa. Há turistas que preferem viajar de burro e assim evitar os 300 degraus que separam o porto da pitoresca vila

GUETTY

Todos os anos, dois milhões de turistas visitam a ilha grega de Santorini. Um excesso de gente, nas palavras do Nikos Zorzos que teme pelas reservas de água doce e denuncia o excesso de construção. Os gregos que ali residem queixam-se do aumento do custo de vida e dizem que é impossível pagar as contas do mês só com um emprego

Na Grécia, a taxa de desemprego ronda os 23%. Com uma cifra tão elevada de gente sem trabalho num país que ainda sofre sequelas da intervenção da troika, seria de esperar que a população residente na pequena ilha de Santorini agradecesse aos deuses a visita de dois milhões de turistas por ano, a existência de mais de 700 bares, restaurantes e cafés, e um ritmo de construção que faz com Santorini tenha neste momento mais de 1000 camas por km2.

Preocupado com as reservas de água doce da ilha, o autarca Nikos Zorzos decretou um ‘numerus clausus’ para a entrada diária de turistas que chegam nos grandes navios de cruzeiro. Em 2017, a entrada de turistas que chega a bordo de navios de cruzeiro tem um limite máximo de “8000 pessoas por dia”, disse Zorzos ao jornal britânico “The Guardian”.

No ano anterior, “houve dias em que chegaram a desembarcar 18 mil pessoas num só dia”, diz Zorzos, acrescentando que os portos de Santorini receberam 636 navios em 2016.

Dos jatos privados aos alojamentos a 5 mil euros por noite

Os turistas também chegam em voos charters ou jatos privados. Alguns, pagam cinco mil euros por noite pelo aluguer de uma casa com vista para o vulcão que mudou a paisagem da ilha em 1613. O problema é que preços destes estão a gerar uma sensação de injustiça em muitos residentes e a agravar o fosso que separa ricos e não ricos.

O aumento do preço das habitações faz com que muitos trabalhadores do sector público não tenham um salário que permita pagar uma casa. “Há professores que dão aulas durante a manhã, e à noite trabalham como empregados de mesa”, diz Christoforos Asimis, residente em Santorini, que conhece famílias com três crianças a cargo que se esforçam para conseguir ter “600 euros mensais”.

Mapa de Santorini, a ilha grega que muitos turistas sonham visitar

Mapa de Santorini, a ilha grega que muitos turistas sonham visitar

Carlos Esteves

A ilha de Santorini só tem mais 16 Km2 do que a Graciosa, no arquipélago dos Açores. Mas ao contrário desta última onde vivem quatro mil pessoas, o cenário paradisíaco do mar Egeu alberga 25 mil residentes permanentes, parte deles vindos do continente em busca de trabalho.

“A taxa de natalidade [local] ronda os 150 bébés por ano, e é provavelmente a mais alta da Grécia”. O problema, é que “não temos escolas para crianças em número suficiente, nem infraestruturas para fazer face a este crescimento”, diz Zorzos ao “The Guardian”.

“Atingimos o ponto de saturação. A pressão é excessiva”. Zorzos está preocupado com “a falta de sustentabilidade económica e ambiental” em Santorini, e lança um alerta: “O consumo de água aumentou 46%”. E a ilha é um pequeno território de 76 Km2.

Santorini

Santorini

GUETTY

Na ilha mais conhecida das Cyclades há idosos sem pensões; são provavelmente os maiores perdedores da crise que se instalou na Grécia no início desta década, e aquela faixa da população a quem é impossível pagar um café numa das esplanadas de Oia, para assistir ao pôr do sol.

Oia, a terra onde o céu fica alaranjado, com as casas caiadas de branco, é o ex-libris da ilha, a vila onde os turistas ricos podem gastar centenas de euros numa refeição.

Este ano, a Grécia espera receber 30 milhões de turistas. Depois de Atenas, dos seus museus e da Acrópole da capital grega, Santorini é o destino preferido por quase todos, com destaque para 1,5 milhões de chineses que visitará a Grécia em 2017 [mais 10% do que ano anterior].

Os viajantes do Império do Meio querem conhecer as ruínas de Akrotiri e contemplar do pôr do sol numa esplanada de Oia.

A boa “reputação da nossa ilha enche-nos de alegria”, diz Manolis Karamolegos, chefe da Associação de Hoteleiros de Santorini ao “The Guardian”. Mas, ao mesmo tempo, “assusta-me enormemente” este surto de crescimento. “Preocupa-me o dia de amanhã. O turismo representa um risco para a nossa coesão social. Em todos os lugares, vemos pessoas a alugar as suas casas ou a construir” para rentabilizar.

O turismo é um pau de dois bicos em muitos lugares. Mas em Santorini, o maior receio dos otimistas é uma nova erupção do vulcão.