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Os elementos na paisagem

Uma viagem pela estrada circular que dá a volta à Islândia, um país (ainda) pouco conhecido e com segredos para revelar a cada paragem

Miguel Calado Lopes

Miguel Calado Lopes

texto e fotos, na Islândia

Para chegar a Miðhvammur, a quinta do Ari e da Freitys, é necessário percorrer meia Islândia, a que vai da capital Reiquiavique até ao seu lugarejo no norte do país, 29 km a sul de Húsavik, uma pequena cidade de dois mil habitantes conhecida pela pesca do bacalhau e pelos avistamentos de baleias. São cerca de 600 quilómetros, mais fiorde, menos fiorde, pela estrada nacional nº 1, a estrada circular que dá a volta à ilha.

É preciso passar por Hvolsvöllur, Eyjafjallajökull, Kirkjubaejarklaustur, Seyðisfjörður, etc. Claro que o leitor fica na mesma e o autor também. Para saber a quantas se anda na Islândia, e dizer por onde se andou, é preciso estar de mapa em punho e o dedo indicador a apontar para uma beleza quase tão impronunciável como o nome que a batiza. Resta a consolação pronunciável de que a cada um destes nomes corresponde um espanto visual e a emoção decorrente do respetivo choque. No fundo, a Islândia é um deserto e o resto é paisagem. Mas o problema que tolhe o turista e o faz ficar pasmado é que a inversa também é verdadeira — a Islândia é paisagem e o resto é um deserto.

É uma paisagem primordial que subjuga por diversos motivos. A sua esmagadora presença coloca-nos numa posição de defesa, não tanto porque perante tais cenários somos obrigados a reconhecer a pequenez da nossa condição humana, mas por não estarmos preparados para a imprevisibilidade das situações que surgem pelo caminho. Quem é que não se assusta quando os serviços meteorológicos nacionais avisam que os carros ligeiros não devem circular por esta ou aquela zona do país porque vai surgir um vento fortíssimo? O que os serviços nos querem dizer é que a Islândia não é um país de meios termos.

São desertos de lava sucessivos que espantam pela sua dimensão e solidão. Tanto na costa como nas terras altas do interior, em dias de boa visibilidade, o automobilista vê que a estrada a percorrer se estende por quilómetros sem vivalma e sem referências fáceis de identificar. São, na costa, desertos de uma planura que parece desenhada a régua e esquadro e de um negro entrecortado aqui e ali pelo branco da espuma da água de rios e riachos que nesta época do ano correm mansos em direção ao mar onde aves marinhas aguardam as benesses alimentícias arrastadas pela corrente. São, na montanha, desertos ondulados de um verde que se adivinha fértil e por onde pastam ovelhas voluntariamente tresmalhadas pelos seus donos. Espanta vê-las como se fossem cabras, em ravinas, talvez conduzidas pelo carneiro-guia, o exemplar que, sabe-se lá como e porquê, lidera o rebanho por caminhos seguros afastados das fendas do terreno e enriquece o pastor se ele entender vendê-lo. É o único a ter garantida uma morte natural.

Mesmo em pleno verão, de nada vale levar botas de montanha, calças impermeáveis, corta-ventos forrados, gorros, água no cantil e barras energéticas se o tempo, essa grande incógnita nacional, resolver mudar, por lhe ter dado um capricho atmosférico que altera as regras a meio do jogo, durante uma caminhada. Foi essa imprevisibilidade que fez com que o jovial octogenário Baldur (na Islândia todos se tratam pelo nome próprio) viesse cedo a casa do seu amigo Ari para oferecer à família um bom par de trutas frescas, à laia de um sorridente pedido de desculpas por ter falhado numa previsão meteorológica. De facto, uns dias antes, Baldur tinha dito a Ari que podia ceifar o feno nos três dias seguintes porque não ia chover… e choveu todos esses três dias! Freitys ofereceu-lhe um café e disse: “Vou fazê-las para o jantar.” E lá ficaram a falar sobre a melhor altura para irem buscar as ovelhas deixadas à solta nas terras altas do interior.

