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Internacional

A violência pós-eleitoral no Quénia pode estalar a qualquer momento

Barricada em Mathare, Nairobi

THOMAS MUKOYA / Reuters

Tudo a postos para tentar acalmar os ânimos. Tudo a postos para tentar incendiá-los. O final do escrutínio dos votos nas eleições de ontem já decorre em ambiente instável. Autoridades tentam dispersar apoiantes do candidato da oposição que queimam pneus nas ruas de Nairobi e Kisumi e lançam apelos para que não se reaja às informações incendiárias veiculadas pelas redes sociais

Cristina Peres

Cristina Peres

Jornalista de Internacional

Quando ainda falta escrutinar cerca de 20% dos votos das eleições de ontem, um tweet de Raila Odinga é categórico: “Rejeitamos os resultados divulgados até agora e exigimos que a comissão eleitoral independente retire todos os boletins 34A das assembleias de voto antes que mais resultados sejam anunciados”. Cheira a dejá vu e faz pressupor o pior. Odinga, o líder da coligação de partidos NASA que se opõem à coligação Jubileu, que governa o Quénia desde 2013, tinha dito durante a campanha que apresentaria resultados alternativos aos oficiais e esta é a primeira declaração “oficial” da sua intransigência.

A expectativa aumenta com a contagem a chegar ao fim já que o Quénia é pródigo em rejeitar com violência os resultados eleitorais. A eleição de 2013 foi a única desde o fim do monopartidarismo em 1991 onde não houve derramamento de sangue. Mesmo evitando os arautos da desgraça, já era legítimo perguntar pela transparência do voto no Quénia quando, no dia 8 de agosto, a uma semana dos escrutínios, o corpo do homem responsável pelo voto eletrónico na comissão eleitoral independente, Chris Msando, é encontrado assassinado e com sinais de tortura.

Não se fez esperar a resposta de Wafula Chebukat, o presidente da comissão eleitoral: “Os resultados oficiais são apurados a partir dos beoletins 34A e 34B. Organizámos um departamento ao qual todos os representantes podem dirigir-se para verificarem os boletins 34A. Os representantes da presidência têm acesso aos resutlados de todas as assembleias de voto, isto é, boletins 34A”, cita o jornal "The Star".

Imediatamente após Raila Odinga ter denunciado a “alegada” fraude eleitoral, alegando que hackers tinham tido acesso aos dados eletrónicos através da conta de Chris Msando e que os resultados da comissão eleitoral não poderiam ser considerados credíveis, as forças de segurança lançaram gás lacrimógenio para dispersar uma centena de manifestantes que incendiavam pneus na rua em Kondele, Kisumu, no norte do país.

A comissão eleitoral cancelou os resultados em Kilgoris porque o número de votos escrutinados era superior ao dos eleitores registados, escreve o diário queniano “Daily Nation”.

As autoridades apelam aos cidadãos para que continuem normalmente as suas vidas apesar destes episódios, alertando que a informação a circular nas redes sociais pode incendiar os ânimos com facilidade. Os resultados preliminares quando estão contados 80% dos votos colocam Uhuru Kenyatta à frente de Raila Odinga com um milhão de votos. A contagem definitivapode levar dias a anunciar.