Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

PM italiano debate migrações com parceiros da UE e África perante grande protesto de apoio a refugiados

ALBERTO PIZZOLI

Milhares de italianos saíram às ruas de Roma este sábado, após a polícia ter usado bastões e canhões de água contra grupo de 100 refugiados acampados numa praça, em protesto contra o seu despejo de um edifício da capital

Milhares de italianos marcharam este fim de semana pelo centro de Roma numa manifestação de apoio aos refugiados que têm procurado asilo em Itália, dias depois de a polícia ter usado bastões e canhões de água para dispersar um grupo de 100 refugiados, na sua maioria da Eritreia, que estavam acampados no centro da capital em protesto contra a sua iminente expulsão de um edifício onde 800 requerentes de asilo têm estado albergados enquanto aguardam realojamento.

O incidente veio expor as crescentes hostilidades e profundas divisões em Itália face à crise migratória, depois de o país se ter tornado a principal porta de entrada de refugiados na Europa desde que a União Europeia alcançou um controverso acordo com a Turquia, em março de 2016. para reduzir o número de chegadas à Grécia. Entre janeiro e junho deste ano, quase 100 mil requerentes de asilo desambarcaram na costa italiana e as autoridades continuam sem conseguir garantir o acolhimento e integração destas pessoas.

Face a isto, o primeiro-ministro Paolo Gentiloni vai encontrar-se esta segunda-feira com o Presidente de França, Emmanuel Macron, com os chefes de governo de Espanha e da Alemanha e também com os líderes do Chade, Níger e Líbia para discutir formas de combater a "migração ilegal" de África para o continente europeu, em mais uma tentativa de limitar as chegadas ao país.

É este o pano de fundo dos debates políticos numa altura em que Itália se prepara para as próximas eleições gerais, que vão ter lugar antes de maio de 2018, com os partidos da direita e da extrema-direita a aproveitarem a situação caótica para alimentarem a retórica anti-imigração. "Infelizmente", diz ao "The Guardian" a deputada e ex-ministra para a Integração Cécile Kyenge, "isto está a acontecer antes das eleições". "Na minha opinião, a boa receção de migrantes tem de ser uma prioridade [da campanha] – se for bem feita, beneficia toda a gente e previne conflitos como aquele que teve lugar em Roma. Há muitos exemplos de boa integração em Itália, sobretudo em pequenas cidades, mas também há muitos exemplos de más práticas."

Exemplo disso foi o incidente da semana passada largamente condenado por políticos e ONG, dentro e fora do país. Os cerca de 100 refugiados que a polícia dispersou da estação Termini, no centro de Roma, com recurso a bastonadas e canhões de água integram um grupo de 800 pessoas que, na sua maioria, já receberam asilo, já têm empregos e filhos inscritos em escolas da cidade mas que, mesmo assim, continuam a viver num edifício de seis andares sem condições que estava desocupado antes da sua chegada ao país.

As autoridades defendem que o despejo ocorreu porque os refugiados rejeitaram a oferta de alojamento alternativo e por causa dos riscos de estarem a usar botijas de gás para aquecer comida numa área habitacional. Ativistas de Direitos Humanos na cidade, bem como a agência da ONU para os Refugiados, acusaram a polícia de estar a conduzir o despejo sem aviso prévio e de ter forçado pelo menos 200 pessoas a dormirem nas ruas de Roma, na prática desmentindo a versão oficial.

No sábado, milhares de requerentes de asilo e italianos que saíram em sua defesa marcharam pela capital com cartazes onde se lia "Os refugiados não são terroristas", exigindo o fim dos despejos e garantias de habitação adequada aos requerentes de asilo – depois de, na véspera, o conselho municipal de Roma, cuja câmara é liderada pelo movimento populista Cinco Estrelas, ter chegado a um acordo com a empresa que detém o edifício em causa para que 40 refugiados idosos, doentes e menores possam continuar a viver ali nos próximos seis meses enquanto aguardam novas casas.

Há rumores de que, neste momento, o Ministério do Interior está a preparar novas diretivas para regular futuros despejos de refugiados e migrantes, num plano que inclui propostas de realojamento imediato dos mais vulneráveis. O incidente da semana passada, contudo, não deixa de servir de alerta, numa altura em que há cerca de 200 mil pessoas a viver em abrigos geridos pelo Estado enquanto aguardam o processamento dos seus pedidos de asilo.