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Expresso

Internacional

China rejeita críticas à forma como lidou com a situação de Liu Xiaobo

Notícia da morte de Liu Xiaobo (aqui em jornais de Taiwan) foi censurada em larga medida na China continental

SAM YEH

Dissidente que estava a cumprir 11 anos de prisão morreu na quinta-feira no hospital para onde tinha sido transferido por causa de um cancro terminal no fígado. "A China tem agora a responsabilidade de apurar de forma rápida, transparente e plausível se o cancro poderia ter sido detetado muito mais cedo", diz a Alemanha

As autoridades chinesas rejeitam o criticismo internacional por não terem permitido que Liu Xiaobo, um dos mais famosos dissidentes do país, fosse tratado fora do país ao cancro de fígado que na quinta-feira lhe roubou a vida, aos 61 anos de idade. Reagindo às críticas de governos e ONG, Pequim disse que o caso é um "assunto interno" do país e que os outros países "não estão em posição de tecer comentários impróprios" sobre o assunto.

Entre os críticos conta-se o Comité do Nobel, que em 2010 laureou o ativista pró-democracia com o Nobel da Paz e que ontem acusou a China de "elevada responsabilidade" pela sua morte prematura. Pequim continua agora sobre pressão para libertar a mulher do dissidente, a poeta Liu Xia, que está a viver em prisão domiciliária desde a atribuição do prémio ao marido, sem nunca ter sido formalmente acusada ou julgada por qualquer crime.

Liu Xiaobo morreu "pacificamente" na quinta-feira à tarde, rodeado pela mulher e por outros familiares, avançou aos media Tend Yue'e, o chefe da equipa médica que estava a tratá-lo. Num breve comunicado, o governo chinês informou apenas que Liu morreu na sequência da falência de vários órgãos.

Classificando a sua morte como "prematura", o Comité do Nobel disse que a recusa da China em autorizá-lo a viajar até ao estrangeiro para receber os melhores tratamentos possíveis é "profundamente perturbadora".

A Alemanha, um dos países para onde Liu poderia ter sido transportado, lamentou que isso não tivesse acontecido. "A China tem agora a responsabilidade de apurar de forma rápida, transparente e plausível se o cancro poderia ter sido detetado muito mais cedo", disse o ministro dos Negócios Estrangeiros, Sigmar Gabriel.

Em comunicado, o homólogo britânico de Gabriel, Boris Johnson, também acusou a China de ter tomado uma decisão "errada" ao impedir que Liu fosse transferido para outro país.

Nas suas primeiras declarações oficiais depois da morte do dissidente, o Ministério dos Negócios Estrangeiros chinês respondeu em comunicado: "A gestão do caso de Liu Xiaobo é um assunto interno da China e os países externos não estão em posição de tecer comentários impróprios." O porta-voz do Ministério, Geng Shuang, acrescentou à agência estatal Xinhua que os médicos do hospital de Shenyang para onde Liu tinha sido transferido fizeram tudo o que podiam para tratar o ativista.

No final do mês, Liu foi transferido da prisão daquela cidade, onde estava a cumprir uma pena de 11 anos de prisão desde 2009, para um hospital das proximidades após ter sido anunciado que padecia de um cancro terminal.

Nos seus últimos dias de vida, vários países do Ocidente pediram à China repetidas vezes que o autorizasse a viajar para o estrangeiro a fim de receber os melhores cuidados paliativos disponíveis — uma exigência que Pequim rejeitou. Médicos chineses citados pelo governo insistiram que ele estava demasiado doente para viajar, com dois médicos ocidentais a rejeitarem essa alegação após terem visitado Liu no hospital.

Centenas de pessoas reuniram-se ontem à noite no centro de Hong Kong para homenagear o casal de ativistas

Centenas de pessoas reuniram-se ontem à noite no centro de Hong Kong para homenagear o casal de ativistas

Billy H.C. Kwok

Atenções focadas em Liu Xia

Estados como a Alemanha, o Reino Unido, França, Estados Unidos e Taiwan estão a manter as pressões sobre Pequim para que liberte Liu Xia, que estará a sofrer de uma depressão profunda após ter passado os últimos sete anos em prisão domiciliária sob intensa vigilância estatal. Depois de ter sido autorizada a viajar até Shenyang para estar com o marido antes de ele morrer, o seu paradeiro é agora incerto.

O alto comissário da ONU para os Direitos Humanos, Zeid Ra'ad Al-Hussein, já se juntou aos governos estrangeiros, pedindo à China que "garanta a liberdade de movimentos de Liu Xia". A Amnistia Internacional lançou entretanto uma petição pela libertação da poeta, dizendo que "é altura de as autoridades chinesas porem fim a este castigo cruel".

Entretanto, a notícia da morte de Liu Xiaobo está a ser censurada na China continental, com correspondentes de jornais estrangeiros em Pequim a dizerem que os media locais não escreveram nada sobre o assunto aparte escassos e curtos artigos em inglês.

Foi o caso do editorial do "Global Times", um jornal de língua inglesa muito próximo do Partido Comunista Chinês, que ontem escreveu que Liu foi "uma vítima desviada" pelo Ocidente. "O lado chinês esteve focado no tratamento de Liu, mas algumas forças estrangeiras tentaram sempre desviar o assunto para uma rota política, hipotecando o tratamento como se se tratasse de um assunto de 'Direitos Humanos'", lê-se nesse artigo.

Na internet, a maioria dos comentários à morte do dissidente nas redes sociais parece ter sido censurada, avança a BBC. Ao canal britânico, Tienchi Martin-Liao, um ativista chinês sediado na Alemanha, disse que as autoridades chinesas proibiram os amigos da família de organizarem eventos de homenagem a Liu e garantiu que "muitos já foram detidos". Ontem à noite, centenas de pessoas participaram numa vigília em honra do ativista em Hong Kong.