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O silêncio de uma Nobel da Paz face ao massacre dos Rohingya

reuters

A mais recente incursão do Exército de Myanmar em Rakhine, o estado do norte do país que alberga mais de um milhão de muçulmanos da etnia rohingya, já fez centenas de mortos; 60 mil pessoas fugiram para o Bangladesh em seis dias. A Nobel da Paz Aung San Suu Kyi, que dirige “de facto” o país, continua a desmentir as alegações de atrocidades e comprou uma guerra com a ONU e com organizações sem fins lucrativos como a Oxfam, que estão há mais de uma semana sem acesso à zona de conflito

Passaram-se dez meses desde que o governo de Myanmar, antiga Birmânia, recebeu um aviso urgente: sem políticas que considerem a minoria rohingya, composta por mais de um milhão de muçulmanos étnicos que vivem concentrados no estado de Rakhine, na fronteira com o Bangladesh, os ataques de insurrectos e consequentes “contraofensivas” do Exército só vão aumentar em escala e em violência.

Os rohingya, referiu o International Crisis Group (ICG) em dezembro, “nunca foram uma população radicalizada e grande parte da comunidade, os seus anciãos e líderes religiosos sempre condenaram a violência, considerando-a contraproducente”, pelo que “o facto de cada vez mais pessoas estarem a abraçar a violência reflete os profundos falhanços políticos ao longo de muitos anos, e não algum tipo de inevitabilidade”.

O aviso foi ignorado e as cenas de violência que levaram o ICG a publicar aquele relatório voltaram a repetir-se: depois de o autoproclamado Exército Arakan de Salvação Rohingya ter atacado um posto das forças de segurança em Rakhine em outubro passado, e de o Exército birmanês ter respondido com uma “operação de limpeza” que viu aldeias inteiras serem incendiadas e milhares de pessoas em fuga para o Bangladesh, os insurgentes treinados e armados pela Arábia Saudita lançaram um novo ataque a 25 de agosto, conduzindo a uma ofensiva militar que já se saldou em 400 mortos e que levou pelo menos 60 mil rohingya a fugirem para o país vizinho numa só semana — com organizações sem fins lucrativos como o Arakan Project (Arakan sendo o antigo nome de Rakhine) a acusarem os militares e a maioria budista de estarem a queimar os corpos dos executados “para esconderem as provas”.

Há uma escala preocupante da violência em Myanmar que fez o país e as nações vizinhas reféns, uma nova onda de ataques e contra-ataques que é atribuída às décadas de repressão e de perseguição da minoria mas que, como explicou o ICG no final de 2016, “se tornou particularmente grave desde a violência antimuçulmanos em Rakhine em 2012”.

A análise surgiu no rescaldo das primeiras eleições livres de Myanmar em mais de cinco décadas, que viram a Liga Nacional para a Democracia (LND) chegar ao poder e a Nobel da Paz Aung San Suu Kyi transformar-se na líder de facto do país — a Constituição aprovada pela Junta Militar antes do plebiscito proíbe-a de ser Presidente, mas é ela quem governa a partir das sombras desde o ano passado.

A ditadura militar pode ter acabado mas o poder de influência do Exército não e esse é um dos grandes problemas apontados pelo ICG em dezembro para contextualizar a situação “preocupante” e ecoado por vários especialistas, entre eles Neghipaio Kipgen, diretor executivo do Centro de Estudos do Sudeste Asiático na Universidade Global Jindal, na Índia.

“O papel de Suu Kyi é crucial mas limitado”, sublinha ao Expresso Kipgen. “É importante notar que a democratização de Myanmar ainda está incompleta, existe um sistema político de natureza híbrida em que um governo civil partilha o poder com o Exército. Ainda assim, o que Suu Kyi e o seu governo da LND devem fazer, em vez de continuarem a desmentir as violações de direitos humanos básicos contra a população rohingya, é pôr fim a estas atrocidades e garantir assistência humanitária adequada à população afetada.” A par disso, acrescenta, “Suu Kyi e a LND também têm de delinear políticas e planos de curto e de longo prazo, concretos e sistemáticos, que dêem resposta aos problemas fundamentais que os Rohingya enfrentam, relacionados com coisas como identidade, nomenclatura e nacionalidade.”

Suu Kyi em rota de colisão com a ONU

Neste momento, não há fim à vista para o desespero dos rohingya. A juntar ao facto de nunca lhes ter sido concedida nacionalidade birmanesa e para além de os líderes religiosos budistas estarem a inflamar a retórica antimuçulmanos, as agências da ONU com missões em Myanmar estão agora impossibilitadas de aceder a várias áreas de Rakhine, numa altura em que Suu Kyi continua a cultivar uma relação antagónica com as organizações não-governamentais.

Esta segunda-feira, num comunicado enviado ao “The Guardian”, o gabinete do coordenador residente da ONU em Myanmar informou que as quatro agências a operar no país — o Fundo de População (UNFPA), a Unicef, a agência para os Refugiados (ACNUR) e o Programa Alimentar Mundial (PAM) — têm todas as suas operações de distribuição de ajuda humanitária suspensas há mais de uma semana, “por causa da situação de segurança” mas também “das restrições de acesso impostas pelo governo”.

Essas restrições, gradualmente impostas desde finais do ano passado, abrangem também 16 ONG, entre elas a Oxfam, pondo em risco as vidas de centenas de milhares de pessoas, muitos muçulmanos rohingya mas também os residentes budistas mais pobres de Rakhine, que dependem em larga medida da água, comida e medicamentos que as organizações distribuem. Isto seguiu-se a uma controversa alegação do gabinete de Suu Kyi, que na semana passada publicou no Facebook uma foto em que se veem biscoitos com selo PAM a serem distribuídos num campo de deslocados internos, com uma legenda em que o programa da ONU e outras ONG são acusados de “ajudar os terroristas”.

Essa é só mais uma nota da discrepância que existe entre os relatos dos rohingya que têm conseguido chegar com vida ao Bangladesh — muitos deles com ferimentos de bala, todos com testemunhos de “massacres” perpetrados pelo Exército — e a versão oficial das forças armadas com o aval silencioso do governo civil — dizem que são os Rohingya que pegam fogo às próprias casas e acusam-nos de matarem budistas e hindus.

Se há dez meses o ICG deixou uma nota positiva no seu relatório sobre a escalada da violência em Myanmar, sublinhando que ainda não era “demasiado tarde para o governo reverter a tendência” de repressão e perseguição dos Rohingya, o tempo útil parece estar a esgotar-se. É possível que, “nos bastidores”, Aung San Suu Kyi esteja “a tentar convencer o comandante das forças armadas, o general Min Aung Hlaing, para que intervenha” e ponha fim à ofensiva em curso, explica Kipgen. “Mas mesmo que as operações militares e a atual onda de violência em Rakhine cessem, a difícil questão dos rohingya vai persistir se não se derem respostas aos problemas fundamentais que eles enfrentam.”