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Internacional

Mais de 80 mil crianças Rohingya estão à beira da fome em Myanmar

MUNIR UZ ZAMAN

Agência da ONU alerta que, “sob as atuais circunstâncias e com o aproximar da época das monções que ameaça agravar uma situação já frágil, as capacidades da população mais vulnerável para aceder a comida suficiente no longo prazo ficam seriamente em risco, deixando-a dependente de assistência humanitária num futuro próximo”

Mais de 80 mil crianças com menos de cinco anos de idade que vivem em áreas de maioria muçulmana no oeste de Myanmar (antiga Birmânia) vão precisar de receber tratamento ao longo do próximo ano por causa de má nutrição, alerta o Programa Alimentar Mundial (PAM).

O aviso é feito pela agência da ONU num relatório publicado esta segunda-feira com base numa avaliação da situação no terreno em vilas do oeste do estado de Rakhine, de onde 75 mil muçulmanos Rohingya já fugiram desde novembro, quando o Exército reforçou uma campanha contra a minoria étnica muçulmana que continua a não ter direitos reconhecidos no país.

Os Rohingya que ali vivem estão à beira de uma crise alimentar, com o PAM a apurar que já existe fome extrema num terço das casas de Maungdaw, o distrito mais afetado pela violência estatal e popular. Inclui-se neste grupo famílias que passam 24 horas sem comer. Num quarto das habitações só existe uma mulher adulta a cuidar da família, já que a maioria dos homens teve de fugir da repressão militar, com o PAM a sublinhar que os episódios de fome extrema são mais frequentes nestes lares.

Os investigadores da ONU também apuraram que, neste momento, nenhuma criança Rohingya com menos de dois anos tem garantida uma dieta mínima adequada, havendo pelo menos 225 mil pessoas já a precisar de ajuda humanitária. “Calcula-se que, ao longo dos próximos 12 meses, 80.500 crianças com menos de cinco anos de idade vão precisar de tratamento por causa da má nutrição”, é apontado no relatório. Um porta-voz do PAM no país diz que a maioria das crianças já está a sofrer de perda de peso abrupta que deteriora o funcionamento do sistema imunitário e que pode tornar-se fatal.

“O inquérito confirmou que a situação de segurança alimentar piorou em áreas já vulneráveis após os incidentes de segurança e a violência que se seguiu a eles no final de 2016”, lê-se no relatório, numa referência à operação lançada pelo Exército em Rakhine após um grupo de militantes ter atacado um posto da guarda fronteiriça em outubro.

A líder de facto de Myanmar, Aung San Suu Kyi, que foi laureada com o Nobel da Paz em 1991, tem sido repetidamente criticada pela ausência de respostas à crise e pela atuação das forças militares, que continuam a controlar um quarto do Parlamento e alguns ministérios-chave desde o fim da ditadura militar.

Numa carta aberta publicada no Facebook no final de 2016, Muhammad Yunus, Ramos-Horta, Desmond Tutu, Shirin Ebadi e outros nove laureados Nobel, a par de dez personalidades mundiais, já tinham exigido ao Conselho de Segurança da ONU que faça alguma coisa perante uma tragédia que “corresponde a crimes contra a humanidade e à limpeza étnica” dos Rohingya em Rakhine.

O governo birmanês continua a rejeitar as acusações e, no final de junho, prometeu impedir que uma equipa da ONU aceda àquele estado para investigar as suspeitas de homicídios, violações e tortura pelas forças de segurança contra a minoria étnica.

De acordo com a avaliação do PAM, quase metade dos mercados das áreas afetadas pela violência já deixaram de funcionar, levando os preços da comida a tornarem-se “altamente voláteis” e aumentando a escassez de “peixe seco acessível, uma das principais fontes de proteína da população”.

No relatório, o PAM deixa um aviso: “Sob estas circunstâncias, e com o aproximar da época das monções que ameaça agravar uma situação já frágil, as capacidades da população mais vulnerável para aceder a comida suficiente no longo prazo ficam seriamente em risco, deixando-a dependente de assistência humanitária num futuro próximo.”