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Quanto mais perto um partido está do poder, mais abaixo na lista surge o nome da primeira mulher candidata

Mais de metade dos 9.317.294 angolanos que estão recenseados são mulheres. Nenhum dos seis partidos candidatos tem uma mulher como cabeça de lista para o círculo nacional

“Quanto mais próximo do poder está um partido, mais longe na lista de candidatos surge o nome da primeira mulher” para o círculo nacional. O Expresso conversou com a socióloga Luzia Moniz, da Plataforma para o Desenvolvimento da Mulher Africana, sobre a discriminação de que são alvo as mulheres angolanas. “E elas são determinantes para o sustento das famílias”, lembra Manuel Santos, da Plataforma de Reflexão

Este texto começa com a boa notícia: a província da Huíla [sul de Angola] é aquela em que MPLA, Unita e CASA−CE, os três maiores partidos que concorrem às eleições desta quarta-feira “têm mais mulheres nas suas listas. Qualquer deles tem 40% de mulheres na lista”, diz ao Expresso a socióloga angolana Luzia Moniz, membro da Padema − Plataforma para o Desenvolvimento da Mulher Africana.

Isto acontece porque a Huíla é “a segunda praça eleitoral de Angola” [o maior círculo a seguir a Luanda], e porque “as mulheres são 52% do total da população recenseada”, diz Luzia Moniz.

Cada um dos seis partidos concorrentes às eleições tem uma lista candidata ao “círculo nacional e uma lista para cada um dos 18 círculos provinciais. A Assembleia Nacional que vai sair destas eleições terá 220 deputados: 130 são eleitos pelo círculo nacional e 90 pelos círculos provinciais”, explica Moniz.

Cabeças de lista do círculo nacional são todos homens

Depois da boa notícia, vêm as más notícias sobre a vida das mulheres em Angola: só há homens como cabeças de lista dos seis partidos para o círculo nacional − e estas listas são mais importantes, porque este círculo elege mais deputados: “A primeira mulher na lista do MPLA para o círculo nacional ocupa o 5º lugar da lista; no caso da Unita, o segundo maior partido, surge em 4º lugar. E na CASA-CE, em 3º lugar”, diz a socióloga Luzia Moniz, que analisou a composição de todas as listas.

epa


“Quanto mais próximo um partido está do poder, mais mal colocadas nas listas para o círculo nacional estão as mulheres”, lembra Moniz: “No caso do MPLA, a primeira mulher candidata para o círculo nacional é Luzia Inglês Van-Dunem, secretária-geral da Organização das Mulheres Africanas (OMA), o braço feminino do MPLA, que representa mais de metade dos militantes do partido; a OMA tem cerca de 3 milhões de filiadas e o MPLA 5 milhões, sendo que quase todas as filiadas na OMA são militantes do MPLA”.

Cargos mais importantes do Estado vedados às mulheres

“Com esta composição das listas para o círculo nacional, os três cargos mais importantes da representação do Estado angolano não vão poder ser desempenhados por uma mulher”, afirma Moniz: “Os três primeiros lugares da lista são homens”, e homem será o Presidente, vice-Presidente, e Presidente da Assembleia Nacional que vierem a ser eleitos no sufrágio de 23 de agosto.

lusa

Se na tradição rural africana são as mulheres que fazem quase todos os trabalhos mais pesados, como lavrar a terra e acartar água, porque aos homens cabem tarefas de maior prestígio social, o modelo quase se replica na formação das listas eleitorais, “apesar de atualmente existirem mais mulheres a frequentar qualquer nível de ensino em Angola”, lembra Manuel Santos, da Plataforma de Observação, uma organização que reúne angolanos na diáspora: “E são as mulheres que dão um contributo para o sustento das famílias com menos recursos, que representam 50 a 60% dos agregados familiares angolanos. Elas, com o seu trabalho e os seus negócios informais, são decisivas”, apesar de continuarem a não ter o destaque que merecem nas listas eleitorais.

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