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Cavalos? Quais cavalos?

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A abertura da Royal Ascot, a mais exclusiva das corridas equestres, tem também cavalos, mas esses são o pretexto para os britânicos reafirmarem regras sociais e sucumbirem a exceções. Passámos um dia a ver as roupas e os chapéus

Catarina Nunes

Catarina Nunes

em Ascot

Jornalista

Há regras e há exceções. Em Ascot, o rigoroso manual de estilo (com mais de 20 páginas, entre normas e sugestões de indumentárias) existe para provar que a tradição ainda é o que era. Os ‘anormais’ 30 graus que se fazem sentir no dia da abertura das mais seletas corridas de cavalos do mundo servem para mostrar que, afinal, os britânicos não se levam assim tão a sério, nem no dia que marca o arranque do calendário social de verão.

Inaugurada a 20 de junho, no rescaldo das eleições, Ascot parece abrir a porta à mudança, mas apenas para provar que continua fiel aos velhos códigos sociais. Sucumbe aos ventos de ousadia que sopram por estes lados e à vaga de calor que assola a Grã-Bretanha. Entre os convidados há saias acima do joelho e casacos e cartolas nas mãos, algumas das proibições contidas no complexo código de apresentação em Ascot. Uma rebeldia abençoada pela rainha de Inglaterra, talvez porque também da casa real vem o exemplo de distensão: uma duquesa com um vestido quase igual ao do ano passado e uma condessa a usar a mesma cor do vestido da rainha. Mas já lá vamos.

Vista de perto, a abertura da Royal Ascot confirma o imaginário que a torna famosa mundialmente. Chapéus (mais ou menos excêntricos) nas senhoras e cartolas (cinzentas ou pretas) para os homens. Sem estes adereços, esqueça. Não há brasão de família ou título nobiliárquico que dê acesso a este recinto de corridas de cavalos, no condado de Berkshire, a sul de Londres. Depois de já lá estar dentro, o protocolo aligeira-se e há quem descubra a cabeça. Poucos têm essa ousadia, mas até a rigidez britânica se verga perante o calor de ananases, a mais alta temperatura que se fez sentir em 306 anos da corrida real em Ascot.

Talvez tenha ajudado o facto de se ter ouvido dizer que a organização estava a autorizar uma postura mais relaxada, permitindo aos homens despirem os casacos. Uma exceção pouco vista por aqui, provavelmente porque, poucas horas depois, estava a circular a informação contrária. A pressão colocada no vestuário faz com que, desde há seis anos, a organização lance um manual de estilo. A modernidade deste ano é a introdução do jumpsuit (fato-macaco) como opção de indumentária para as mulheres, desde que chegue aos tornozelos. Só há 46 anos, desde 1971, é que as mulheres têm permissão para ir de calças. E, mesmo assim, só se forem compridas e usadas com um casaco de tecido igual e na mesma cor ou padrão. Sim, esta especificação vem referida no manual...

A abertura de espírito da organização, no entanto, não é acompanhada pelas escolhas femininas, sendo raro ver uma mulher de calças e muito menos de fato-macaco. Pelo menos no Royal Enclosure, a zona mais exclusiva de Ascot, onde circula a família real. Há regras e há exceções, mas, no que diz respeito às frequentadoras de Ascot, a tradição ainda se quer como era. A quebra no protocolo fica por conta de algumas convidadas internacionais, que arriscam com saias acima do joelho. Um faux-pas que é a primeira regra do extenso dress-code feminino, ao qual, este ano, a organização fecha os olhos. É que, em edições anteriores, houve senhoras que foram barradas à porta por estarem com saias consideradas demasiado curtas.

Corridas. Vamos em metade das seis provas do dia e ainda há quem continue a olhar para o guia à procura de orientação. A meta é passada em segundos e, mesmo na linha da frente da assistência, não é para todas as cabeças acertar em que posição fica cada um dos 18 concorrentes

Corridas. Vamos em metade das seis provas do dia e ainda há quem continue a olhar para o guia à procura de orientação. A meta é passada em segundos e, mesmo na linha da frente da assistência, não é para todas as cabeças acertar em que posição fica cada um dos 18 concorrentes

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Kate Middleton dá o exemplo e segue à risca os mandamentos, como seria de esperar, mas dá um sinal de que a realeza do século XXI também tem as suas exceções. Traz um vestido de renda branca de manga comprida Alexander McQueen, mantendo a sua conhecida opção por marcas britânicas. Até aqui tudo certo, protocolo mais do que cumprido. O problema (se é que assim se pode chamar) é que o vestido escolhido é muito semelhante ao do ano passado, a primeira vez em que participou no cortejo de charrete com a família real britânica, na abertura da Royal Ascot.

