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Internacional

Departamento de Justiça afasta-se de Trump e alerta para “ameaças de terrorismo” da extrema-direita

Mark Wilson

Numa conferência sobre segurança nacional na quarta-feira em Salt Lake City, o vice-procurador-geral dos EUA, Rod Rosenstein, avisou que tem havido cada vez mais “extremistas violentos domésticos a planear ataques contra edifícios do governo, empresas e casas de culto”, muitos deles movidos por uma “perniciosa ideologia anti-polícia”

Os receios de ataques orquestrados pela extrema-direita norte-americana têm estado em crescendo desde que o Presidente dos EUA, Donald Trump, defendeu neonazis e outros grupos extremistas nacionalistas no rescaldo da violência em Charlottesville, no estado da Virgínia, há duas semanas, quando um homem que participava na marcha 'Unite The Right' conduziu um carro contra um grupo de manifestantes anti-racismo, provocando um morto e 19 feridos.

“É difícil olhar” para a forma como o líder norte-americano lidou com esses acontecimentos “de outra maneira que não um desastre”, dizia esta semana uma fonte oficial sob anonimato à “Mother Jones”. “Existem preocupações reais quanto ao rumo que o país vai seguir” perante a ausência de condenação da extrema-direita pelo Presidente. É o mesmo tipo de aviso que o vice-procurador-geral dos EUA, Rod Rosenstein, fez na quarta-feira durante uma conferência sobre segurança nacional em Salt Lake City.

Depois de referir aos profissionais de segurança presentes que, nos últimos meses, houve cada vez menos norte-americanos a tentarem juntar-se ao autoproclamado Estado Islâmico (Daesh) no estrangeiro — e embora tenha sublinhado que estes radicais continuam a representar uma ameaça à segurança dos EUA — Rosenstein declarou que “o Departamento de Justiça também continua vigilante quanto à ameaça de terrorismo doméstico”, prosseguindo: “Extremistas violentos domésticos têm estado a planear ataques a edifícios governamentais, empresas e casas de culto. Já planearam e executaram homicídios de agentes da polícia, de juízes, de médicos e de ativistas de direitos civis. Já adquiriram armas químicas, armas de fogo ilegais e explosivos e concretizaram matanças que aterrorizam as comunidades locais.”

Durante o discurso, o número dois do Departamento de Justiça citou casos específicos que, nos últimos anos, envolveram supremacistas brancos e outros membros da extrema-direita, os mesmos que Trump continua a não condenar, referindo entre eles o massacre de uma congregação de afro-americanos em Charleston, na Carolina do Sul, às mãos do racista Dylann Roof. “Os extremistas domésticos violentos representam um perigo particular para os agentes de segurança, não só porque eles lidam com situações perigosas mas também porque alguns grupos extremistas têm a polícia como alvo”, avisou Rosenstein.

Veja-se o caso dos dois agentes da polícia de Las Vegas mortos em junho de 2014 numa emboscada durante a sua hora de almoço. “Depois disso, os assassinos mataram outra vítima inocente e, durante o ataque, declararam que aquilo era o início de uma autoproclamada revolução. Há muitos outros exemplos de ataques executados por criminosos que são alimentados por uma perniciosa ideologia antipolícia — Dallas, Nova Iorque, Baton Rouge, Kissimmee e outras tragédias”, referiu o vice-procurador-geral. “O terrorismo doméstico é muitas vezes motivado pelo ódio e intolerância. Em outubro passado, três suspeitos foram indiciados por planearem atacar um complexo habitacional em Garden City, no Kansas, onde imigrantes somalis vivem e rezam. As acusações incluem violações de direitos civis e os réus estão agora à espera de julgamento. [...] Ontem [terça-feira], ouvimos uma apresentação sobre o diabólico ataque de Dylann Roof à Igreja Metodista Episcopal em Charleston, na Carolina do Sul. Roof assassinou nove pessoas desarmadas e inocentes que estavam a participar num estudo da Bíblia. Ele abraçou o desejo de desencadear uma guerra de raças e foi condenado à morte sob acusações de crimes de ódio.”

Rosenstein também fez referência às cenas de caos e violência na Virgínia que Trump atribuiu a “muitos lados” e não apenas aos grupos nacionalistas xenófobos que saíram à rua em Charlottesville, gritando coisas como “Os judeus não nos vão roubar trabalho”. “Em Charlottesville, este mês, vimos e ouvimos pessoas a defender abertamente o racismo e a intolerância. O nosso Departamento de Justiça respondeu imediatamente. Estamos a trabalhar com as autoridades locais quanto a possíveis acusações formais de crimes contra os direitos civis. A Primeira Emenda muitas vezes protege o discurso de ódio que é abominável para os valores americanos. Mas não pode ser dado porto seguro à violência.”

As suas palavras ecoaram o comunicado oficial que o procurador-geral dos EUA emitiu no rescaldo daqueles eventos e que ganhou pouca tração nos media por causa da série de declarações controversas proferidas pelo Presidente nos dias que se seguiram. O atropelamento de dezenas de pessoas que estavam a participar na contramanifestação, declarou Jeff Sessions a 14 de agosto, é “um ato vil que se integra na definição de terrorismo doméstico”. Note-se que, na sequência daqueles acontecimentos, também o secretário de Estado norte-americano, Rex Tillerson, já se tinha distanciado de Trump, declarando que “o Presidente fala por si”. O mesmo aconteceu com James Murdoch, diretor do conglomerado de “media” que detém a Fox News, quando declarou: “Não acredito que tenho de escrever isto — fazer frente aos nazis é essencial; não há bons nazis, nem bons homens do [Ku Klux] Klan nem bons terroristas. Democratas, republicanos e outros têm todos de concordar nisto.” E também com os ex-Presidentes Bush, que em comunicado tomaram a atitude que era esperada de Donald Trump, condenando “o racismo, o antissemitismo e o ódio sob todas as suas formas”.