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A primeira-dama vermelha

Soprano do Exército, educada como “combatente da arte e da cultura”, a major-general Peng Liyuan, mulher do Presidente Xi, é a nova arma do soft power chinês

António Caeiro

Donald Trump passou grande parte da sua campanha eleitoral a atacar a China. Em abril passado, menos de três meses depois de chegar à Casa Branca, o novo Presidente dos Estados Unidos encontrou-se em Palm Beach com o homólogo chinês, Xi Jinping, e ficou encantado: “Gostei muito dele. Tem uma mulher fantástica”. Não consta que a mulher de Xi, Peng Liyuan, tenha cantado durante aquela cimeira informal, mas, neste caso, Trump mostrou estar bem informado.

Soprano da Companhia de Música e Dança do Exército Popular da Libertação (nome oficial das Forças Armadas chinesas), educada como “combatente das artes e da cultura”, Peng Liyuan não é apenas uma das vozes mais apreciadas da China. Primeira chinesa da era comunista tratada como primeira-dama (“Diyi Furen”), um título reservado outrora às mulheres dos líderes dos países capitalistas, Peng Liyuan é considerada “a nova arma do soft power chinês”. Peng “deu um contributo único para moldar e melhorar a imagem da China”, escreveu um investigador da Academia Chinesa de Ciências Sociais. Em 2013, a “Time” colocou-a entre as “100 personalidades mais influentes do mundo”: Peng Liyuan “humanizou o regime comunista” e “trouxe charme ao made in China”, justificou a revista americana.

“As mulheres sustentam metade do céu”. É uma metáfora famosa, atribuída ao fundador da República Popular da China, Mao Tsé-Tung. Por coincidência, cinco das dez mulheres mais ricas do mundo apuradas este ano pela revista “Forbes” são chinesas. A lista é encabeçada por Zhou Qunfei, uma antiga operária nascida em 1970, com uma fortuna avaliada em 7400 milhões de dólares. Na esfera política é o contrário. Os sete “líderes do Estado” que compõem o Comité Permanente do Politburo do Partido Comunista Chinês, a cúpula do poder, são todos homens. Entre os dez membros do Conselho de Estado, o executivo do governo, chefiado pelo “número 2” do Partido, há apenas uma mulher.

A última mulher do antigo Presidente Mao, a atriz Jiang Qing, chegou a ser uma das figuras mas poderosas do país, mas acabou mal. Depois da morte do marido, em setembro de 1976, Jiang Qing foi presa e condenada a prisão perpétua. O período áureo da sua carreira, a década da Grande Revolução Cultural Proletária (1966-76), é visto hoje como “o mais grave erro e o maior retrocesso do socialismo” na China. Mais de um milhão de pessoas morreram, dezenas de milhões de outras foram perseguidas. “Foi a nossa idade das trevas”, diria o romancista Yu Hua. Jiang Qing suicidou-se em 1991; o seu nome e imagem desapareceram dos livros.

Dupla. Xi Jinping e Peng Liyuan conheceram-se em 1986 e casaram-se no ano seguinte. Peng era já uma estrela nacional e segundo os analistas “foi instrumental” na ascensão política do marido

Dupla. Xi Jinping e Peng Liyuan conheceram-se em 1986 e casaram-se no ano seguinte. Peng era já uma estrela nacional e segundo os analistas “foi instrumental” na ascensão política do marido

foto ADRIAN DENNIS/ AFP

Peng Liyuan alistou-se no Exército Popular de Libertação em 1980. Tinha 18 anos e reconhecidos dotes musicais. Com apenas 14 anos foi admitida na Universidade de Artes de Shandong, a sua província natal, e mais tarde, já como soldado, frequentou o Conservatório de Pequim. A China estava a iniciar uma nova política, denominada “Reforma Económica e Abertura ao Exterior”, ou simplesmente “Gaige Kaifeng (Reforma e Abertura). Em vez do “aprofundamento da luta de classes e da ditadura proletária”, o desenvolvimento económico era agora “a tarefa central”. “Socialismo não é pobreza”, proclamavam os reformistas. Até então tinha sido: uma persistente pobreza e uma revolução contínua. Ninguém tinha passaporte, automóvel ou casa própria. Comprar uma bicicleta, um relógio de pulso e uma máquina de costura eram as “três grandes aspirações” das famílias urbanas. Frigorífico e máquina de lavar eram artigos de luxo.