Estrela. O DC-3 americano que nos anos 70 aterrou de emergência na Islândia e que Justin Bieber usou como rampa de skate num dos seus vídeos

Estrela. O DC-3 americano que nos anos 70 aterrou de emergência na Islândia e que Justin Bieber usou como rampa de skate num dos seus vídeos

miguel calado lopes

Por outras palavras, turista prevenido vale por dois. Essa prevenção começa em casa com a escolha do equipamento, alimento e alojamento, cuja reserva tem de ser feita com meses de antecedência. E continua no aeroporto quando se aluga o carro. O ideal seria um superjipe, um monster car, daqueles com rodas da altura de uma pessoa, para cortar a direito pelos difíceis trilhos do interior, o que proporciona uma ainda maior sensação de aventura todo o terreno. Mas, com o superjipe terá de vir um guia, porque ninguém em seu perfeito juízo se meterá ao caminho por sua própria conta e risco. Mesmo com um jipe urbano, como foi o caso, as situações podem tornar-se difíceis, especialmente quando se sai da estrada circular para visitar um lugar específico. É aconselhável jogar pelo seguro… e comprar um seguro total. Se eu adivinhasse as estradas por onde me iria meter e os animais que iria encontrar teria no mínimo feito um seguro contra danos próprios provocados pela gravilha e alheios, provocados pelas pedras lançadas por viaturas em sentido contrário.

Dez dias são suficientes para cumprimentar a Islândia com a cerimónia devida a um desconhecido, mas insuficientes para a conhecer. Fica a faltar tempo para entrar na sua intimidade natural e pessoal. Surgirá depois a revelação da verdadeira força da natureza… e a natureza das gentes que a habitam, muito longe daquilo a que estamos habituados a definir como civilização terrestre. Será uma revelação ‘lunar’, vinda de um outro mundo, de uma hostilidade feroz, é certo, mas de uma hospitalidade própria de quem sabe que a sobrevivência humana só se garante com a solidariedade da vizinhança e o obediente respeito pelas leis da natureza.

É indiferente fazer a Nacional 1 no sentido dos ponteiros do relógio ou ao contrário. Cada turista escolherá o seu itinerário e os necessários desvios ao seu percurso. Eu fi-la no sentido contrário ao dos ponteiros do relógio, sendo que as horas no verão islandês são enganadoras porque, não havendo noite, o turista perde a orientação temporal que lhe é dada mais a sul pelos crepúsculos.

Saí do aeroporto diretamente para as origens nacionais, no parque nacional de Pingvellir, onde há mais de mil anos os primeiros colonos estabeleceram o primeiro parlamento, o Alþing, e as suas primeiras leis, e deixei Reiquiavique para o final. É uma visita quase obrigatória porque, além de conduzir a outras atrações turísticas, ajuda a compreender o carácter simultaneamente benevolente e frontal dos islandeses. É um sítio de duas simbologias — a nacional, que lhe é dada pela modesta casa de verão do primeiro-ministro, situada em pleno berço da nacionalidade, e a natural, que é proporcionada pela falha tectónica que a ela conduz. A frontalidade democrática de então e de agora e o lembrete brutal e sempre presente da deriva continental formam, ainda hoje, o carácter coletivo islandês.

Prosseguindo pela estrada 35, chega-se a Geysir e a Gulfoss, os primeiros de muitos contactos com as atividades geotermais da ilha e as sempre espetaculares quedas de água. Geysir, como o próprio nome indica, é um géiser em atividade todos os cinco minutos, para grande alegria de toda a gente, especialmente da miudagem surpreendida pela força do jato e o cheiro intenso a enxofre. Alimentada pelo Langjökull, o segundo maior glaciar do país, Gulfoss, a catarata de ouro, é uma das mais belas, com a massa de água a cair por 32 metros em dois patamares para um desfiladeiro estreito com paredes verticais de 70 metros de altura. É também um símbolo nacional com uma história, a de Sigridur, a mulher que ameaçou atirar-se dela abaixo se fosse para a frente o contrato assinado pelo seu pai autorizando, no princípio do século XX, a construção de uma central hidroelétrica. A sua luta foi reconhecida pelo tribunal e despertou a Islândia para a necessidade de defesa do seu património natural. Desde então, ela é justamente tida como a primeira ambientalista do país.

Nesta mesma zona, quase no final de uma apertada estrada de terra batida, provei pela primeira vez aquilo que mais tarde se iria revelar uma salvação alimentar — a relativamente acessível e muito saborosa sopa de borrego. Num país em que é proibitivo comer fora e onde uma bica custa entre 4 e 5 euros, uma sopa de borrego que serve de refeição completa por cerca de 20 euros surge como um maná de poupança, tanto mais que a água islandesa é pura, levíssima e grátis. Nas zonas do país próximas de atividades geotermais a água tem um final de boca no mínimo enxofrado...

