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Quanto maior a confusão menos se sabe o seu tamanho

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O Brasil tornou-se esta semana um país ainda mais complicado de explicar politicamente. E esta é a narrativa de como um homem da ultradireita, defensor da ditadura militar e contrário a políticas inclusivas de minorias está a crescer com as indefinições, acusações e incertezas que cercam Lula e Temer

Plínio Fraga, correspondente do Expresso no Brasil

A política brasileira está sendo regida pelo princípio da incerteza. Recorrer a uma definição da física quântica mostra a dificuldade para explicá-la e entendê-la, o que é exatamente o ponto que aqui se quer demonstrar.

O princípio da incerteza afirma que quanto mais precisamente se medir uma grandeza, forçosamente mais será imprecisa a medida da grandeza correspondente. Resumindo, quanto maior a confusão menos se sabe do seu tamanho.

A condenação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva a quase dez anos de prisão ampliou a incerteza sobre o rumo do quadro político brasileiro a graus nunca vistos. Sendo o candidato que as sondagens apontam como favorito ao pleito presidencial de 2018, Lula pode ser afastado da disputa caso a sua condenação seja confirmada em segunda instância. Outro ponto nebuloso é saber se o presidente Michel Temer continuará no poder e sob quais condições.

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O governo está paralisado na tentativa de conter no parlamento o pedido para que seja investigado sob acusação de corrupção passiva. Na primeira votação em comissão da Câmara dos Deputados, a base parlamentar de Temer conseguiu os votos necessários para rejeitar a investigação pedida pelo procurador-geral da República. A votação em plenário, que sepultará ou acatará a denúncia de corrupção passiva, está prevista para ocorrer em meados de agosto. Até lá, o governo mantém-se na corda bamba.

A incerteza da candidatura Lula e a fraqueza do governo Temer não estão associadas uma à outra. A origem do problema de cada um é diferente. Lula recebeu o primeiro impacto direto em razão de negociatas com empreiteiras ocorridas em sua gestão. Temer está na linha de fogo de antigos parceiros, agentes de outros tipos de negociatas e que ameaçam envolvê-lo diretamente em processos nascidos a partir de delações premiadas.

Em comum, os grupos de Lula e Temer tiveram como parceiros criminosos as mesmas empreiteiras historicamente associadas à corrupção política no Brasil.

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Tais confusões lançam o país no seu imbróglio mais nebuloso desde a redemocratização em 1985. Em geral, as eleições presidenciais ajudaram até aqui a conter crises políticas e económicas nascidas em governos frágeis, ruins ou corruptos. Sem poder imaginar quem pode surgir como nome a dar ordem no caos, o caos só se multiplica.

A sondagem eleitoral mais recente sobre a disputa presidencial de 2018 aponta Lula com 30% das intenções de voto. O deputado da ultradireita Jair Bolsonaro aparece com 16%, seguido da ex-senadora Marina Silva, com 15%. Os demais candidatos somados mantêm-se com menos de um terço dos votos dos três líderes.

Bolsonaro é a novidade do quadro. Ex-capitão do Exército, é defensor da ditadura militar e contrário a políticas inclusivas de minorias, em especial homossexuais e transgéneros. A possibilidade de que cresça eleitoralmente no vácuo da ausência de lideranças fortes é novo combustível para a crise dos próximos 18 meses.