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Os robôs querem emprego. E agora?

A procura de robôs industriais aumentou 59% desde 2010. Há fábricas sem seres humanos e máquinas a atender clientes em lojas. Patrões e sindicatos alemães procuram adaptar-se à revolução tecnológica

Tiago Carrasco na Alemanha

No pavilhão de desenvolvimento de robôs do Instituto Fraunhofer, em Estugarda, a maior instituição europeia de investigação científica aplicada à indústria, está a ser concebida a fábrica do futuro. À esquerda, uma máquina com sensores instalados nos braços mecânicos capaz de reconhecer objetos e passá-los de um recipiente para outro. À direita, um corpo de metal em laranja vivo debruçado sobre uma mesa, com tenazes para aparafusar, colar ou montar peças em qualquer linha de montagem. Mais objetos surgem à medida que se avança no corredor, estranhos e auspiciosos, como componentes de uma fábrica autónoma instalada numa nave espacial.

Contudo, nem o Fraunhofer é um cenário de ficção científica nem estes dispositivos estão a anos-luz de serem aplicados. Os 400 cientistas do instituto estão a criar as ferramentas da Indústria 4.0. É a quarta revolução industrial, que recorre à automação e à partilha de dados informáticos, através de sistemas ciberfísicos, da internet dos objetos e da nuvem, para criar uma “fábrica inteligente”, em que todos os sistemas operam de forma autónoma e integrada.

Num dos cantos da sala, está enjaulado um robô de grande envergadura, destinado a carregar cargas pesadas. É um dos únicos protegidos por grades. “Esta geração de robôs tinha de estar isolada porque não era segura no contacto com as pessoas”, diz Karin Röhricht, responsável de comunicação do departamento de robótica. “O paradigma atual é que os robôs saiam da jaula e trabalhem ao lado dos humanos. São os robôs colaborativos: mais pequenos, mais baratos, mais fáceis de utilizar e equipados com sensores de visão artificial e de toque para não magoarem os trabalhadores.”

Cinco milhões 
de empregos eliminados

Karin aponta para um dispositivo de calibragem: “A versão anterior desta máquina precisava de 200 minutos para ser programada, agora precisa apenas de 10. Qualquer operário aprende a manejá-la numa hora, antes eram exigidas semanas de formação.”

A Federação Internacional de Robótica (IFR) vai divulgar pela primeira vez este ano quantos robôs colaborativos estão em uso na indústria. Para já, estes números estão diluídos no total de robôs industriais: só em 2015 foram adquiridos 254 mil novos dispositivos para fábricas e a procura cresceu 59% desde 2010. A Alemanha é o quinto maior mercado mundial — depois da China, da Coreia do Sul, do Japão e dos Estados Unidos — e lidera a tabela europeia. A forma como Berlim responder aos desafios da automação vai determinar o que fará o resto da Europa. Segundo o Fórum Económico Mundial, cinco milhões de postos de trabalho desaparecerão no Ocidente até 2020 por razões tecnológicas.

O YuMi, um dos robôs colaborativos mais evoluídos, desenvolvido pela ABB Robotics, pode tornar-se um dos principais concorrentes no mercado de trabalho. Tem sido o centro das atenções nas feiras internacionais: sabe fazer e atirar aviõezinhos de papel, preparar cocktails e até resolver o cubo de Rubik. Mas é a sua polivalência que o torna promissor. “Pode fazer um pouco de tudo, desde carregar em botões, juntar peças ou montar produtos de plástico ou componentes eletrónicos. Pode fazer as tarefas mais ingratas e complicadas. Na indústria eletrónica, por exemplo, muitas vezes tem de se tocar em produtos químicos perigosos mas inofensivos para o robô”, diz Hui Zhang, diretor de gestão de produtos da ABB.

“Há cada vez mais consumo e os produtos alteram-se rapidamente. Estes robôs não necessitam de treino, ao contrário das pessoas, e adaptam-se automaticamente às novas exigências. O paradigma vai ser a passagem da produção em série para a produção personalizada. Vai obrigar as pessoas a tornarem-se tecnologicamente mais avançadas e a adquirir conhecimentos de automação. Não queremos fábricas sem pessoas mas nem todos pensam assim.”

Uma fábrica sem operários

É o caso da Adidas. Inaugurou este ano em Ansbach, na Baviera, a SpeedFactory, fábrica totalmente automatizada sem um único empregado de carne e osso. Pretende produzir os 301 milhões pares de ténis que a empresa vende anualmente, deslocando a produção para junto do consumidor. Outra unidade semelhante avança nos EUA.

“Deste modo, eliminamos a fase de transporte, possibilitando às lojas encomendarem o calçado em função das tendências sem ficarem meses à espera. E dispensarmos o recurso a grandes armazéns”, diz Katja Shreiber, diretora de comunicação, que rejeita que a SpeedFactory vá atirar para o desemprego os trabalhadores chineses, indonésios e vietnamitas que trabalham para a marca na Ásia.

