Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

Ruanda faz eleições que já estão ganhas à partida

Em grande entre os seus

Jean Bizimana / Reuters

História de sucesso ou Estado autoritário? Ambas as definições contêm verdade e o Presidente Paul Kagame prepara-se para prolongar até 2034 o poder que detém já há 17 anos

Cristina Peres

Cristina Peres

Jornalista de Internacional

Os eleitores conhecem há muito tempo o vencedor que vai sair da votação presidencial desta sexta-feira. Não há muitos países que encaixem nesta afirmação, porém ela parece evidente para o Ruanda, país que vai eleger o mesmo Presidente para um terceiro mandato de sete anos.

Paul Kagame goza de apoio político, não há dúvida. A Frente Patriótica do Ruanda, o partido no Governo que lidera, exibe na sua história a proeza de ter posto um ponto final no genocídio de 1994, durante o qual foram mortos 800 tutsis e hutus moderados. Pode mesmo orgulhar-se de alcançar resultados eleitorais dignos de um ditador, como os 93% obtidos nos escrutínios de 2010.

Para que Paul Kagame pudesse concorrer a este terceiro mandato, o Governo propôs uma alteração à constituição ruandesa em 2015 para a qual também obteve uma percentagem indiscutível em referendo.

Legitimado assim (e apesar das críticas dos grupos de defesa dos direitos humanos ao referendo) o fim do impedimento de três mandatos sucessivos, a presente candidatura de Kagame não tem oposição. O ato eleitoral desta sexta-feira não representa uma luta pelo poder, mas um ritual de confirmação do poder instituído, como se lê na edição desta quinta-feira do “International New York Times” (NYT).

Democracia? Desenvolvimento?

Mais de sete milhões de eleitores (numa população de 11 milhões) vai a votos nestas terceiras eleições desde 1994. A capital Kigali está coberta de cartazes promovendo a eleição de Paul Kagame e a oposição queixa-se de não ter sido autorizada a colar um único cartaz. Os seus dois contendores do voto são inócuos desde que a comissão nacional eleitoral recusou a candidatura de Diane Rwigara e de dois outros candidatos independentes, que poderiam vir a ter expressão nas urnas. O líder da oposição, Victoire Ingabire, cumpre desde 2010 uma pena de prisão de 15 anos por “ameaça à segurança do Estado” e o Estado é fortemente policiado em permanência.

A Freedom House classifica o Ruanda como “não livre”, um país onde os jornalistas são frequentemente intimidados e silenciados. E a Al-Jazeera reporta que muitas entre as dezenas de milhares de pessoas que acorreram na quarta-feira ao comício de encerramento da campanha de Kagame no centro de Kigali foram obrigados a deixar as suas casas e a participarem.

Durante o comício, o Presidente e candidato rejeitou as acusações de “ditadura” e declarou que os ruandeses são livres de escolherem o seu líder.

Os apoiantes são firmes na exaltação do seu candidato: “[Kagame] é o nosso herói, com ele construímos este país a partir do zero. O Ruanda estava morto e agora estamos vivos”, disse à TV do Qatar Solange Mubaraki, fundadora de um grupo de apoio local de mulheres dos elementos das forças de segurança nacionais.

“Todos podem ver que o Ruanda não é o genocídio, mas desenvolvimento e paz por causa da liderança de Kagame”, acrescentou Mubaraki.

Pelo seu lado, a organização não governamental de defesa dos direito humanos Human Rights Watch avisou no mês passado que o processo eleitoral no Ruanda estava a ser conduzido sob “um clima de medo criado por anos de repressão” em resultado da alegada intimidação da oposição por parte do Governo.

Paul Kagame goza de apoio internacional jogando com o desenvolvimento que imprimiu ao Ruanda, que cresceu uma média de 8% ao ano entre 2001 e 2014, e com a diminuição da taxa de pobreza de 57% em 2006 para menos de 40% em 2014.

Este jogo com a imagem renovada do país internacionalmente tem valido ao chefe de Estado uma aprovação entre os doadores que nem o Presidente Nkurunziza do Burundi nem o Presidente Kabila da República Democrática do Congo têm em igual situação.

Quanto à credibilidade dos dados sobre desenvolvimento do Ruanda, o artigo do NYT lembra que não há sondagens nem estudos que não sejam realizados pelas autoridades ruandesas ou sob a sua rigorosa supervisão.