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Escolha de Trump para chefiar o FBI garante que inquérito à Rússia “não é caça às bruxas”

MANDEL NGAN

Na sua audiência de confirmação no Senado, Christopher Wray reconheceu que encontro de Donald Trump Jr. com advogada russa é “o tipo de coisa que o FBI quereria saber” e assegurou que não subscreve as visões do Presidente sobre tortura nem sobre o Islão. “Se me derem a honra de liderar esta agência, nunca permitirei que o trabalho do FBI seja guiado por outra coisa que não os factos, a lei e a busca imparcial de justiça. Ponto final, parágrafo”

O provável sucessor de James Comey à frente do FBI rejeitou ontem as acusações tecidas pelo Presidente sobre estar a ser vítima de uma "caça às bruxas" por causa das investigações à interferência da Rússia nas eleições americanas e ao alegado conluio entre pessoas próximas de Donald Trump e do governo russo para impedir a vitória de Hillary Clinton.

“Não considero que o diretor Mueller esteja a executar uma caça às bruxas”, garantiu Christopher Wray na sua audiência de confirmação no Senado, referindo-se ao conselheiro especial Robert Mueller, antigo diretor do FBI que foi nomeado pelo Departamento de Justiça para dirigir essas investigações após Trump ter afastado Comey do FBI.

Aos senadores, Wray garantiu que se demitirá do cargo se o Presidente lhe pedir que faça algo ilegal, como se suspeita que terá feito com Comey antes de o despedir a 9 de maio — ao pressionar o então diretor do FBI pelo menos três vezes para que suspendesse o inquérito a Michael Flynn, ex-conselheiro do governo que é suspeito de contactos ilegais com o embaixador russo em Washington.

“Se me derem a honra de liderar esta agência, nunca permitirei que o trabalho do FBI seja guiado por outra coisa que não os factos, a lei e a busca imparcial de justiça. Ponto final, parágrafo”, sublinhou Wray.

Antes da audiência, Trump repetiu no Twitter que está a ser alvo da “maior caça às bruxas na História” dos Estados Unidos — isto após ter sido revelado que, em junho do ano passado, o seu filho mais velho se encontrou com uma advogada que representa o governo russo para obter informações danosas sobre Clinton, segundo um intermediário porque “a Rússia e o seu governo” queriam “ajudar” Trump a ser eleito.

Wray, 50 anos, garantiu que não subscreve as visões do Presidente sobre as investigações em curso nem sobre outras coisas como o recurso à tortura e o Islão. “Qualquer pessoa que pense que eu estarei a manipular as coisas enquanto diretor do FBI claramente não me conhece bem”, disse o homem que Trump escolheu para substituir Comey, acrescentando que está “muito empenhado em apoiar” o trabalho de Mueller (este, por sua vez, já classificou Wray como um homem que “vai direto ao assunto”).

As declarações de Wray ontem à tarde conduziram a manchetes como “Nomeado de Trump para o FBI garante confirmação — ao discordar repetidamente do Presidente” (na "Mother Jones").

"O FBI quereria saber"

Sobre os emails que Trump Jr. trocou com Rob Goldstone para marcar um encontro com uma advogada russa, após lhe terem sido prometidas informações prejudiciais para a campanha democrata, Wray começou por dizer que não leu os emails e que não tem conhecimento dessa troca de mensagens, a primeira prova concreta de ligações entre o círculo próximo de Trump e o governo de Vladimir Putin.

O senador republicano Lindsey Graham leu-lhe os emails e perguntou-lhe se o filho mais velho do Presidente "deveria ter marcado este encontro". Wray respondeu: "Penso que deveria consultar bons conselheiros legais antes de o fazer. Qualquer ameaça ou esforço para interferir nas nossas eleições por parte de qualquer nação-Estado ou de qualquer ator não-estatal é o tipo de coisa que o FBI quereria saber." Também reconheceu que "não há razões para duvidar" das agências secretas norte-americanas, que continuam a garantir que a Rússia interferiu no proceso eleitoral para influenciar os resultados a favor do atual Presidente.

Em junho, Comey foi chamado a testemunhar no Senado um mês depois de ter sido despedido por Trump, tendo confirmado que o Presidente lhe exigiu lealdade e que suspendesse o inquérito a Flynn. Tal como o seu antecessor, também Wray declarou ontem que é leal "à Constituição, ao Estado de Direito e à missão do FBI". "Ninguém me exigiu qualquer tipo de juramento de lealdade em qualquer momento durante este processo [de nomeação] e eu certamente não a ofereci", garantiu.

Sobre a possibilidade de vir a ser convidado para encontros a sós com o Presidente como Trump fez com Comey — algo revelado pelo ex-diretor do FBI, que ao Senado explicou que ficou "preocupado" com essas reuniões por eliminarem as barreiras que garantem a independência da agência federal — Wray disse que é "altamente improvável" que aceite um convite de Trump para se reunir a sós com ele. Contudo, ressalvou que isso irá depender das circunstâncias e de potenciais ameaças à segurança nacional dos EUA.

"Penso que a relação de qualquer diretor do FBI com qualquer Presidente tem de ser profissional, não social. E não deve certamente haver qualquer discussão um-a-um entre o diretor do FBI e qualquer Presidente sobre como determinados casos ou investigações devem ser conduzidos."

Se Trump lhe pedir para cometer algum tipo de ilegalidade, acrescentou o funcionário do Departamento de Justiça que deverá ser nomeado para um mandato de 10 anos à frente do FBI, "primeiro tentarei demovê-lo e, se isso falhar, apresentarei a minha demissão".