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Internacional

Tillerson distancia-se de Trump: “O Presidente fala por si”

NICHOLAS KAMM

Numa entrevista à Fox News, este domingo, perante o contínuo “êxodo” de diplomatas, o chefe do Departamento de Estado demarcou-se dos controversos comentários proferidos pelo Presidente no rescaldo da violência racista em Charlottesville, quando equiparou neonazis e grupos de extrema-direita aos manifestantes que saíram à rua contra o discurso de ódio e a xenofobia

O secretário de Estado norte-americano disse este domingo que o Presidente Donald Trump "fala por si" no que toca aos valores da tolerância e da igualdade racial, quando foi questionado num programa da Fox News sobre a resposta do chefe máximo dos EUA aos episódios de violência registados há duas semanas em Charlottesville, na Virgínia – quando uma marcha da extrema-direita culminou em dezenas de feridos e na morte de uma ativista de 32 anos, que foi atropelada por um neonazi.

Questionado pelo apresentador Chris Wallace sobre se os Estados Unidos estão comprometidos com a liberdade e "o igual tratamento de pessoas de todo o mundo" face à ausência de condenação aos neonazis pelo Presidente Trump, Rex Tillerson começou por sublinhar: "Não penso que haja alguém que duvide dos valores do povo americano." Na contrapergunta de Wallace sobre "os valores do Presidente", o chefe da diplomacia americana respondeu sucintamente: "O Presidente fala por si."

Como relata a "Slate": "As entrevistas de domingo costumam ser tão previsíveis que, muitas vezes, os convidados parecem estar a ler guiões. Mas Chris Wallace, da Fox News Sunday, pareceu ficar genuinamente chocado quando, ao lançar o que parecia ser uma pergunta descartável ao secretário de Estado Rex Tillerson, obteve uma resposta muito surpreendente. Em suma, o diplomata máximo sugeriu que o Presidente dos Estados Unidos não fala necessariamente pelo país quando se refere aos valores americanos."

"Acredito que o secretário de Estado acabou de atirar o Presidente dos Estados Unidos para baixo do autocarro", comentou no Twitter Eliot Cohen, ex-conselheiro do Departamento de Estado.

A notada demarcação de Tillerson em relação ao Presidente acontece depois de uma comissão das Nações Unidas ter criticado o facto de "os líderes dos EUA" não terem condenanado "suficientemente" os grupos de supremacistas brancos no rescaldo dos eventos em Charlottesville – um alerta sobre racismo e crimes de ódio que pareceu ser dirigido a Donald Trump ,depois de este ter responsabilizado "os dois lados" dos protestos, os neonazis e os contramanifestantes antirracismo, pelos episódios de violência.

O aviso da comissão da ONU para a eliminação da discriminação racial surgiu a 23 de agosto, uma semana depois das violentas manifestações de neonazis armados na cidade da Virgínia. A ele seguiu-se o que a "Foreign Policy" descreveu no final da semana passada como a continuação do "êxodo" de funcionários do Departamento de Estado.

Na sexta-feira, Tracey Ann Jacobson, diplomata que até agora chefiava o gabinete para os assuntos internacionais do Departamento de Estado, anunciou que vai entrar em reforma antecipada, isto depois de outros dois diplomatas de topo, William Rivington Brownfield e Kristie Kenney, terem feito saber que pretendem afastar-se dos seus cargos. Fontes internas avançaram à revista que Brownfield, sub-secretário de Estado para os Assuntos Internacionais de Narcóticos e Aplicação da Lei desde 2010, informou os seus subordinados de que vai abandonar o cargo em setembro – quatro meses depois de Kenney, sua mulher e uma das mais experientes funcionárias do Departamento de Estado, ter confirmado a sua demissão.