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Internacional

O último combate de Liu Xiaobo

Homenagem a Liu Xiaobo ontem à porta do consulado chinês em Sydney, na Austrália

JASON REED / REUTERS

Nobel da Paz morreu sem que as autoridades de Pequim autorizassem o tratamento no estrangeiro

António Caeiro

Em toda a história do Prémio Nobel da Paz, só cinco galardoados não foram a Oslo receber o prémio e, entre estes, apenas dois — o alemão Carl von Ossietzky, em 1935, e o chinês Liu Xiaobo, em 2010 — não puderam sequer enviar ninguém à cerimónia. A coincidência ensombrava a reputação internacional da China, mas o pior, neste aspeto, aconteceu na quinta-feira passada: tal como Von Ossietzky, que o Governo de Hitler acusava de “traição”, Liu Xiaobo acabou por morrer sob custódia policial. Tinha 61 anos.

Antigo professor universitário e crítico literário, Liu Xiaobo estava preso desde 2008, porque “tirou partido da internet para difamar e incitar outros a derrubar o poder de Estado da Ditadura Democrática do Povo e o sistema socialista”. O crime diz respeito a um abaixo-assinado a favor de “reformas políticas democráticas” na China, nomeadamente eleição direta dos órgãos do Estado, independência dos tribunais e despartidarização das Forças Armadas. “Devemos abolir o especial privilégio de um partido para monopolizar o poder e garantir princípios de livre e justa competição entre diferentes partidos políticos”, reclamava o abaixo-assinado.

A chanceler alemã, Angela Merkel, lamentou a morte do dissidente chinês, definindo-o como “um corajoso lutador pelos direitos civis e a liberdade de opinião”. Governantes dos EUA, França, Reino Unido e outros países reagiram de maneira idêntica. “O movimento dos direitos humanos na China e pelo mundo fora perdeu um campeão com bons princípios”, disse o alto-comissário da ONU para os Direitos Humanos, Zeid Ra’ad Al Hussein. Para o Governo chinês, tratava-se de “um criminoso condenado por subverter o poder de Estado”.

Podia ter sido tratado fora

Liu Xiaobo foi hospitalizado no mês passado, em regime de “liberdade condicional médica”, depois de lhe ter sido diagnosticado um cancro no fígado em fase terminal. “Fizemos o melhor para lhe salvar a vida”, disse na quinta-feira à noite um responsável do hospital, citado pela agência noticiosa oficial chinesa Xinhua. Há uma semana, dois médicos estrangeiros convidados pela China a colaborar com a equipa de “oito reputados oncologistas” locais destacados para seguir Liu Xiaobo disseram que o doente poderia ser tratado fora do país, se a transferência fosse feita “rapidamente”. Não foi: as autoridades alegaram que Liu não estava em condições de viajar.

Por mais de uma vez, EUA e Alemanha manifestaram-se prontos a receber Liu Xiaobo e a sua mulher, Liu Xia, mas o Governo chinês recusou. “Respeitem a soberania judicial da China e não interfiram nos seus assuntos internos a pretexto de um caso individual”, respondeu um porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros. Sem rodeios diplomáticos, o jornal “Global Times”, tabloide nacionalista em língua inglesa, propriedade do grupo que edita o “Diário do Povo”, órgão central do PC chinês, explicou assim a posição das autoridades: “A China está mais forte e confiante e por isso não irá submeter-se às pressões ocidentais.” Segundo o jornal, “a corrente dominante nas sociedades ocidentais está muito menos motivada para interferir nos assuntos internos da China”.

Morrer no exílio

Liao Yiwu, escritor amigo de Liu Xiaobo, exilado na Alemanha, contou que o Nobel da Paz “gostaria de morrer no estrangeiro”. Já devia sentir que não viveria muito mais tempo, mas se fosse autorizado a receber cuidados paliativos fora da China a mulher poderia acompanhá-lo e recuperar a liberdade. O derradeiro combate de Liu Xiaobo terá sido esse.

Embora não esteja acusada de qualquer crime, Liu Xia — poetisa e fotógrafa, seis anos mais nova do que Liu Xiaobo — está em prisão domiciliária desde que o marido ganhou o Prémio Nobel da Paz. “Privada de todas as liberdades pessoais” em junho de 2013, Liu Xia escreveu ao Presidente Xi Jinping: “Ninguém me explicou por que razão me detêm. Neste país, talvez seja um ‘crime’ ser mulher de Liu Xiaobo.” Quatro anos depois continua sem resposta.