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Internacional

Acordo com milícias de traficantes líbios reduz drasticamente número de emigrantes que chegam à Europa

ANTONIO PARRINELLO / Reuters

Quanto ao estímulo que isso dá à criminalidade, e ao modo como as milícias tratam os refugiados, tudo indica que são questões secundárias para Tripoli… e para Roma

Luís M. Faria

Jornalista

Um acordo entre duas milícias líbias e o governo do país, com a aquiescência do governo italiano, estará na origem da grande queda da quantidade de emigrantes que chegaram a Itália vindos da Líbia nos últimos dois meses, refere o "Washington Post". Em relação a agosto, por exemplo, o número foi cerca de três mil, contra um total de 21.300 no ano passado.

A redução já tinha chamado a atenção no mês passado, e na altura foram adiantadas várias possíveis explicações. Entre elas, a melhor performance da guarda-costeira líbia, que recebe dinheiro da União Europeia, e as próprias condições climatéricas. Mas esses fatores não bastavam para explicar uma alteração tão dramática.

Agora chegou a peça que aparentemente faltava no puzzle: a notícia de um acordo feito pelo governo líbio com duas das milícias mais poderosas do país, ambas sediadas na cidade de Sabratha e dirigidas por dois irmãos. Conhecidas respetivamente por Brigade 48 e Al-Ammu, estão há muito associadas ao tráfico humano. Em especial a segunda, cujo nome oficial é Brigada do Mártir Anas al-Dabashi. A família Dabashi está na base das duas.

Um porta-voz da Al-Ammu diz que o que existe atualmente é uma trégua, e ameaça explicitamente com o regresso ao tráfico se as autoridades deixarem de cumprir aquilo a que se obrigaram. Concretamente, pagar salários e fornecer equipamento diverso, incluindo barcos.

Embora os termos exatos em que a Itália aprovou este arranjo não sejam conhecidos, parece que se dá por adquirido que o país faz parte dele dele. O que indigna associações humanitárias e não só, uma vez que as milícias, além de serem um elemento criminal por direito próprio, são a principal causa da fraqueza de sucessivos governos na Líbia.

Pagar-lhes é garantir que elas continuam a ter meios para comprar armas e a dispor de outros recursos essenciais. Mas para governos ocidentais como o italiano, que enfrenta a ira crescente dos seus povos com o afluxo maciço de emigrantes, isso poderá ser visto como um mal menor. E de qualquer modo, as milícias já tinham ligações próximas ao governo líbio – uma delas ao Ministério do Interior, outra ao da Defesa.

Nada disto dá garantias ao governo, até porque as milícias trocam frequentemente de lado. E o acordo agora feito é uma forma pouco disfarçada de remunerar a criminalidade. Para já não falar da forma como elas tratam os emigrantes e refugiados quando lhes deitam as mãos…