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Internacional

Portugal tem sido a máquina de lavar dos angolanos, escreve o “New York Times”

O Estoril-Sol surge em destaque no artigo

António Pedro Ferreira

Num longo artigo sobre a relação entre Portugal e Angola, publicado esta terça-feira, na véspera das eleições angolanas, o diário norte-americano conta como a elite de Luanda tem utilizado Lisboa para lavar dinheiro

É com uma fotografia do edifício Estoril-Sol, um condomínio de luxo baptizado como o “prédio dos angolanos”, que o “The New York Times” abre uma extensa reportagem sobre como “o colonizador foi colonizado”. Publicada esta terça-feira, na véspera de eleições na antiga colónia portuguesa, a peça explica de forma detalhada como Portugal tem servido nos últimos dez anos para as figuras da elite de Angola canalizarem as fortunas que foram acumulando durante o regime do presidente José Eduardo dos Santos, que agora se prepara para abandonar o cargo, ao fim de quase quatro décadas. “Angola é frequentemente referenciada como uma das nações mais corruptas do mundo”, escreve o jornal. “E Portugal foi destacado pela sua permissividade no combate ao branqueamento de capitais e à corrupção, particularmente em relação aos angolanos, de acordo com a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE).” O diário dá logo como primeiro exemplo o caso de Isabel dos Santos, a filha mais velha de José Eduardo dos Santos “que se tornou uma das figuras mais poderosas de Portugal, ao comprar posições importantes na banca, nos media e no sector da energia”. Entrevistada pelo jornal, a eurodeputada socialista Ana Gomes resume o assunto de forma liminar: “Em Angola chamam lavandaria a Portugal”.

No artigo, o New York Times cita, entre outras fontes, um relatório do Departamento de Estado norte-americano sobre branqueamento de capitais publicado em março deste ano em que é dito que “fundos suspeitos com origem em Angola são usados para comprar negócios e imobiliário em Portugal”. O diário norte-americano recorda um incidente diplomático entre os dois países em 2013 para dar noção da dimensão que esse fluxo de capitais atingiu. “A classe dominante de Angola lucrou tanto durante o seu mandato [de José Eduardo dos Santos] — e canalizou tanto desse dinheiro para Portugal — que, quando Angola ameaçou cortar relações em reação a notícias de que funcionários do Estado angolano estavam a ser investigados por corrupção em Portugal, o ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal desculpou-se logo, iniciando um debate intercontinental sobre a mudança da dinâmica na relação de poder entre as duas nações.” A crise financeira em Portugal e o boom económico provocado pela subida do preço do petróleo criaram a dada altura as condições para uma “combinação perfeita” que levou a que elite ligada à família do presidente e ao seu círculo próximo virassem as atenções para Lisboa.

António Monteiro, antigo ministro dos Negócios Estrangeiros português e chairman do Millennium BCP (que tem a Sonangol como principal accionista), admitiu ao New York Times, que Angola “foi um investidor muito bem vindo e que, em certos momentos, foi o único investidor em Portugal”. Também entrevistado, Luís Mira Amaral, ex-ministro da Indústria e ex-CEO do Banco BIC (controlado por Isabel dos Santos) defendeu que não seria possível Portugal mudar o facto de os mesmos indivíduos em Angola serem simultaneamente líderes políticos e líderes no mundo dos negócios, sublinhando que os bancos portugueses verificam, de qualquer forma, a origem do dinheiro que é canalizado para Lisboa. “Quando vejo Isabel dos Santos colocar dinheiro em Portugal é porque ela tem uma série de grandes empresas em Angola. É fácil de justificar”, disse ao diário, dando o exemplo da Unitel, a maior operadora de telecomunicações angolana. “Depois, pode perguntar como ela conseguiu criar essa empresa”, acrescentou. “Mas isso é outra questão. Não é um problema meu como administrador de um banco.”