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Guerra no topo do mundo

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Índia e China enfrentam-se no mais inóspito dos cenários, o planalto de Dolam, nos Himalaias, a grande altitude e debaixo de um frio glacial

António Caeiro

A revista “India Today” terá muito poucos leitores na China mas a sua edição de 31 julho passado não passou despercebida em Pequim. Pelo contrário: o mapa da China desenhado na capa não incluía o Tibete nem Taiwan, um arranjo gráfico que a imprensa chinesa logo considerou “provocatório” e “desprezível”.

“Algumas elites indianas odeiam a China” e “sonham dividi-la”, comentou o “Global Times”, tabloide nacionalista do grupo “Diário do Povo”, o órgão central do Partido Comunista Chinês (PCC).

“A Índia não tem capacidade para competir com a China (...) Numa competição entre a China e a Índia sobre quem consegue dividir o outro, a Índia será claramente derrotada”, afirmou aquele jornal. A agressividade, de parte a parte, não é académica, nem se limita à imprensa. No remoto Dolam, planalto dos Himalaias cuja posse é disputada pela China e pelo reino do Butão, aliado da Índia, tropas indianas e chinesas estão há dois meses frente a frente, protagonizando uma das piores crises desde a guerra sino-indiana de 1962, que causou cerca de três mil mortos.

A estrada da discórdia

Segundo a China, no dia 18 de junho, uma força de 300 soldados indianos, equipada com dois bulldozer, “penetrou mais de 100 metros em território chinês para evitar a construção de uma estrada”. Um porta-voz do Ministério chinês da Defesa proclamou: “É mais fácil abanar uma montanha do que o Exército Popular de Libertação (nome oficial das Forças Armadas chinesas)”.

O jornal “Global Times” foi mais explícito: “Se a China adotar contramedidas, a Índia sofrerá o seu mais sério revés estratégico desde 1962 (...) O Produto Interno Bruto da China é cinco vezes superior ao da Índia e o seu orçamento de Defesa quatro vezes maior”. Mesmo assim, segundo a imprensa chinesa, no início desta semana, “53 soldados e um bulldozer indianos” continuavam estacionados em território chinês. “Independentemente do número de soldados presentes trata-se de uma violação grave da soberania da China”, disse o Ministério chinês dos Negócios Estrangeiros.

A Índia, que mantém com a China um aceso contencioso acerca do traçado da longa fronteira comum, não tem exigências quanto à soberania sobre Dolam, mas receia que a projetada estrada promova o afluxo de tropas e equipamento militar ao território, alterando o delicado equilíbrio de forças na região. “Se há uma questão fronteiriça por resolver entre a China e o Butão isso é um problema da China e do Butão, não tem nada que ver com a Índia”, argumenta o Governo chinês.

“A China respeita o Butão como estado soberano independente e fica indignada com a tentativa da Índia de transformar o Butão num protetorado”. Visto de Nova Deli, o quadro é diferente: “O Butão tem uma relação de segurança com a Índia e foi ao abrigo dessa relação que a Índia agiu”, explicou o antigo secretário indiano dos Negócios Estrangeiros, Kanwal Sibal.

Pressão externa 
por razões internas

Na edição de 7 de agosto, a China apareceu de novo na capa da “India Today”. “Haverá guerra?” — a pergunta, com letras vermelhas sobre fundo negro, ocupa a capa inteira. “Ambos os lados têm fortes razões para evitar a guerra, mas a Índia verá agora o perigo de ignorar os seus preparativos de defesa”, diz a revista.

A tensão no planalto Dolam (Dong Lang, em chinês) coincide com importantes manobras internas da atual liderança chinesa, e em particular do seu Presidente, Xi Jinping. Dentro de dois ou três meses, o Congresso do PCC irá renovar a maioria dos sete membros do Comité Permanente do Politburo, a cúpula do poder na China. Cinco já têm mais de 65 anos, devendo em princípio retirar-se, mas especula-se que Xi Jinping quererá conservar um deles, Wang Qishan.

Antigo vice-primeiro-ministro, nascido em 1948, Wang Qishan dirige um organismo crucial do Partido, a Comissão Central de Controlo e Disciplina. Segundo alguns observadores, o próprio Xi Jinping não quererá governar apenas durante dez anos, como fizeram os seus dois últimos antecessores, e estará empenhado em manter-se no poder depois de 2022.

Desde que Xi Jinping assumiu a chefia do PCC, em novembro de 2012, a ideia de liderança coletiva desapareceu do vocabulário politico chinês. “A China valoriza muito a importância dos grandes líderes, sobretudo em períodos históricos chaves”, disse um académico de Xangai, Zhang Weiwei, comparando Xi Jinping a Mao Tsé-Tung e a Teng Xiao Ping. Xi Jinping é “o núcleo da liderança chinesa” e “a lealdade ao núcleo é a mais importante política da atualidade”. Isto é o que defende a imprensa oficial a propósito do próximo congresso do partido.

Entretanto, e pela primeira vez na era Xi Jinping, um dos membros mais novos do Politburo, Sun Zhengcai, foi afastado por “graves violações da disciplina”. Com 53 anos, menos 11 do que Xi Jinping, Sun Zhengcai dirigia a organização do PCC em Chongqing, o mais populoso município do país, com cerca de 33 milhões de habitantes. Era considerado uma das estrelas em ascensão na cena política chinesa e um dos mais sérios candidatos à sucessão de Xi Jinping.

A firmeza face à Índia será mais uma carta a jogar no tabuleiro de xadrez da liderança política chinesa e é vista como um elemento de reforço da imagem de Xi Jinping.