A primeira de várias sopas de borrego foi o jantar oferecido pelos donos da casa de hóspedes Menji Kjarnholt e ‘soube que nem ginjas’, devo confessar, depois de uma viagem de avião e de uma estirada de carro de mais umas cinco horas. Este bed & breakfast no meio do campo, como os muitos outros onde pernoitei, prova até que ponto a Islândia se está a adaptar muito rapidamente ao aumento exponencial do turismo. Na ausência de grandes e médios hotéis, os islandeses transformaram parte ou a totalidade das suas habitações, quer na cidade quer no campo, e sobretudo nas proximidades da estrada circular, e disponibilizam quartos para os turistas. Outros construíram nos seus terrenos pequenos apartamentos ou bungalows. As diversas modalidades e preços de hospedagem incluem partilha de casa de banho e partilha de cozinha, apartamentos com kitchenette para confeção de refeições próprias ou quartos apenas com máquina de café. Em Seydisfjördur, por exemplo, enquanto uma jovem mãe chilena cozia, numa boca do fogão, uma massa com tomate em lata para o jantar do marido e filho de dois anos, eu, noutra boca, aquecia um leite para os flocos que iriam acompanhar um pão com queijo, fiambre ou atum..., já não me lembro, era o que havia na altura disponível no farnel trazido de casa para as primeiras e seguintes impressões.

Não vou dizer que andei a pão e água pela estrada fora. Posso dizer que vim prevenido. Conservas de sardinha e atum, frutos secos, tostas, barras energéticas para aguentar as caminhadas e as subidas aos vulcões. À medida das necessidades, nos minimercados das pequenas localidades do caminho, ia comprando queijo, fiambre, tomates cereja e, para sobremesa, framboesas, produzidas em Portugal, de preferência acompanhadas com skyr, esse misterioso alimento nacional que não é nem iogurte nem leite coalhado mas um produto quase isento de gordura e altamente proteico, que ninguém diz como se faz, nem mesmo a Freytis ou o Ari.

Descendo pela 30, apanhei a nacional 1 um pouco a leste de Selfoss e fui dar à costa, e recostar-me perto do vulcão Eyjafjallajökull, cuja erupção de 2010 paralisou o tráfego aéreo em toda a Europa. Digo dar à costa propositadamente porque o ‘dar à costa’ sempre foi importante na vida dos islandeses. Tive essa noção ao olhar para a porta da casa de banho carcomida do estúdio onde passei duas noites, perto de Skógar, no sul, que constitui um bom ponto de partida para explorar a zona. Durante os mais de cinco anos à deriva no mar, provavelmente vinda da Sibéria, a madeira daquela porta deu à costa esventrada por minúsculos túneis e buracos originados pelas larvas de bivalves. Bem raro na Islândia (rezam as lendas que os vikings esgotaram ao longo dos séculos toda a madeira existente na ilha em saunas e banhos), a madeira pertence a quem a encontra e foi sorte e engenho do dono do estúdio tê-la aproveitado de um modo criativo. Em tempos remotos, se uma baleia desse à costa em margem não reclamada, a autoridade regional fazia com que fosse distribuída pelos habitantes sob a sua jurisdição. Se a costa pertencesse a um felizardo agricultor, já se sabia que tinha alimentação garantida por um ano. Mas antes teria de colocar uma estaca avisando solenemente que ninguém podia mexer no bicho.

Salvo as exceções, conduzir ao longo da costa sul significa atravessar um deserto de lava com menos de um quilómetro de largo e vários de extensão, enquadrado pelo mar a sul e pelas montanhas vulcânicas a norte. Foi aqui, num destes desertos, que disse mal à minha vida e à do Justin Bieber que rodou o vídeo “I’ll Show You” a andar de skate em cima da carcaça de um DC-3 americano que nos anos 70 foi obrigado a fazer uma aterragem de emergência nestas areias de cascalho escaldante. A partir de então, o local tornou-se uma atração turística e, mal aconselhado por um guia de viagens, meti-me ao caminho deserto fora em direção ao mar. Depois de uma penosa caminhada de mais de uma hora, lá fui dar aos destroços do avião na companhia de outros tristes turistas.

Vatnajökull. Um dos braços do gigantesco glaciar alimenta o lago Jökulsárlón

Vatnajökull. Um dos braços do gigantesco glaciar alimenta o lago Jökulsárlón

miguel calado lopes

Uns quilómetros mais a leste, a praia de Reynisdrangar, a sinistra “black beach”, de uma estranha beleza. Apesar de todos os avisos de ocorrência de “sneaker waves”, que em português talvez se possa traduzir por ondas de maré traiçoeiras, furtivas e inesperadas, é grande a tentação para ir ver as colunas de basalto e tirar umas fotos. No entanto, já têm morrido turistas arrastados para o mar por estas ondas inesperadas. Se antes tivesse visto alguns vídeos no YouTube, nunca teria ido à gruta das colunas de basalto, porque aí, se uma pessoa é apanhada, não tem safa possível.