Ao olhar mais treinado, e memória de elefante, o vestido do ano passado, desenhado pela dupla italiana Dolce&Gabbana, distingue-se apenas pelas mangas ligeiramente mais compridas, a saia um pouco mais longa e a ausência de meia-gola. O chapéu, esse, é igualmente branco e adornado com flores. De resto, tudo idêntico, a inspiração foi a mesma. Feitas as contas, não se dá pelas diferenças e a duquesa de Cambridge parece seguir (numa versão em branco mais adequada ao country-side inglês) o lema português: ‘com um simples vestido preto, nunca me comprometo’. Apesar de a aristocracia britânica, de olhos postos na aparição real, detetar esta repetição não tem muito por onde pegar no que diz respeito ao cumprimento das regras de indumentária.

É que, nesta matéria, as indicações são claras e precisas e Kate Middleton cumpre-as. Além da obrigatoriedade do chapéu (com mais de 10 centímetros de diâmetro) e proibição de tiaras ou grinaldas — bem como a altura da saia abaixo do joelho ou mais comprida — só são aceites vestidos ou blusas de alças no mínimo com 2,5 centímetros de largura ou mais. O regulamento da organização de Ascot é ainda mais concreto, para que não restem margens para dúvidas ou devaneios. Vestidos sem alças, com um ombro de fora, de alças finas ou de gola alta sem mangas são absolutamente proibidos. Se o frio apertar, o que este ano não é o caso, os casacos e as pashminas são aceites desde que a roupa usada por baixo cumpra os requisitos. O que significa dizer que não vale abandalhar no vestido, na esperança de tapar os olhos dos polícias de estilo de Ascot com um agasalho.

A verdade é que é difícil encontrar quem tenha feito finca-pé a estas normas. Mas ninguém garante que por baixo dos vários casacos vislumbrados não haja umas alças finas ou barrigas e umbigos à mostra, a última mas não menos importante proibição. Se para qualquer mulher, com as eternas dúvidas existenciais sobre o que vestir, estas regras podem espoletar um ataque de ansiedade, para os homens a situação não é muito diferente. Ou é pior. Um vestido abaixo do joelho, com alças largas ou mangas, e um chapéu não são agulhas num roupeiro feminino. Fraque, colete e cartola, pelo contrário, raramente vivem estacionados com a mesma frequência num armário masculino, à espera do momento apropriado para saírem à rua.

As regras masculinas têm menos nuances e, por isso, as hipóteses de escolha estão mais afuniladas. Preto ou cinzento são as duas únicas cores permitidas, casaco só fraque, chapéu apenas cartola. Fitinhas, laços ou outro tipo de enfeite no chapéu estão excluídos. Gravata é obrigatória e não há hipótese de a substituir por um lenço ao pescoço. Também o colete não é negociável, nem a cor dos sapatos: preto. Ascot vai mais longe e explica em que circunstâncias se pode pôr ou tirar a cartola: há ordem de soltura num restaurante, num camarote ou clube privado, terraço, varanda, jardim ou em qualquer outro ambiente exterior com lugares sentados na zona do Royal Enclosure Garden. Pela via das dúvidas, e para os mais distraídos nas sinaléticas, o melhor é aguentar na cabeça a cartola em feltro de lã, suar as estopinhas, e rezar para que o verão britânico se assemelhe menos ao dos trópicos. Ou respirar de alívio e aproveitar o rumor de que hoje se pode estar à vontade e esquecer as 20 páginas do manual de estilo.

