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Neonazis à boleia de Trump

Supremacistas, neonazis
 e membros do ‘alt-right’ armados nas ruas
 de Charlottesville

FOTO DE Chip Somodevilla/Getty

O líder americano desculpou a extrema-direita em Charlottesville e esta responde que é tempo de “acordar”. No berço do Klu Klux Klan celebra-se com a bandeira portuguesa

O Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, garantiu que houve “gente decente” na manifestação neonazi em Charlottesville e classificou o protesto de “inocente”. A extrema-direita americana acredita que o seu tempo voltou. “É tempo de acordar”, diz ao Expresso Jared Taylor, líder do movimento ‘alt-right’, coorganizador daquele evento na cidade da Virgínia.

E tudo isto ocorre numa altura em que se realizam as tradicionais festas da supremacia branca. Numa delas, na cidade de Pulaski, berço do Klu Klux Klan (KKK), há uma bandeira de Portugal a servir de adereço. Uma associação que vamos tentar esclarecer.

De volta ao magnata nova-iorquino, cercado até agora pela investigação criminal ao alegado conluio com a Rússia para viciar os resultados das últimas presidenciais. Os eventos desta semana isolaram-no ainda mais, depois de ter sido bombardeado por críticas de republicanos, democratas, chefes das forças armadas, empresários e até estrelas do desporto, discretas no comentário político, mas com milhões de seguidores na vida real e virtual, via redes sociais.

As palavras do Presidente, proferidas em conferência de imprensa, na terça-feira, um dia depois de o próprio ter lido uma mensagem de condenação 48 horas após os incidentes, revoltaram a consciência liberal americana. Naquela manifestação de extrema-direita realizada sábado passado, ouvira-se: “Os judeus não nos irão substituir”.

A indignação deu origem à destruição de ícones da confederação, a autoproclamada nação de estados do Sul defensores da secessão, que no século XIX se opôs ao fim da escravatura.

A guerra civil de 1861-65 ditaria o fim dessas aspirações com a vitória do norte, mas no início do século XX nasceram como cogumelos estátuas de heróis sulistas, que organizações humanitárias classificam, ainda hoje, de instrumentos de ameaça.

Trump, que é contra a destruição desses monumentos, diria que a demora na condenação se deveu à “necessidade de apurar os factos”. Tal surpreendeu, visto que ele se celebrizou por twitar tese falsas à velocidade da luz, como por exemplo a de que existiram “milhões e milhões de votos ilegais nas últimas eleições”, de que “Barack Obama nasceu no Quénia” e que a sua tomada de posse “foi a maior da história”.

“A partir de agora abriu-se uma porta. Ela conduz-nos a uma realidade onde ninguém responsável pode continuar a afirmar que Donald Trump tem a decência necessária para ser Presidente”, afirma ao Expresso o professor Daniel P. Franklin, historiador da Universidade de Georgia State e antigo conselheiro do ex-Presidente Ronald Reagan.

Noutra entrevista, Doug Heye, diretor de comunicação do Comité Nacional Republicano entre 2010 e 2012, o órgão máximo do Partido, teme que, com este tipo de comentários, se transmita a ideia de que “o racismo é endémico no Partido Republicano”.

Deixou de ter piada

Nas ruas e cafés da Nova Inglaterra, centro do Norte vitorioso durante a guerra civil, vive-se um ambiente algo depressivo, temendo-se que o chefe de Estado tenha aberto uma caixa de Pandora, de onde possam sair novas explosões de tensão racial — este ano celebram-se os 50 anos da revolta negra de Detroit e 25 da de Los Angeles, durante as quais 43 e 63 pessoas foram mortas, respetivamente. Em ambos os confrontos, quase 20 mil pessoas acabaram detidas.

Os comediantes da noite televisiva tentavam desanuviar o ambiente, mas sem esquecer o essencial. Por exemplo, sobre a equivalência feita pelo Presidente, que afiançou que ambas as fações em Charlottesville tinham culpas no cartório, o sarcástico Stephen Colbert concluiu: “Um lado odeia minorias, o outro odeia gente que odeia minorias. Percebem? Foi como no Dia D, dois lados: os aliados e os nazis. Houve violência dos dois lados e acabaram por arruinar uma praia linda”.

