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Quando a cólera ameaça matar mais do que a guerra

AFP / Getty Images

Megaepidemia no Corno de África pior do que as guerras locais

A guerra no Iémen tudo levou. Quase não corre água nas torneiras da capital, Sanaa, não há eletricidade, os medicamentos escasseiam ou são demasiado caros para uma população maioritariamente desempregada. Há hospitais destruídos, outros parcialmente encerrados devido aos bombardeamentos de ambas as partes em conflito. Tropas leais ao governo exilado iemenita apoiadas pela Arábia Saudita dominam o sul do país. Rebeldes houthi apoiados pelo Irão controlam o noroeste do Iémen. Dois anos e três meses de guerra civil já mataram mais de 10 mil civis, alerta a ONU.

“Há muito que esta não é uma crise alimentar. É uma catástrofe absoluta, uma crise humanitária”, contou ao Expresso o chefe da missão do Comité Internacional da Cruz Vermelha em Sanaa, Alexandre Faite.

Os trabalhadores da função pública não são pagos há um ano e muitas escolas deixaram de funcionar porque os professores tiveram de procurar outros trabalhos. O mesmo acontece com médicos e enfermeiros. Há cada vez menos mãos para tratar os doentes com cólera, que não param de aumentar. O Comité Internacional da Cruz Vermelha contabilizou, terça-feira, mais de 300 mil casos suspeitos (mais de 1% da população iemenita), que resultaram em mais de 1700 mortos. Um quarto das vítimas são crianças com menos de 15 anos. A cólera é uma doença bacteriana muito contagiosa que se propaga, essencialmente, através de alimentos e água contaminada.

Dois milhões de deslocados

O norte do país é, até ao momento, a zona mais castigada pelo surto que atinge dimensões preocupantes na capital Sanaa e em Al Hudaydah, uma cidade portuária no Mar Vermelho. Aqui há sete mil novos casos/dia, segundo a Cruz Vermelha.

Neste cenário de caos, somam-se a falta de higiene e a má nutrição, agravados pela guerra. No Iémen não há campos de refugiados oficiais e perto de dois milhões de deslocados que não conseguiram deixar o país instalaram-se nos campos improvisados em zonas rochosas e inóspitas. Há situações terríveis de famílias inteiras doentes, a população deixou de ter acesso a bens de primeira necessidade e o preço do arroz e dos medicamentos disparou. Arranjar água e comida pode levar um dia inteiro. A situação é ainda mais dramática para os que menos têm, adiantou Alexandre, que se considera afortunado por dispor de um gerador em casa e de um tanque, no terraço, com água potável fornecida por um camião duas vezes por semana.

“A operação da Cruz Vermelha aqui no Iémen avançou muito nos últimos cinco meses. Passámos de um orçamento de 48 milhões de dólares para mais de 100 milhões.” Quando os números da cólera dispararam, o mundo acordou para o drama deste país no extremo sul da península arábica. “Estamos melhor do que há um ano.”

Mas há ainda muito caminho a percorrer. As Nações Unidas alertaram recentemente para a situação dramática que se vive no Iémen e noutros Estados africanos menos desenvolvidos, como a Somália.

Apesar dos progressos ao nível político, mais de duas décadas de violência deixaram sequelas profundas. Desde fevereiro de 2015, pelo menos 250 pessoas morreram em ataques terroristas em Mogadíscio, capital da Somália. Os atentados em restaurantes, hotéis e noutros locais habitualmente frequentados por estrangeiros foram atribuídos ao grupo Al-Shabaab. No início deste ano, 6,7 milhões de somalis, perto de metade da população, precisavam de assistência, segundo a Agência das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA).

A situação das crianças é especialmente grave: 363 mil sofrem de má nutrição. A mortalidade infantil na Somália é das mais elevadas do mundo — em cada 100 mil recém-nascidos, 732 não sobrevivem. Os números da cólera são, no entanto, menos preocupantes do que no Iémen, não ultrapassando os 54 mil casos (contabilizados aqui os casos de diarreia aquosa aguda). No Quénia, há 581 casos diagnosticados de cólera e na Etiópia a ONU contabilizou 37 mil casos de diarreia aquosa aguda responsáveis por 700 mortes.

Massacrada pelo fenómeno El Niño, cheias e seca extrema, a Somália tem ainda de lidar com o fluxo crescente de refugiados iemenitas e somalis retornados do Quénia e de outros países vizinhos.