Para os homens que vêm de fora, e para que não haja desculpas para violar o manual, a organização sugere uma passagem oportuna por uma loja de aluguer de roupa masculina em Londres. É que pode ser difícil encontrar nos países de origem vestuário que cumpra os requisitos. O convite endereçado a estrangeiros reforça ainda que é melhor garantir a indumentária com o máximo de antecedência... É que é normal os fraques e as cartolas esgotarem por estes dias. A Moss Bros., com 166 anos de experiência em alfaiataria e roupa masculina formal, é a recomendação, mas em matéria de chapelaria a Fenwick é o patrocinador oficial das corridas. Esta cadeia de lojas de departamento desafiou oito designers britânicos a criarem oito modelos de chapéus, que integram a coleção The Royal Ascot Millinery Colective, com a ambição de se darem a conhecer na cabeça dos frequentadores das corridas

Como não só de chapéus se faz o estilo, a Fenwick junta-se à Hugo Boss na criação do guia de dress-code, uma parceria que se repete pelo segundo ano consecutivo. Por muito estranho que pareça uma corrida de cavalos influenciar as tendências de moda mundiais, a verdade é essa. Pelo menos a moda dos coroados, brasonados, celebridades ou aspirantes a algum destes estatutos. A Hugo Boss opta por se manter à margem dos colunáveis e veste alguns dos jornalistas, sabendo que são eles o veículo de promoção.

O guia de estilo abrange também as crianças. Nesta semana de corridas mais exclusivas, a Royal Ascot, rapazes e raparigas entre os 10 e os 17 anos só são admitidas na sexta-feira e no sábado. Na abertura de terça-feira, com a presença da rainha e da família real, os menores de idade estão proibidos. E, de facto, não se vislumbra uma criança no recinto. Nas corridas do resto da temporada, que se prolonga até setembro, todas as restrições são suavizadas.

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Separação. Ascot não é para todos e nem sequer tudo em Ascot é para os que lá estão. Ver de perto a rainha, no seu fato verde, ou a duquesa Kate, com um vestido muito pouco diferente do do ano anterior, não está ao alcance da maioria. Muitos limitam-se a viver como vive a elite nas zonas de acesso proibido. É assim com as roupas e com os piqueniques

Separação. Ascot não é para todos e nem sequer tudo em Ascot é para os que lá estão. Ver de perto a rainha, no seu fato verde, ou a duquesa Kate, com um vestido muito pouco diferente do do ano anterior, não está ao alcance da maioria. Muitos limitam-se a viver como vive a elite nas zonas de acesso proibido. É assim com as roupas e com os piqueniques

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Nesta, na corrida real, as regras para os mais novos não são muito diferentes das que se aplicam aos pais, apesar de menos apertadas. As meninas devem seguir os critérios das senhoras, mas o chapéu não tem limitação de tamanho (os tais 10 centímetros de diâmetro) e pode ser substituído por uma grinalda ou qualquer outro adereço. O fraque, colete e cartola são válidos para os meninos, mas há a opção por um fato escuro com camisa. Exceções a todas estas orientações só são possíveis para os estrangeiros e militares, que são convidados a usar o traje típico do país de origem ou a farda correspondente à sua patente. Em ambos os casos, porém, é obrigatório que sejam as versões formais ou de festa.

Ainda não ficamos por aqui em termos de protocolo e as corridas ainda nem começaram. É que não há ninguém em Ascot que não ostente uma pregadeira ao peito com o respetivo nome e título, incluindo a rainha e restantes membros da realeza. E nem aqui a organização relaxa. Dependendo do estado civil há normas distintas. As mulheres casadas que tenham o apelido do seu mais-que-tudo apresentam-se com o nome completo do marido, incluindo o primeiro nome, precedido pela referência ‘Mrs’. Mesmo que não estejam acompanhadas pelo cônjuge, a regra é essa e o nome próprio é anulado para dar lugar ao nome completo de quem as tornou ‘Mrs’. Uma forma anacrónica de domínio masculino, que os ingleses preservam, perante a submissão (ou perceção de subida de estatuto) feminina. Se a mulher casada tiver mantido o apelido da família de origem, há uma espécie de penalização ou valorização, dependendo do ponto de vista. É dada a conhecer pelo nome de solteira. O mesmo se aplica às que não se casaram, que trazem na identificação o selo de ‘Miss’, mulher ou mulher solteira.

