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Itália quer nova vida para a Cinecittà

O Fórum da Roma imperial é um dos cenários permanentes da Cinecittà

Os míticos estúdios de cinema num subúrbio da cidade de Roma (Itália), que valeram por diversas vezes comparação a uma ideia de Hollywood à beira do Tibre, vão regressar a mãos controladas pelo estado após quase uma década entregues a privados. O instituto público Luce Cinecittá confirmou esta semana a aquisição do grande complexo de estúdios, que tentará reativar com o objetivo de para ali atrair grandes produções cinematográficas e televisivas. Entre os encargos do projeto de nova dinamização da Cineccità está ainda a preservação do legado do arquivo do Instituto Luce (fundado em 1924), a gestão dos apoios à produção do Ministério do Património, Atividade Cultural e Turismo, a criação de um centro de pós-produção digital e ainda um museu dedicado ao cinema e audiovisual que possa celebrar os feitos das grandes produções italianas dos séculos XX e XXI. A vontade em fazer da nova Cineccità um polo de atração turística está igualmente entre os desejos deste programa, havendo vontade em criar exposições e eventos que possam ali chamar visitantes com maior regularidade.

Criados em 1937 por Mussolini, os estúdios da Cineccità desde logo foram dotados de espaço e de tecnologia que lhes permitissem não apenas responder ao uso do cinema como ferramenta de propaganda mas também o fomentar uma indústria cinematográfica italiana. Um dos primeiros filmes ali rodados foi “Scipione L’Africano” (1937), de Carmine Gallone, financiado pelo próprio Mussolini (o seu filho Vittorio foi um dos produtores, embora não creditado) e sugeria desde logo possíveis pretensões territoriais do regime no Norte de África. Bombardeado durante a II Guerra Mundial e transformado num campo de refugiados nos anos que se lhe seguiram, a Cinecittà renasceu nos anos 50 ora albergando grandes produções como “Quo Vadis?” (1951) de Mervin LeRoy, “Ben Hur” (1959) de William Wyler ou “Cleopatra” (1963) de Joseph L. Mankiewicz, tornando-se igualmente uma importante casa para produções italianas, nomeadamente cativando figuras como Federico Fellini ou Franco Zeffirelli. Um mau desempenho financeiro abriu portas a um processo de progressiva privatização depois dos anos 90. A abertura em 2009 de um parque temático em Castel Rodolfo começou a explorar turisticamente o legado dos estúdios. Ao mesmo tempo foram acolhidas novas produções — como as séries “Roma”, que usou os cenários permanentes que evocam ruas da velha capital imperial (na imagem), ou “Young Pope”, a qual viu ali serem reconstruídas diversas salas e estruturas do Vaticano, assim como uma nova versão de “Ben Hur” (2016) por Timur Bekmambetov.

O novo envolvimento estatal com os estúdios da Cinecittà e todas as estruturas ao seu redor está relacionado com o projeto de uma nova lei do cinema local que tem no ministro da cultura Dario Franceschini um rosto de grande protagonismo e procura promover as possibilidades que o país pode oferecer a produtores internacionais. Com o ‘Brexit’ na linha do horizonte houve já quem tivesse comentado que estes estúdios poderão afirmar-se como uma possível alternativa aos de Pinewood, no Reino Unido. Um complexo de dois novos estúdios com cerca de 3 mil metros quadrados (a juntar aos 22 já existentes, à sua grande piscina e a uma zona descampada) e uma campanha de marketing são argumentos a ter em conta.