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Rússia e EUA unem esforços para que não haja intromissões eletrónicas em eleições (ah, a ironia)

Reuters/Carlos Barria

A ideia de a Rússia e os Estados Unidos avançarem com uma “unidade de cibersegurança impenetrável” faria sentido num mundo ideal. Naquele em que duas das maiores potências “eletrónicas” mundiais se juntam para proteger-nos de hackers mal-intencionados. Mas essa não é a nossa realidade. Nesta, os EUA e a Rússia têm agências de segurança que espiam quando, onde e como podem.

Além disso, é preciso não esquecer que ainda estão muito frescos os alegados ataques feitos por hackers russos a empresas e ao estado americano. Afinal, segundo este relatório da NSA, há provas de que hackers russos andaram à procura de potenciais vulnerabilidades no sistema eleitoral americano.

Estará Trump a seguir o ditado: “mantém os teus amigos por perto e os teus inimigos ainda mais perto”? Ou, simplesmente, a pagar o favor que lhe terão feito e que o ajudou a vencer as eleições presidenciais? Teorias da conspiração à parte, a verdade é que aquilo que transpareceu das palavras do atual presidente americano é que estaremos perante uma futura equipa de cibersegurança com elementos de ambos os países. Um trabalho conjunto para evitar, por exemplo, que não existam intromissões eletrónicas em eleições (Ah! A ironia!).

E a questão mais prática desta eventual cooperação relaciona-se com a necessidade de ambos os lados da “cortina” terem de partilhar vulnerabilidades tecnológicas. É fácil de entender. Se o objetivo é proteger o já referido sistema de votação, será necessária alguma abertura dessas plataformas tecnológicas a terceiros. Russos e americanos têm de estar a par dos pontos fortes e fracos de cada um no que à ciberguerra diz respeito. Não todos, como é óbvio, mas parte deles.

Este acesso a informação sensível não vai, seguramente, passar no crivo do Congresso americano e será, certamente, bloqueado pelos serviços secretos daquele país. É verdade que Obama fez um acordo com a China nesta matéria (lembrado aqui pelo The Washington Post), mas o alcance era completamente diferente. Os EUA queriam, acima de tudo, bloquear os ataques de piratas alegadamente chineses que andavam a roubar propriedade intelectual a empresas americanas. Não era para menos, afinal, em 2014, os Estados Unidos acusaram formalmente militares chineses de ataques informáticos a 6 organizações americanas (uma delas da indústria nuclear). O acordo com a China manteve-se e criou uma ligação de dados direta entre os dois países. Partilharam a informação que lhes interessava, no momento em que servia a uma das partes. Ao que se sabe esse acordo não implicou acesso a plataformas ou a partilha de vulnerabilidades. Neste caso, com a Rússia, a concretizar-se o que Trump avançou, o adjetivo “impenetrável” exige a tal comunhão de informação. Estarão os Estados Unidos preparados para este tipo de compromisso? E a Rússia? Putin vai dar acesso às suas plataformas eletrónicas?

Não acredito na boa fé de nenhum dos lados. É verdade que o escalar dos ciberataques é uma realidade. E, tudo indica, que, infelizmente, ainda vamos ver o dia em que a Internet vai parar. Por isso, sim, faz sentido que russos e americanos unam esforços para ajudar o mundo a prevenir-se contra os cibercriminosos (venham eles de onde vierem). Mas não desta maneira. Afinal, ninguém é ingénuo o suficiente para considerar que estes países vão, em que momento for, expor as suas fragilidades informáticas ao maior adversário.