O título ‘Ms.’, que se pode aplicar às casadas sem o nome do marido, não é atribuível, o que se pode traduzir como uma espécie de ‘chuto para canto’ ou ‘vista grossa’ às mulheres que rejeitam essa marcação de território. Todas estas guidelines de denominações figuram na extensa convocatória para Ascot, onde a vaga de calor não trouxe a igualdade de género. Os homens não têm nenhuma regra, independentemente do estado civil, havendo apenas a referência ao título nobiliárquico ou a denominação ‘Esq.’, a seguir ao nome completo. Trata-se da abreviatura de esquire, a mais usada depois de knight (título nobiliárquico de cavaleiro).

A experiência de códigos, seja de estados civis, de nobreza ou de estilo, não se fica pelos títulos com que os convidados são catalogados ou as indumentárias que são obrigados a envergar. O programa social inclui um piquenique ultraexclusivo e concorrido, que começa ainda de manhã, muito antes de os cavalos começarem a correr e de a rainha desfilar no relvado. Há quem garanta mesmo que o ponto alto na escada social de Ascot não é o desfile dos coroados nem o cortar da meta. Porque para aceder ao parque de estacionamento Car Park One, onde decorre o piquenique, há listas de espera de anos, que neste momento têm 400 candidatos, para uma capacidade já ocupada de 600 lugares. Um elitismo ao nível da entrada em Eton, o colégio mais exclusivo do mundo (também em Berkshire), onde ter milhões não é credencial suficiente para fazer a matrícula.

A quantidade de sangue azul por metro quadrado e de chapéus excêntricos deixam estonteados os que chegam a Ascot mais habituados a repúblicas com mobilidade social. Mas o topo das assimetrias de classes, mesmo entre a nobreza, atinge o seu esplendor numa área relvada. Não pela sua qualidade — este ano está mais amarela do que verde, queimada pelo sol — mas pelo que se passa em cima dela. Falar num piquenique num parque de estacionamento soa a algo informal e despretensioso, rústico até. Errado. Em Ascot há tanto ou mais requinte e luxo no parque de piqueniques como nos camarotes e restaurantes na bancada VIP. Comecemos pela frota automóvel. Range Rover e Jaguar são os automóveis parqueados mais comuns, tantos que a partir de certa altura é tão normal como ver um Volkswagen ou um Peugeot.

Por enquanto ainda estamos nos carros básicos. Aguçando um pouco mais o olhar é fácil descobrir Cadillacs, Bentleys e Rolls-Royces debaixo de árvores ou a torrarem ao sol. Os kits de piquenique fazem jus aos meios de transporte em que chegaram e estão montados por baixo de toldos brancos ou verdes. Mesas cobertas com toalhas de linho, loiças inglesas, talheres de prata e copos de cristal. Arranjos de flores e candelabros reafirmam a dignidade do piquenique, se é que isso já não estava explícito. Nos frappé refrescam-se garrafas de champanhe, enquanto os homens de fraque e cartola e as mulheres de chapéu e saltos agulha vão retirando das bagageiras as iguarias, cuidadosamente guardadas em geleiras e minifrigoríficos.

Na relva também há regras. O espaço de estacionamento e de montagem das tendas está delimitado e na zona mais exclusiva, de cerca de dez lugares junto às baias sobre a linha de chegada dos cavalos, essa marcação é feita com cercas de madeira. A comida e as bebidas têm de entrar com os merendeiros e não há hipótese de sair para fazer reabastecimentos e voltar a entrar. Só entra vinho gaseificado ou champanhe. Outro tipo de álcool, seja cerveja, cidra ou bebidas espirituosas não vale a pena trazer, não passam na segurança, que este ano está reforçada devido aos ataques terroristas.

Não, não estamos num parque de merendas comum. O acesso é renovado anualmente e dificilmente um plebeu ou newcommer estaciona aqui. Esse passe é herdado, mantendo-se durante anos (por vezes séculos) dentro das mesmas famílias. Novas admissões estão excluídas, até porque a ideia é mesmo esta: excluir quem não faz parte por relações de sangue. Como os faqueiros e as loiças, os títulos de lord e lady, ou o cartão de sócio de clubes ‘gentlemen only’, também o espaço para piquenicar em Ascot está preso ao passado, para evitar a degeneração com misturas. Nem o facto de decorrer ao ar livre lhe traz arejo. Resta-nos apreciar o confirmado e reafirmado requinte britânico na arte de receber e servir à mesa.