Nas redondezas, duas cascatas de visita obrigatória — Skógafoss e Seljalandsfoss. Na primeira, encha-se de coragem, suba os cerca de 500 degraus, contemple de cima o rio Skógáa de 25 metros de largura a cair de 60 metros de altura e depois acompanhe-o até quase ao glaciar que o alimenta. Um percurso digno de um conto de fadas. Na segunda, encha-se de impermeáveis e percorra a catarata por trás da queda de água, o que é sempre uma divertida experiência.

Em certo sentido, a quinta de Ari e Freytis é um exemplo moderno dos tempos antigos. O casal forma uma família recomposta — ela tem três filhos, duas raparigas e um rapaz; ele, dois rapazes. Não estavam todos ao jantar, uns tinham jantado antes o gulache que a Freytis tinha cozinhado e que eu repeti com gosto. À mesa estava também o italiano Giovanni, de 16 anos, e o americano Chris, dois anos mais velho, que se tinha enamorado via internet por uma das raparigas e decidira vir passar as férias com ela. “Não me parece muito normal”, comentou o Ari. A situação de Giovanni é diferente. Como tinha chumbado o ano, a sua mãe, tendo tido conhecimento da quinta de Ari, telefonou-lhe a pedir-lhe se podia empregar o filho durante seis semanas no verão. E assim foi. Com a autorização oficial e uma subvenção para pagar a Giovanni, Ari arranjou uma preciosa ajuda e o mau estudante de Verona, uma preciosa experiência.

Antes das sete da manhã lá estava ele a mungir as vacas e a ocupar-se das primeiras tarefas agrícolas, sob a supervisão de Ari, que lhe ensinava também o modo como finalizar o ensacamento do feno ceifado uns dias antes. O feno é ensacado mecanicamente em sacos de plástico de cerca de 400 quilos, com cores diferentes. Ao comprar um plástico cor-de-rosa, o agricultor está a contribuir para a pesquisa do cancro da mama. O azul, para o cancro da próstata. As outras cores, para outras pesquisas. Na Islândia, como nos restantes países nórdicos, manda a boa tradição e a ética do trabalho que os filhos ajudem os pais nos seus trabalhos durante grande parte das férias escolares. Não espanta por isso ver miúdos e adolescentes a mudarem os lençóis dos quartos alugados pelos pais ou a mungirem vacas e lavarem os copos do leite fresco bebido ao pequeno-almoço.

Nos tempos antigos, o agricultor era a pessoa mais importante — era ele quem punha e dispunha a seu bel-prazer da família e dos seus empregados. E era ele quem se responsabilizava, e explorava, todos quantos a autoridade regional entendia mandar para a sua quinta. Esta prática corrente em séculos passados, era uma espécie de recomposição familiar, mas forçada por circunstâncias trágicas. Dada a rudeza do clima e a topografia do país, a morte prematura do chefe de família ocorria muitas vezes. A autoridade regional intervinha então, negava o direito da viúva à herança e a família era distribuída pelas diversas quintas da região, sem compaixão pela separação da mãe e dos seus filhos. O Estado ou a Igreja tomavam posse da quinta, especialmente se ela se situasse junto à costa ou junto a rios, porque ficariam com os direitos de pesca fluvial e à posse do que viesse dar à costa. Ari, um antigo carpinteiro que construiu o bungalow onde fiquei instalado, em vez de receber quem a autoridade regional lhe envia em caso de desastre familiar alheio, recebe com um sorriso nos lábios os turistas que lhe são enviados pelo AirBnB ou Booking.com, passe o leitor a publicidade. “Acho que todos os agricultores daqui alugam quartos a turistas”, disse.

Os tempos mudaram muito, é evidente. Antigamente, os miúdos dos seis anos em diante eram mandados sozinhos guardar as ovelhas nas terras altas do interior e ali deveriam permanecer durante o verão. Eram severamente punidos se perdessem uma ovelha para uma ravina ou para uma raposa do Ártico, cujas peles são vendidas na capital a cerca de 700 euros a unidade. Ao conduzir num dia cinzento e numa interminável e desértica estrada de gravilha em direção à casa do Ari, tive uma pálida ideia do pavor que sentiriam essas crianças no meio de uma semiobscuridade brumosa povoada de trolls, elfos e de povo escondido. Todos são os mesmos seres etéreos com nomes diferentes, fantasmas benévolos e malévolos que desde sempre, e ainda hoje, habitam o imaginário coletivo do país. Se perguntar a um islandês se acredita nos trolls, ele dir-lhe-á nem sim nem não, “mas que os há, há”. E se no campo ceifado, notar que um tufo de feno ficou por cortar, não culpe o agricultor de desleixo: limitou-se a preservar em bom estado a entrada para uma das casas do povo escondido. Só assim será boa a colheita do ano seguinte.

