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O pior inimigo de Trump não é Kim Jong-un mas Manafort

A escalada retórica 
entre Kim Jong-un e Trump 
vista pelo desenhador
 Stephff

Um dos homens do Presidente, suspeito na “pista russa”, alvo de buscas domiciliárias do FBI

A investigação às suspeitas de interferência do Kremlin nas eleições presidenciais americanas a favor de Donald Trump centra-se neste momento numa figura: Paul Manafort.

O ex-diretor de campanha de Trump, cargo que abandonou em agosto de 2016 (a três meses das eleições), é um lobista de carreira, que trabalha para o magnata nova-iorquino desde a década de 80. “Nos corredores de Washington, mexe-se como poucos”, diz ao Expresso Steve Eichenauer, fundador da Public Strategies, profissional da mesma área.

Até há um ano, nada se podia apontar a este antigo conselheiro de Ronald Reagan e de George H. Bush, detentor de uma vasta lista de clientes, da qual fizeram parte Jonas Savimbi, fundador da UNITA, e Viktor Yanukovych, o antigo chefe de Estado da Ucrânia e aliado de Moscovo (aí permanece exilado desde a revolução de 2014).

É, precisamente, esta ligação a leste que pode pôr em risco a Administração Trump. As suspeitas aumentaram esta semana, depois de o diário “The Washington Post” ter revelado em primeira mão que uma equipa de agentes da Polícia Federal Americana (FBI) vasculhou o seu apartamento em Alexandria, estado da Virgínia, no passado dia 26 de julho.

Há quatro meses, fontes do FBI tinham assegurado ao Expresso que outra equipa desta polícia estivera em Chipre para investigar contas bancárias de Manafort, nas quais terão sido depositados pagamentos por operações de lóbi nos EUA em prol dos interesses do Kremlin. Desconfia-se que tenham circulado dezenas de milhões de dólares através desta espécie de porta giratória.

Existe ainda a informação de que o antigo braço-direito de Trump terá colaborado na última década com Oleg Deripaska, oligarca com ligações estreitas ao Presidente da Rússia, Vladimir Putin, que por sua vez o descreveu como “o meu industrial preferido”.

Aprovadas por um juiz a pedido do procurador especial Robert Mueller, as buscas em Alexandria sugerem que Manafort não deu toda a documentação exigida pela investigação ao caso Trump-Putin. Membros dos comités do Congresso que também analisam o caso, já se tinham queixado do mesmo.

“Bastava terem pedido. Aliás, o senhor Manafort tem feito de tudo para cooperar”, afirma ao Expresso Jason Maloni, assessor do lobista, garantindo que “já foram entregues mais de 400 páginas”.

“É evidente que aumentou a pressão sobre Manafort. Os esforços concentram-se na sua atividade como empresário, o que me leva a acreditar que Mueller procura construir um caso contra Manafort paralelo ao alegado ‘bromance’ Trump-Putin. Assim, irá forçá-lo, mais cedo ou mais tarde, a cooperar em troca de um perdão parcial ou total dos alegados crimes, que imagino que possam ser fiscais ou, num caso mais grave, de traição, pois o seu trabalho com os ucranianos pró-russos pode ter minado os interesses e a segurança dos EUA”, diz-nos Anders Folk, antigo vice-procurador-geral do Minnesota, conhecido como o arquiteto de uma operação que desmantelou, naquele estado do interior, várias células do grupo terrorista somali leal à Al-Qaeda, Al-Shabaab).

17 milhões em dois anos

A porta-voz do FBI, Rebeca Callahan, rejeitou revelar o teor da documentação apreendida. Maloni, porém, confirma que, há cerca de duas semanas e meia, Manafort entregou ao FBI anotações feitas durante um encontro entre elementos russos e o filho mais velho do presidente americano, Donald Trump Jr., em julho do ano passado (a tal reunião mediada pelo próprio lobista, onde uma advogada de Moscovo prometeu entregar material que comprometeria a então candidata democrata Hillary Clinton).

Apesar do historial, só há pouco mais de um mês é que Manafort se registou no Departamento de Justiça como agente de lóbi ao serviço de entidades estrangeiras. Os documentos que apresentou revelam, por exemplo, que recebeu mais de 17 milhões de dólares entre 2012 e 2014 por serviços prestados ao Partido das Regiões, de Yanukovych.

Em declarações ao Expresso, John Herbst, ex-embaixador americano em Kiev, avaliou este caso. “Durante o tempo em que estive na capital ucraniana, entre 2003 e 2006, encontrei-me várias vezes com o senhor Manafort e ele falou-me da parceria com Yanukovych. O seu trabalho após o exílio de Yanukovych na Rússia é, contudo, menos claro. Tive acesso a documentação dos serviços de fronteiras ucranianos que revelam que o senhor Manafort entrou no país várias vezes depois da crise política de 2014. As fontes são credíveis, a documentação é legítima e prova que Manafort continuou a lidar com Yanukovych e seus aliados de Moscovo”.

Desconhecem-se os próximos passos de Robert Mueller, que, depois de ter convocado um grande júri (23 pessoas que determinarão se há matéria para acusação), dá sinais de ter acelerado a investigação.

Em declarações ao Expresso, Akhil Amar, professor de direito em Yale, diz que “a proximidade entre procurador e membros do grande júri é tal que estes casos seguem quase sempre para julgamento. A influência é enorme! Costuma dizer-se a brincar que, se fosse preciso, ele seria capaz de convencer o grande júri a levar a tribunal uma sanduíche de fiambre”.