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Trump quer muro transparente para "agentes não serem atingidos com sacos de droga"

HERIKA MARTINEZ

Aos jornalistas que viajaram com ele até Paris, o Presidente norte-americano também disse que a barreira que prometeu construir não tem de cobrir toda a fronteira partilhada com o México

Em rota de Washington para Paris, o Presidente dos EUA disse ontem aos jornalistas a bordo do Air Force 1 que o muro que continua empenhado em construir na fronteira com o México não tem de ser erguido a todo o comprimento porque existem barreiras naturais a proteger os EUA. Também referiu que a barreira artificial tem de ser translúcida para assegurar a visibilidade da guarda fronteiriça, reiterando o seu desejo de instalar painéis solares no muro.

Construí-lo e pôr os mexicanos a pagá-lo foi uma das grandes promessas de campanha do republicano, que ao final de seis meses no poder continua sem conseguir concretizá-la. Ontem, pareceu ter reconhecido pela primeira vez que o projeto enfrenta algumas dificuldades práticas e geográficas.

Na viagem até Paris para uma visita oficial de dois dias, Trump disse aos repórteres que o acompanham que não será preciso erguer a barreira ao longo dos 3200 quilómetros de fronteira partilhada com o México. "Temos montanhas, temos alguns rios que são violentos e perversos, temos áreas que são tão longínquas que não existem pessoas a atravessá-las."

Em vez disso, acrescentou, só será necessário construir "um muro transparente entre cerca de 700 a 900 milhas [1120 a 1440 quilómetros]". Atualmente, já existe uma vedação a cobrir cerca de 1040 quilómetros da fronteira, construída a mando do Presidente George W. Bush e que envolveu um investimento na ordem dos 7 mil milhões de dólares (cerca de 6 mil milhões de euros).

Trump quer que o futuro muro seja transparente para proteger os agentes de patrulha fronteiriça dos traficantes de droga (a forma como classificou todos os mexicanos durante a campanha eleitoral, a par de "violadores" e "criminosos"). "Por mais horrível que possa soar, quando eles atiram enormes sacos de droga para o lado de cá e se houver pessoas do outro lado do muro, nós não conseguimos vê-las. Eles atingem-nos na cabeça com 27 quilos daquilo? Isso acabou."

De acordo com o correspondente da BBC no México, Will Grant, alguns traficantes têm usado catapultas e métodos mais inovadores para transferir a carga para o lado norte-americano, mas os túneis construídos no subsolo continuam a ser a forma a que mais recorrem para traficar droga para os EUA. Grant acrescenta que não se sabe até que ponto é que tem havido de facto guardas fronteiriços a ficarem feridos da maneira que Trump ontem descreveu.

Na conversa com os jornalistas, o Presidente também reafirmou a sua intenção de instalar painéis solares na barreira — uma promessa que fez há um mês num comício no Iowa, explicando que isso garantirá energia mais barata às famílias americanas e, por conseguinte, uma fonte de financiamento do controverso muro.

Durante a corrida à Casa Branca, Trump repetiu várias vezes que ia obrigar os contribuintes mexicanos a financiar a construção, mas o Presidente mexicano, Enrique Peña Nieto, continua a garantir que não paga.

Na sua proposta oficial à comissão orçamental, apresentada em março, Trump pedia aos legisladores que disponibilizassem 1,4 mil milhões de dólares (1,2 mil milhões de euros) de fundos federais para construir o muro no ano fiscal corrente e que incluíssem outros 2,6 mil milhões no Orçamento de 2018, que abrange o período de 1 de outubro deste ano até ao final de setembro do próximo.

Contudo, o Congresso não aprovou qualquer financiamento para a construção do muro no ano em curso, alocando apenas algum dinheiro para reparar a barreira física já existente. Perante o antecipado chumbo, Trump desistiu do requerimento inicial e pede agora 1,6 mil milhões em 2018 para um projeto que, segundo estimativas oficiais, deverá custar mais de 25 mil milhões (quase 22 mil milhões de euros).