Mývatn . Uma piscina geotermal com água sulfurosa entre os 38 e os 40 graus

Mývatn . Uma piscina geotermal com água sulfurosa entre os 38 e os 40 graus

miguel calado lopes

Antes de lá chegar, deixei para trás, sem ver, o landsis forni fjandi (o velho inimigo do país), a banquisa que o gigantesco glaciar Vatnajökull exemplifica com todo o seu dramatismo a preto e branco. A aproximação à sorte grande paisagística que o glaciar proporciona é dada pelo lago glaciar Jökulsárlón, alimentado por um dos braços do Vatnajökull. Passear nas suas margens pode durar um dia à espera da melhor luz, do silêncio mais respeitoso, do movimento mais impercetível dos icebergues, do mergulho submarino. E pode acontecer que um forte ruído surdo perturbe a paz do lugar assustando os caminhantes. Trata-se da inversão do equilíbrio da massa de um icebergue, o que o faz rolar sobre si próprio, chocando com os outros. Foi a minha sorte grande naquele paraíso.

Daqui até ao lago Mývatn, mais a norte e perto de Miðhvammur, vão dois dias de viagem, passando por Höfn e Egilsstaðir, com um desvio e pernoita em Seydisfjördur, o fiorde onde chegam ferries vindos do continente europeu. O desvio compensa por permitir conhecer uma aldeola perdida com casas multicolores de estilo norueguês. A região de Mývatn é o ponto de partida para outras explorações, nomeadamente a impressionante descoberta de Dettifoss. Caindo de 44 metros ao ritmo ensurdecedor de 500 m3 por segundo (qualquer coisa como a capacidade de 50 autotanques dos bombeiros com 20 mil litros de água cada um), as águas da cascata de Dettifoss levantam um spray visível a vários quilómetros de distância originando arco-íris intermitentes de acordo com a inconstância do sol.

Quando se caminha sobre o chão de lava do vulcão Krafla compreende-se por que os astronautas americanos em preparativos de missões lunares andaram por aqui a treinar-se nos anos 70. Quando se sobe a uma das crateras e se avista a lagoa vulcânica Helviti, quando se passeia por entre as fumarolas de Námafjall, quando se deambula pelos “castelos de fogo” de Dimmubórgir (a residência preferida dos trolls) compreende-se também porque é que os islandeses apreciam tanto as piscinas geotermais. Face à inevitável mutabilidade de paisagens que nada garantem à partida de uma vida, o melhor é esquecer a fatalidade do destino telúrico que a todos ameaça e entrar no relaxante torpor que uma água sulfurosa entre os 38 e os 40 graus proporciona ao comum mortal, especialmente quando cá fora, no verão, a temperatura anda pelos 7 graus. Foi o que me aconteceu na piscina geotermal de Mývatn, onde quase vi o sol da meia-noite com o olhar ensonado de um carneiro mal morto. Merecido repouso depois de tanta emoção.

Não podia deixar a Islândia sem cumprir o ritual do banho na mundialmente célebre Lagoa Azul, nos arredores de Reiquiavique. Foi uma derradeira oportunidade para refletir, umas horas antes do voo de regresso, sobre o que acabava de ver durante o dia e meio passado na capital. Comparada com o resto do país, Reiquejavique vê-se num fósforo. No entanto, a chama ilumina a parte velha da cidade como se fosse uma capital dos pequeninos, com as suas casinhas de há cem anos de paredes cobertas de chapas de zinco pintadas de diversas cores. A realidade é dada pelos preços exorbitantes de tudo, desde alimentação a lembranças. Mas a fantasia das pequenas ruas continua por quintais dentro, antigas áreas de trabalho dos primeiros artesãos da cidade. Foi num deles que, vindo da Gronelândia, o seu paraíso pessoal, Sigurgeir me abraçou com um grande sorriso nos lábios sem me conhecer de lado nenhum. Cumprimentou a sua mulher Hlin e pôs-se a arrumar a cozinha. Subi as escadas do seu B & B Forsaela, entrei no meu quartinho de brincar e comecei a arrumar as malas com a promessa de voltar.