Piquenique. Em paralelo com a exclusividade dos merendeiros no Car Park One há quem aproveite o estacionamento para comer e beber e estudar o guia das apostas do dia. Só entra vinho gaseificado ou champanhe. Outro tipo de álcool não vale a pena trazer, não passa na segurança, que este ano está reforçada devido aos ataques terroristas

Piquenique. Em paralelo com a exclusividade dos merendeiros no Car Park One há quem aproveite o estacionamento para comer e beber e estudar o guia das apostas do dia. Só entra vinho gaseificado ou champanhe. Outro tipo de álcool não vale a pena trazer, não passa na segurança, que este ano está reforçada devido aos ataques terroristas

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Posto isto, são duas da tarde e a pontualidade britânica não falha. Os olhos, ou os binóculos, apontam o relógio e o cronómetro afixados junto à meta, de frente para a bancada VIP. Por enquanto o contador está a zero, deixando saltar à vista a referência, em letras garrafais, à marca de relógios que há dez anos garante a contagem dos tempos de corrida. Aliás, a Longines é a única referência comercial no espaço mais nobre, aquele que concentra o olhar dos convidados e dos meios de comunicação do mundo inteiro, à espera da chegada dos cavalos em prova.

Escuta-se o hino nacional e começa a Procissão Real. Kate, duquesa de Cambridge, sorri e acena com o tal vestido branco de renda, que deixa na dúvida se não é o mesmo do ano passado. A rainha, a resistente que não falha Ascot desde que subiu ao trono, em 1952, vem de casaco verde alface e vestido com um estampado de flores, típico dos britânicos. De verde, mas num tom menos berrante, vem também Sophie, condessa de Wessex. Mais um sinal de que a família real ou não liga à exclusividade e novidade nas vestimentas em eventos oficiais ou não fala entre ela sobre o que vai vestir. A imprensa britânica faz vista grossa à sintonia cromática. Prefere o registo fotográfico do momento em que Sophie se desequilibra ao sentar-se na charrete e é amparada por Kate, imagem que viria a correr mundo em sites e capas de jornais.

As carruagens abertas continuam a desfilar — com netos, filhos, primos e irmãos — e não se transformam em abóboras no final. Faz-se um minuto de silêncio em memória das vítimas do incêndio na Grenfell Tower e dos recentes ataques em Londres e Manchester. São 14h30 e arrancam as corridas. Para muitos, o dia em Ascot está feito. Começou meses antes com a escolha do figurino e do chapéu, do fraque e da cartola, passou pela socialização na relva ou à mesa de almoço nos camarotes privados, numa roda-viva para ver e ser visto.

Para os aficionados dos cavalos, principalmente os criadores que gastam milhões a manter e trazer até Ascot as raças mais puras e bem treinadas, a dança arranca com as apostas. Torcem, gritam, comemoram ou fecham a cara, dependendo do milésimo de segundo que determina os que levam mais dinheiro para casa. A propósito: Ascot é dos mais caros e restritos circuitos de cavalos do mundo. O prize-money só das provas (seis por dia) da semana da Royal Ascot vale mais de 6,5 milhões de libras (€7,4 milhões).

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Um guia (mais um) de 76 páginas é entregue aos convidados para que não se percam entre as inúmeras atrações sociais de Ascot e a ordem das provas do dia. A organização aqui também não deixa nada ao acaso e, antes de apresentar o elenco de cavalos em competição, dedica uma página só para explicar como se lê o próprio guia. Parece excesso de zelo (o mesmo que faz dos ingleses os reis do mind the gap), mas sem a preciosa infografia é quase impossível, para um leigo em corridas, entender a profusão de siglas, nomes e números que ocupam as páginas seguintes. Ora vamos a isto. Primeiro o número do cavalo, que indica a posição na formação, depois o nome do equídeo, o país onde nasceu e onde é criado (raramente coincide), a cor e o peso, o sexo, o número de dias desde a última vez que correu, o nome do proprietário e do treinador, o nome e peso do jockey com as respetivas cores e imagem do equipamento, mais uma infinidade de pontuações difíceis de escrutinar, que permitem ponderar as melhores apostas.