O “arquiteto-chefe das reformas” chamava-se Deng Xiaoping. Não era formalmente o “número 1” da hierarquia, mas cultivava uma velha máxima revolucionária: “O poder está na ponta da espingarda”. Até se reformar, em 1989, o último cargo que ocupou foi o de presidente da Comissão Militar Central, a liderança política das Forças Armadas chinesas. Ainda hoje, 268 dos cerca de 3000 delegados à Assembleia Nacional Popular (parlamento) são militares. Xi Jinping também está ligado ao sector. O pai, o antigo vice-primeiro-ministro Xi Zhongxun, era general e foi na secretaria-geral da Comissão Militar Central, há quase 40 anos, que o atual Presidente chinês iniciou a carreira política.

Peng Liyuan e Xi Jinping conheceram-se em 1986 e casaram-se no ano seguinte. Dotada de “uma voz dourada, pura e doce”, como se dizia na época, Peng era já uma estrela nacional. Participava em centenas de espetáculos pelo país fora e era presença regular na “Gala do Ano Novo Lunar”, o programa de maior audiência da Televisão Central da China, com mais de 700 milhões de espectadores. Canções patrióticas, de amor ao partido e ao Exército Popular de Libertação, dominam o seu reportório. “O povo são as montanhas/ O povo é o mar/ O povo é o guia do Partido Comunista”, diz o refrão de uma das suas canções. Nove anos mais velho do que Peng, Xi era na altura vice-presidente da Câmara de Xiamen, uma Zona Económica Especial da costa leste da China. Estava filiado no partido, evidentemente, mas só uma década mais tarde chegaria ao Comité Central, com o estatuto de suplente. Até novembro de 2012, quando Xi assumiu a chefia do PCC, Peng Liyuan era mais conhecida do que o marido.

O cargo de secretário-geral do partido, que Xi Jinping acumula com o de Presidente da República e da Comissão Militar Central, é o mais importante do país. Entretanto, Xi Jinping passou a liderar também importantes organismos, entre os quais os “grupos dirigentes” encarregados do ciberespaço, segurança do Estado e “aprofundamento geral das reformas”. É considerado o líder mais forte da China depois de Mao Tsé-Tung. A sua campanha contra a corrupção, a mais ampla de que há memória, foi bem recebida pelo povo, mas segundo alguns observadores, Xi será “mais temido do que amado”. Em muitos aspetos, o marido de Peng Liyuan permanece um mistério. A expressão enigmática do seu rosto já foi comparada ao sorriso de Mona Lisa.

Um analista de Hong Kong, Willy Lam, afirma que Peng Liyuan “foi instrumental” na ascensão política do marido. Terá sido através dela que, na década de 1990, Xi conseguiu o apoio da chamada Fação de Xangai, liderada pelo sucessor de Deng Xiaoping, Jiang Zemin. Em 2002, Xi foi nomeado 1º secretário do PCC na província da Zhejiang, uma das mais prósperas do país, e em 2007 entrou para o Comité Permanente do Politburo do partido, o topo de uma pirâmide com cerca de 90 milhões de filiados. “Peng tem uma grande habilidade política (…) É uma celebridade nacional e a arma secreta de Xi”, diz Willy Lam. O professor Cheng Li, autor de um minucioso ensaio de quase 500 páginas sobre “A Política Chinesa na Era Xi Jinping”, sustenta que os familiares do líder chinês, nomeadamente a mulher e a filha do casal, Xi Mingze, uma jovem de 25 anos, formada na Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, constituem “o núcleo dos seus conselheiros”.

Nas cerimónias oficiais, com reis e presidentes de todos os continentes, Peng Liyuan parece sempre mais à vontade do que o marido, sorridente, atenciosa e confiante. Vê-se que está habituada ao palco. À vontade não quer dizer exuberância, isso não seria apropriado. “Elegância, subtileza e sobriedade” devem ser as principais características de uma primeira-dama chinesa, defende Ma Ke, a estilista responsável por parte do guarda-roupa de Peng Liyuan. “Pelos valores ocidentais, as mulheres são bonitas se forem sexy. O estilo chinês é mais reservado”, disse Ma Ke numa rara entrevista, concedida em novembro passado à CNN.

