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Enfermeira venezuelana morta a tiro na fila para votar

Consulta simbólica deu-se em estações de voto improvisadas na Venezuela, com emigrantes venezuelanos também chamados a votar em mais de 100 países

RAUL ARBOLEDA

Ataque aconteceu num bairro pró-governamental de Caracas durante a consulta não-vinculativa organizada pela oposição este domingo. Mais de sete milhões de pessoas de um total de 19,5 milhões de eleitores foram às urnas improvisadas chumbar a proposta de criação de uma assembleia para reescrever a Constituição

Mais de 7,1 milhões de eleitores venezuelanos votaram este domingo numa consulta simbólica contra o projeto promovido pelo Presidente do país para a formação de uma assembleia para reescrever a Constituição – numa votação que ficou marcada pela morte de uma enfermeira de 61 anos que foi abatida a tiro enquanto aguardava a sua vez na fila para votar na capital.

Segundo testemunhas no terreno, um grupo de homens armados abriu fogo contra a fila de eleitores numa estação de voto de um bairro de Caracas tradicionalmente pró-governo socialista, vitimando a mulher e ferindo outras três pessoas – entre elas o jornalista Luiz Olavarrieta, que foi raptado, assaltado e espancado por um grupo de pessoas.

Mais de 100 pessoas já morreram desde o final de março, quando milhares de manifestantes começaram a sair às ruas de Caracas e de outras cidades exigindo eleições presidenciais antecipadas perante uma das mais graves crises económicas e sociais das últimas décadas na Venezuela.

“Com 95% dos votos escrutinados, participaram 7.186.170 venezuelanos” na consulta não-vinculativa organizada pelos opositores de Nicolás Maduro sobre a alteração constitucional que o seu executivo está a promover, informou Cecilia García Arocha, reitora da Universidade Central da Venezuela (UCV) e membro da comissão académica responsável por supervisionar o plebiscito simbólico.

“Esta ação da população venezuelana é uma mensagem clara e contundente, a nível nacional e internacional”, de que os eleitores “querem uma mudança” de governo “através da democracia”, sublinhou Arocha. O total de eleitores que foram às urnas é inferior às 7,7 milhões de pessoas que votaram em candidatos da oposição nas eleições parlamentares de 2015, de um total de 19,5 milhões de eleitores registados para votar em todo o país.

Apelo às forças armadas

Dos 7,1 milhões que se deslocaram a estações de voto improvisadas em teatros, campos de jogos e rotundas – a par de emigrantes venezuelanos em mais de 100 países – 98% rejeitaram a proposta de criação de uma assembleia constituinte e votaram a favor de as forças armadas serem chamadas a defender a Constituição nos atuais moldes, bem como de novas eleições antes de Maduro concluir o seu mandato presidencial, que termina em 2019.

No rescaldo da consulta, a oposição culpou um gangue “paramilitar” pelo ataque que causou a morte da enfermeira, já identificada como Xiomara Soledad Scott, com um vídeo a mostrar dezenas de pessoas a refugiarem-se numa igreja das proximidades quando os homens abriram fogo contra os eleitores. “Lamentamos muito isto com grande pesar”, disse Carlos Ocariz, porta-voz do Justiça Primeiro, o principal partido da oposição. A procuradoria já anunciou que vai investigar o incidente.

Depois da consulta não-vinculativa, a 30 de julho os venezuelanos serão novamente chamados às urnas para voltarem a pronunciar-se, desta vez legalmente, sobre a criação de uma assembleia constituinte com poderes para alterar a Constituição e para dissolver instituições do Estado – sob acusações da oposição de que, a ser criada, esta assembleia abrirá a porta à instalação de uma ditadura no país.

Ex-Presidente mexicano repudiado

O Presidente venezuelano já rejeitou como “insignificante” a votação de domingo. “Convocaram uma consulta interna com partidos da oposição, com os seus próprios mecanismos, sem seguirem as regras eleitorais, sem verificação prévia e sem verificações adicionais, como se fossem autónomos e pudessem decidir por si próprios”, criticou Maduro.

Catia, o bairro onde se deu o tiroteio fatal, é um dos mais pobres da capital venezuelana e onde impera o apoio ao governo socialista, liderado primeiro por Hugo Chávez desde 1999 e depois por Maduro desde a morte de Chávez em 2013.

O atual Presidente continua a defender que criar uma assembleia constituinte é a única forma de ajudar a Venezuela a sair da crise política e económica que está a atravessar, porque uma nova Constituição irá “neutralizar” a oposição e derrotar os “orquestradores de golpes” que estão a impedir que haja paz.

Os críticos, por sua vez, temem que o processo vá adiar a organização de eleições e permitir que Maduro continue no poder por tempo indefinido, enfraquecendo a Assembleia Nacional que, neste momento, é controlada pelos partidos da oposição.

Também ontem, o Governo de Maduro declarou o ex-Presidente mexicano, Vicente Fox, persona non grata por “abusar da hospitalidade do povo venezuelano”, informou o ministro dos Negócios Estrangeiros, Samuel Moncada, acusando Fox de receber dinheiro para “promover a violência e a intervenção de potências estrangeiras” nos assuntos internos da Venezuela. No Twitter, Moncada acrescentou que Fox “quis provocar as autoridades para armar um circo mediático que servisse os vis interesses de quem o contratou”.