O panorama geral está dado. Agora é preciso voltar ao alinhamento das corridas do dia, para enquadrar cada cavalo em cada uma das provas. O primeiro dia da competição Royal Ascot tem seis provas e a primeira, a das 14h30, é a The Queen Anne Stakes, que conta para o Campeonato Britânico (Grupo 1). Tem 18 cavalos em competição, a esmagadora maioria criados e treinados no Reino Unido, mas há um vindo dos Estados Unidos, outro de França e dois de Itália. Uma hora e cinco minutos depois arranca a segunda leva de 18 cavalos, a correr na The Coventry Stakes (Grupo 2), para às 15h40 disparar o sinal de partida da The King’s Stand Stakes, desta vez também para o Campeonato Britânico e para o Global Sprint Challenge. Na Royal Ascot não há corridas com obstáculos, apenas corridas planas.

Vamos em metade das seis provas do dia e ainda há quem continue a olhar para o guia à procura de orientação. A meta é passada em segundos e, mesmo na linha da frente da assistência, não é para todas as cabeças acertar em que posição fica cada um dos 18 concorrentes. Os adeptos profissionais anotam no guia, com cruzes, círculos e números, o resultado final. Os que não resistem ao calor recolhem à box, à semelhança dos cavalos, recebidos com baldes de água fresca pelos tratadores. No universo dos humanos, a água dá lugar ao champanhe ou ao chá com leite, já está na hora. Reabastecer para as últimas corridas do dia: a St. James Palace Stakes, a Ascot Stakes e, last but not the least, a Windsor Castle Stake.

Mais cavalos a correr e o cronómetro a contar, entregam-se os últimos prémios do dia, desmobilizam-se as hostes e um mar de gente inunda as zonas de acesso à saída. Amanhã há mais corridas, mas a abertura da Royal Ascot só se repete no próximo ano.

O Expresso viajou a convite da Longines

Royal Ascot ou o paradigma da eterna tensão entre os que têm e os que não têm

Por Paulo Anunciação em Londres

A season londrina já não é o que era. Perdeu grande parte da pompa e do significado de antigamente. Terminada a época da caça, as grandes famílias senhoriais britânicas costumavam mudar-se de armas e bagagens para as suas mansões de Londres. Durante as dez ou doze semanas da season, elas entretinham-se com bailes e jantares, regatas, jogos de verão, muitos morangos e ainda mais champanhe. O objetivo principal, claro, era assegurar que as filhas em idade casadoira encontrassem parceiros adequados — isto é, da mesma condição social.

Tudo isso deixou de fazer grande sentido a partir da segunda metade do século passado. As debutantes, por exemplo, deixaram de ser apresentadas na corte (a rainha Isabel acabou com a tradição em 1958). A aristocracia perdera grande parte da terra, da riqueza e do poder político de antigamente, quando o império britânico ainda era o maior à face da Terra. Mas os divertimentos sazonais que preenchiam aquelas semanas da primavera e do verão londrinos não desapareceram. A season estará diferente, mas as corridas de remo em Henley (fundadas em 1839), o torneio de ténis de Wimbledon (1877), as regatas em Cowes (1826) ou a Exposição de Verão na Royal Academy (1769) continuam a realizar-se, fielmente, todos os anos.

O cavalo sempre foi o animal de culto da aristocracia britânica. É por isso natural que a season inclua vários eventos equestres, como The Grand National (em Aintree), The Derby (Epsom) ou a joia do calendário de polo, a Cartier Queen’s Cup, um torneio disputado anualmente no chiquérrimo Guard’s Polo Club, em Windsor. Em termos de charme e prestígio, no entanto, a semana da Royal Ascot não tem par. Segundo a “Debrett’s”, a bíblia da etiqueta e do bom gosto, os cinco dias de corridas de cavalos puros-sangues organizadas em cada mês de junho no hipódromo de Ascot, nos arredores de Londres, são o evento da season.

Parte desse prestígio deve-se ao facto de as corridas da Royal Ascot terem uma ligação umbilical à família real britânica. O castelo de Windsor, residência real, fica a pouco mais de dez quilómetros do hipódromo. A pista de corridas, aliás, foi construída numa área da floresta de Windsor “descoberta” pela rainha Ana no início do século XVIII. Durante um passeio de cavalo, a rainha achou aquela “área aberta particularmente ideal para cavalos galoparem usando o máximo de esforço e energia”. As primeiras corridas no local realizaram-se em agosto de 1711.