Estrela. Soprano da Companhia de Música e Dança do Exército Popular da Libertação (nome oficial das Forças Armadas chinesas), Peng Liyuan é uma das vozes mais apreciadas da China

Estrela. Soprano da Companhia de Música e Dança do Exército Popular da Libertação (nome oficial das Forças Armadas chinesas), Peng Liyuan é uma das vozes mais apreciadas da China

getty

foto HE HAO/CHINAFOTOPRESS

Peng Liyuan deixou de dar espetáculos e arrumou o uniforme militar, mas mantém o posto de major-general e, mais do que nunca, continua na ribalta. Além de acompanhar o marido nas viagens ao estrangeiro, incluindo ao Fórum Económico Mundial de Davos, em janeiro passado, Peng Liyuan é embaixadora da Organização Mundial de Saúde para o combate à sida e à tuberculose. A primeira-dama chinesa é também presidente da Academia de Artes do Exército Popular de Libertação. O Nobel da Literatura 2012, Mo Yan, estudou lá.

Poucos chineses sabem o nome da mulher de Hu Jintao ou de Jiang Zemin, os antecessores de Xi Jinping. A vida privada dos líderes chineses era, aliás, um tabu observado com rigor. Contra toda a tradição, por ocasião do 52º aniversário de Peng Liyuan, um músico local colocou na internet uma canção em ritmo rock louvando o primeiro casal do país: “Tio Xi ousa combater os tigres/ Sem medo do céu, nem da terra (…) A China tem também uma Mamã Peng/ A quem dá as suas flores mais bonitas (…) Florescente família, florescente país, florescendo sob o céu (…) Os homens devem aprender com o Tio Xi/ As mulheres com a Mamã Peng”. Logo no primeiro dia a canção registou 40 milhões de visionamentos, realçou a imprensa oficial. (Um ano e meio antes, uma fotografia de Peng Liyuan cantando para os soldados envolvidos na sangrenta repressão do movimento pró-democracia da Praça Tiananmen, em junho de 1989, apareceu também na internet. A fotografia saiu então numa revista do Exército Popular de Libertação, mas, desta vez, foi prontamente retirada do ciberespaço. Há coisas que é melhor não lembrar).

“Depois de tantos anos, temos finalmente uma primeira-dama que nos pode representar condignamente. É um marco histórico”, disse a diretora da edição chinesa da “Vogue”, Zhang Yu. Jing Zhang, editora de moda do jornal “South China Morning Post”, vê o fenómeno Peng Liyuan assim: “Ela é a primeira primeira-dama do Partido Comunista a abraçar um estilo elegante e moderno que não parece deslocado na cena internacional”. Essa imagem tem também efeitos políticos: “Se as pessoas repararem que Xi tem uma mulher tão bonita, isso fará o partido parecer mais humano e menos robótico”, observou a socióloga Li Yinhe, a primeira académica chinesa a defender publicamente a legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo.

Capa de revistas, enaltecida nas redes sociais como “um exemplo da moderna mulher chinesa”, Peng Liyuan representa uma nova era. O desenvolvimento prometido no final da década de 1970 está à vista. Outrora pobre e isolada, a China é hoje a segunda maior economia mundial, à frente do Japão e da Alemanha. Setecentos milhões de chineses saíram da pobreza, há mais arranha-céus em Xangai do que em qualquer cidade europeia ou americana. Falta agora convencer o mundo de que o Governo do Partido Comunista é o mais adequado para o país e que a ascensão da China será sempre um processo pacífico. “A China está a investir fortemente na cultura e no intercâmbio cultural. É muito importante aumentar o hard power, mas também o soft power”, diz um diplomata chinês colocado na Europa. Não será fácil. Aos olhos de muitas pessoas, incluindo cidadãos chineses, um regime que proíbe o acesso ao Facebook e ao YouTube e que autoriza apenas a importação de 34 filmes por ano nunca será muito atraente.

“A experiência de Peng Liyuan é a melhor ilustração do sonho chinês”, disse uma vez o “Diário do Povo”, órgão central do Partido Comunista. “Sonho chinês”, isto é, “o grande rejuvenescimento da nação chinesa”. Como a sua primeira-dama, a China já não é uma potência apagada.