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Secretas dos EUA detetaram responsáveis russos a discutir encontros com sócios de Trump “em 2015”

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Comunidade de serviços secretos não sabia o que fazer com essas informações à data, mas está agora a reanalisá-las, após ter sido revelado que Trump Jr. se encontrou com uma advogada russa para discutir informações danosas sobre Hillary Clinton porque o Governo de Putin queria “ajudar” o seu pai a ser eleito

O “Wall Street Journal” revelou ontem que, em 2015, as autoridades russas já estavam a discutir potenciais encontros com sócios e conselheiros de Donald Trump, meses antes de o empresário norte-americano anunciar formalmente a sua candidatura à Casa Branca.

Numa notícia publicada na quarta-feira, a meio de uma semana já bombástica no âmbito do caso Trump-Rússia, o jornal revelou que, há dois anos e meio, a comunidade de serviços secretos norte-americanos detetou responsáveis russos a discutir potenciais reuniões com pessoas próximas de Trump — mas que, à data, não sabiam o que fazer ao conteúdo das conversas intercetadas.

Trump, magnata de imobiliário e dono de um império de hóteis e casinos espalhados pelo mundo, já tinha feito negócios com a Rússia no passado, levando as agências a não suspeitarem à partida desses encontros. À luz dos emails trocados entre o filho mais velho do Presidente e um intermediário russo, revelados no início desta semana, as secretas estão a reanalisar as informações recolhidas em 2015, avança o “Wall Street Journal”.

Atuais e ex-funcionários dos serviços de informação norte-americanos disseram ao jornal que Trump estava no radar desde que organizou o concurso Miss Universo 2013 em Moscovo e desde que começou a vender propriedades na Rússia — e que, apesar dessas ligações, ficaram intrigados com as reuniões agendadas entre operacionais russos e associados de Trump. “O que é que está aqui a passar-se?”, questionou um ex-funcionário.

As suspeitas de ingerência russa no processo eleitoral de 2016 subiram de tom na primavera do ano passado, quando algumas agências secretas europeias avisaram as autoridades dos EUA que havia dinheiro russo a circular na campanha presidencial — não se sabendo, à data, quem estava a recebê-lo.

A investigação à circulação de capital russo na corrida à Casa Branca ganharia forma em julho e novamente em outubro, quando a Comissão Nacional Democrata foi alvo de ciberataques por hackers russos com alegadas ligações ao Governo de Putin. Na altura, um mês antes da ida às urnas, a administração Obama acusou diretamente a Rússia de ingerência no processo eleitoral dos EUA.

Entretanto, e depois de o “New York Times” ter revelado esta semana que Donald Trump Jr. se encontrou com uma advogada ligada ao Kremlin para obter informações danosas sobre Clinton, o filho mais velho do Presidente decidiu publicar uma troca de correspondência cibernética com Rob Goldstone, um publicitário britânico ligado à indústria musical russa, que terá agido como intermediário para marcar o encontro entre Trump Jr. e Natalia Veselnitskaya, em junho do ano passado

Troca de emails

Nos emails, trocados duas semanas antes de Donald Trump ser confirmado como candidato do Partido Republicano às presidenciais, Goldstone diz que Veselnitskaya queria passar informações prejudiciais para a campanha democrata ao filho de Trump porque o Governo russo estava empenhado em “ajudar” o seu pai a vencer as eleições, ao que este respondeu “adoro isso”.

O encontrou deu-se a 9 de junho de 2016 na Torre Trump, em Nova Iorque, entre Trump Jr., a advogada russa, o então diretor da campanha de Trump, Paul Manafort, e o genro do agora Presidente, Jared Kushner, que também é seu conselheiro. Veselnitskaya é citada como “advogada do Governo russo”, algo que desmentiu quando o NYT lançou a primeira notícia sobre o encontro no sábado — isto apesar de representar o filho de um oligarca russo próximo de Putin bem como várias empresas estatais.

Trump Jr. continua a defender que não fez nada de errado, garantindo que a advogada não lhe forneceu quaisquer podres sobre Clinton e dizendo, num dos vários comunicados contraditórios que já divulgou, que o que Veselnitskaya queria era informá-lo de que havia responsáveis russos a ajudar a campanha democrata.

A Casa Branca continua também a defender que Trump Jr. não fez nada de errado e o Presidente já expressou o seu apoio ao filho, recorrendo ontem ao Twitter para repetir que está a ser vítima da “maior caça às bruxas da História” dos EUA.

A troca de correspondência vem dar força às suspeitas de conluio entre a equipa do Presidente e o Governo russo. Alguns analistas dizem que, no limite, o filho de Trump, o seu genro e o seu ex-diretor de campanha cometeram traição e que, se for comprovado que receberam informações danosas sobre Clinton, podem ser julgados por violarem as leis de financiamento de campanhas eleitorais.

Trump também continua a garantir que nunca soube deste encontro e que o filho agiu por conta própria. Facto é que a primeira vez que fez referência aos “33 mil emails desaparecidos” de Clinton, que seriam depois obtidos por hackers russos e publicados pela WikiLeaks, foi precisamente a 9 de junho de 2016, 40 minutos depois da hora marcada para o início da reunião entre o seu filho e a advogada russa.

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    Na sua audiência de confirmação no Senado, Christopher Wray reconheceu que encontro de Donald Trump Jr. com advogada russa é “o tipo de coisa que o FBI quereria saber” e assegurou que não subscreve as visões do Presidente sobre tortura nem sobre o Islão. “Se me derem a honra de liderar esta agência, nunca permitirei que o trabalho do FBI seja guiado por outra coisa que não os factos, a lei e a busca imparcial de justiça. Ponto final, parágrafo”

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    Em quatro artigos distintos, o “New York Times” revelou que o filho mais velho do Presidente aceitou encontrar-se com uma advogada do governo russo sabendo que este queria “ajudar” o seu pai a vencer as presidenciais. Trump Jr. quis adiantar-se ao jornal na divulgação dos emails que trocou com um intermediário para marcar esse encontro, mas acabou a incriminar-se