Desde então, os membros da família real dão o mote e marcam o estilo das corridas de Ascot. Cada dia da Royal Ascot — atualmente são cinco, de terça a sábado — abre com a Procissão Real de carruagens elegantes, puxadas a cavalo, que trazem a rainha, os membros da família e os convidados que almoçaram com eles no castelo de Windsor (em 2014, a xeque árabe Amna bint Mohammed Al Thani terá ficado tão desiludida por ser colocada na terceira carruagem — e não na primeira, ao lado da rainha — que preferiu regressar de imediato a Londres; a nota oficial referiu “razões de saúde”). Os cocheiros e postilhões estão fardados com uma libré especial para a ocasião, em tom escarlate e chapéus altos debruados a ouro. Quando as carruagens pisam a relva impecável de Ascot, os espectadores retiram as cartolas da cabeça e as mulheres fazem uma reverência respeitosa.

A rainha Isabel — ela mesma proprietária e criadora fanática de cavalos, além de senhoria dos terrenos do hipódromo — entrega, por tradição, a taça ao vencedor da Gold Cup, a corrida mais importante do calendário da Royal Ascot, disputada no terceiro dia do evento. As corridas de cavalos são o desporto favorito da rainha, tal como acontecia com muitos dos seus avós, como o rei Jorge III (que patrocinou a primeira Gold Cup), a rainha Vitória (que foi a Royal Ascot todos os anos até 1861, quando entrou em luto por morte do marido, o príncipe Alberto) ou o filho desta, rei Eduardo VII — Bertie, como era conhecido, adorava as corridas, a vida da alta-roda e, sobretudo, as mulheres de Ascot. Ele foi muitas vezes ao hipódromo com o compincha Luís Pinto de Soveral, embaixador de Portugal em Londres.

Algumas décadas atrás, em 1854, o rei português D. Pedro V visitou os primos britânicos e também foi a Ascot com a rainha Vitória. “Estava muita gente, e os apostadores faziam uma algazarra insuportável. Todos sabem como os ingleses são entusiastas por este divertimento quase momentâneo”, escreveu o monarca, que na altura tinha apenas 16 anos. Nesse ano, o vencedor da Gold Cup foi o lendário West Australian. A longa lista de campeões de Ascot inclui alguns dos melhores puros-sangues da história, como o Yeats, que conquistou quatro taças Gold Cup consecutivas entre 2006 e 2009.

Parte do fascínio de Ascot tem que ver com a exclusividade da Royal Enclosure, a área reservada à família real e seus convidados e outros membros de uma elite social escolhida a dedo por Her Majesty’s Representative at Ascot. Esse cargo de prestígio é desempenhado atualmente por Johnny Weatherby, o assessor real que decide quem recebe as badges que dão acesso ao recinto (as candidaturas requerem o patrocínio de duas pessoas que sejam membros da Royal Enclosure há pelo menos cinco anos). Um dos seus antecessores, o visconde Churchill – que desempenhou o cargo entre 1901 e 1934 – costumava dizer que a tarefa de atribuição das badges para a Royal Enclosure o transformava, cada ano, “no homem mais amado e mais odiado da nação”.

As corridas da Royal Ascot eram e continuam a ser um paradigma da eterna tensão entre os que têm e os que não têm. A entrada na Royal Enclosure continua a ser privilégio de uma pequena minoria. A única “liberalização” foi a admissão de divorciados, proibida até 1955 (mesmo assim, não é raro encontrar uma ou outra carta de um snobe nas páginas do “The Times” a queixar-se de ter encontrado “celebridades” ou “pessoas com nomes como Keith, Les ou Gary” no interior da Royal Enclosure). A exigência de fraque, colete e cartola para os homens e as regras quase talibânicas impostas às mulheres vigoram apenas para a Royal Enclosure. Para os outros, existem três enclosures adicionais, abertas ao público pagante, com preços entre 37 e 88 libras por dia. Com direito a ver — ao longe — a rainha e seus convidados.