Nunca houve tanto trabalho na Alemanha desde o fim da II Guerra Mundial. No entanto, empresas e sindicatos sabem que a supressão de postos de trabalho devido aos robôs é inevitável e começam a preparar-se. “A automação é imparável e não vamos precisar de tanta mão de obra”, diz Marc Schietinger, investigador da Fundação Hans-Böckler, braço científico da DGB, a maior federação sindical alemã e europeia. “Queremos evitar duas coisas. A divisão da massa laboral entre qualificados e não qualificados e a substituição direta do trabalhador por uma máquina. Para isso, é preciso qualificar os trabalhadores nas empresas. Os empregadores têm o dever de lhes conferir competências de robótica, de comunicação e de gestão de sistemas complexos, e não substitui-los integralmente por funcionários mais jovens e qualificados.”

No quadro da plataforma governamental Indústria 4.0, ministros, associações empresariais e sindicatos já se reúnem para debater mecanismos de resposta a uma possível crise laboral, com grupos de trabalhadores a serem enviados para “laboratórios do futuro” instalados em universidades e centros de investigação para se formarem em robótica e automação.

A revolução dos carros elétricos

A indústria automóvel é a que mais recorre aos robôs: 1147 máquinas por cada 10 mil operários. E isto com a Alemanha muito atrás dos EUA e das potências asiáticas no desenvolvimento de carros elétricos. “Vai ser preciso tomar decisões rapidamente, caso contrário, dentro de dez anos, a indústria automóvel alemã pode deixar de existir”, diz Marc Shietinger. Por cada sete empregos no fabrico de um motor de combustão apenas um é necessário para motores elétricos. “Há novos candidatos e operários mais velhos a serem treinados para trabalhar com motores elétricos”, afirma Frederic Speidel, investigador do sindicato IG Metall e um dos principais especialistas do país em indústria automóvel. “Mas que vamos fazer às pessoas cujas aptidões já não sejam precisas? Com o advento dos automóveis elétricos, fabricantes como Mercedes, BMW ou Volkswagen e fornecedores como Bosch, Continental ou Siemens serão empurrados para o mesmo mercado. Um carro elétrico tem 200 partes em vez de 1400. Até a Google e a Apple vão querer fazer carros. As decisões que os fabricantes tomarem na próxima década vão ditar a sua sobrevivência.”

Pressionado pelo escândalo da emissão fraudulenta de gases poluentes, o grupo VW, dono da unidade fabril Autoeuropa, em Portugal, foi dos primeiros a anunciar a sua estratégia: em 2025, 25% dos seus carros serão elétricos. Mas a empresa alemã vai apostar na substituição dos trabalhadores em idade de reforma por robôs.

Robôs a vender e a atender

A revolução também chegou aos serviços. Numa outra sala do Instituto Fraunhofer está o Care Kart, um carrinho hospitalar que, a curto prazo, irá levar medicamentos e copos de água aos doentes mediante ordem das enfermeiras. À sua frente, o Care-O-Bot 4, um ultramoderno robô colaborativo que tanto pode ser lojista como empregado doméstico: reconhece a voz, tem um painel tátil na cabeça, visão artificial e dois braços mecânicos flexíveis que lhe permite apanhar objetos do chão.

A mesma equipa vigia “Paul”, o primeiro Care-O-Bot a arranjar emprego numa loja multimédia. Recebe o pedido dos clientes e encaminha-os à prateleira onde está o DVD ou o telemóvel pretendido. “Queremos robôs em todo o lado, mas para isso as pessoas vão ter que os aceitar”, diz Bruno Ferreira de Brito, engenheiro portuense envolvido no desenvolvimento do Care-O-Bot no Fraunhofer. “Devem ser simples e parecidos com pessoas. A população mais velha ainda tem relutância em tocar num robô. Por isso, vão parecer-se cada vez mais connosco, ter capacidade de diálogo, visão, reconhecimento e empatia.”

No noroeste da Alemanha, em Aachen, a Precire desenvolveu um software talhado para reforçar os departamentos de recursos humanos com uma ferramenta que lhes permite analisar o discurso dos candidatos no processo de recrutamento. A Vodafone, a Randstad e a Airbus já o adquiriram. “Estamos a trabalhar numa nova funcionalidade dirigida aos consumidores, em que vamos poder analisar, por exemplo, os comentários escritos por utilizadores da Expedia para desenvolver melhores recomendações de viagem”, diz Mário Reis, CEO da empresa. “Queremos criar um sistema em que a máquina não satisfaça apenas pedidos mas entenda as emoções do cliente e responda adequadamente. Se estiver zangado, a máquina vai tentar acalmá-lo.” Ou seja, “se a digitalização é imparável, não há razão para falarmos com uma máquina emocionalmente estúpida se pudermos interagir com um modelo emocionalmente evoluído”.