David Gergen, professor na Universidade de Harvard e conselheiro dos Presidentes Richard Nixon, Gerald Ford, Ronald Reagan e Bill Clinton (apenas este último é democrata), confessa-nos que perdeu a vontade de rir. “Honestamente, este Presidente é a coisa mais bizarra que eu já vi em toda a minha vida. A nossa segurança e integridade como nação estão em risco”.

Robert Steurer, assessor de Mitch McConnell, o líder conservador no Senado, assegura ao Expresso que não está prevista qualquer tomada de posição, até porque o Congresso fechou para férias. Impaciente, o democrata Hakeem Jeffries sugere que “esquerda e direita legislem à revelia de Trump”.

Dessa forma, mesmo que o líder americano vetasse as propostas, tal poderia ser anulado através do “Override of a Veto”, isto é, “o processo pelo qual a Câmara dos Representantes e o Senado voltariam a aprovar por maioria de dois terços os documentos rejeitados. Na prática, anulariam o papel do chefe de Estado. Até hoje, tal ocorreu em 10% das iniciativas”, esclarece Daniel P. Franklin.

Bakari Sellers, ex-colega de bancada de Jeffries, desvaloriza este cenário. “Trump personifica um sentimento profundo. Olhe-se para as primárias desta semana no Alabama, onde se irá eleger o sucessor de Jeff Sessions, que deixou o cargo no Senado após se tornar secretário da Justiça. Ganhou aquele que melhor imitou o Presidente”.

Bandeira portuguesa 
nos festejos do KKK

O terror vivido em Charlottesville começou na noite de 11 de agosto. Especulava-se que grupos de extrema-direita iriam aparecer junto à Universidade da Virgínia, em protesto contra a retirada da estátua do general Robert E. Lee, um dos líderes da confederação.

Por volta das 21h locais (2 da manhã em Lisboa), cerca de 250 jovens brancos empunhando tochas marcharam num estilo semelhante ao da juventude hitleriana durante o período da Alemanha nazi. Seguiram-se confrontos com 30 estudantes e várias detenções.

Na manhã seguinte, o grupo de racistas cresceu e desaguou no centro daquela pequena cidade. Do outro lado, aumentava também o número de opositores, formado por jovens, residentes e membros de várias igrejas.

Após nova batalha campal, James Alex Fields Jr. atirou o seu Dodge Charger contra a multidão, provocando um morto e 19 feridos. O procurador-geral dos EUA, Jeff Sessions, classificou o ataque como “terrorismo doméstico”.

Recorde-se, no entanto, que encontros de extrema-direita como o de Charlottesville são frequentes nos Estados Unidos nesta altura do ano, particularmente em zonas do interior. Segundo Heidi Beirich, da Southern Poverty Law Center, o número destes grupos “duplicou neste século — hoje são quase 900 —, uma tendência que coincidiu com a publicação do censo de 2000, que trazia a seguinte revelação: a população branca será minoritária a partir de 2045”.

A maioria organiza festivais para celebrar rituais neonazis. Num deles, na cidade de Pulaski, onde nasceu o Ku Klux Klan, em 1865, o Expresso detetou a bandeira portuguesa, junto à de outros países europeus, na promoção online do European American Heritage Festival, um evento patrocinado por grupos de extrema-direita como o Stormfront e o The Knights Party.
Contactados pelo Expresso, os organizadores lamentam que a sua liberdade de expressão esteja a ser desrespeitada. “Estamos a tentar mobilizar os brancos. É um direito que nos assiste”, explicou Tom Sunic, um cidadão americano nascido na Sérvia.

John Lancaster, membro da Sociedade Histórica do Condado de Giles, sediada em Pulaski, recorda que todos os anos centenas de forasteiros chegam à cidade. “No passado eram mais agressivos e as pessoas ficavam em casa com medo. Hoje caminham dois ou três quarteirões e seguem para uma quinta. Desconheço o que fazem por lá, mas imagino”.

Quanto à bandeira nacional, Lancaster e o presidente da Câmara, Pat Ford, asseguram que não há emigrantes portugueses naquelas paragens e explicaram que as bandeiras europeias são “meros adereços” e que não provam a presença de naturais do Velho Continente.

Entretanto, Jared Taylor antecipa novos protestos. Já no passado mês de novembro, quando o Expresso o entrevistou pela primeira vez, o líder do ‘alt-right’ deixara o aviso: “Ficarei admirado se não houver violência”.