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União Europeia está a “fazer-nos perder tempo”

ADEM ALTAN/GETTY IMAGES

Será “reconfortante” se Bruxelas suspender o processo de adesão da Turquia ao bloco, acrescenta Erdogan numa entrevista à BBC

A Turquia ficará "reconfortada" se a União Europeia disser que não aceita o país como membro, defende Recep Tayyip Erdogan numa entrevista exclusiva à BBC a ser transmitida na próxima sexta-feira.

Em conversa com Zeinab Badawi no programa HARDtalk, o Presidente turco acusa a UE de estar a fazer a Turquia "perder o seu tempo" e garante que o país "é capaz de se aguentar nos seus dois pés". Também desmente que tenha ordenado a prisão de 150 repórteres, dizendo que apenas duas pessoas com carteira profissional de jornalista estão atualmente detidas.

As declarações surgem no rescaldo da detenção da diretora da Amnistia Internacional na Turquia e de nove outras pessoas ligadas à organização não-governamental. Idil Eser foi levada para a prisão a 5 de julho durante um workshop de gestão de informação e de segurança digital, juntamente com outros sete ativistas de Direitos Humanos e dois instrutores estrangeiros.

As dez pessoas são acusadas de integrarem uma "organização terrorista armada", com a Amnistia sem saber de que organização se trata. As detenções fizeram soar mais alarmes a nível internacional, numa altura em que o autocrata continua a ser acusado de violar a liberdade de expressão e a liberdade de imprensa no país que lidera.

'A UE está a fazer-nos perder tempo'

Esta é, a par da purga de críticos e de opositores em curso desde o golpe falhado de há um ano, a preocupação que está a pôr em risco o longo processo de adesão da Turquia à UE. Mas agora, garante Erdogan, esse já não é o objetivo do país.

"Somos fiéis à nossa palavra", diz na entrevista à BBC. "Se a UE declarar sem rodeios 'Não vamos aceitar a Turquia na UE', isto será reconfortante para nós e aí daremos início aos nossos planos B e C", acrescenta, sem referir que planos são esses.

"A UE não é indispensável para nós. Estamos relaxados. Em tempos, durante o meu primeiro mandato enquanto primeiro-ministro, a Turquia era descrita como um país que tinha encetado uma revolução silenciosa nas cimeiras de líderes da UE. Mas agora essa mesma UE não só já não nos convida para as cimeiras de líderes como está a fazer-nos perder o nosso tempo. É esta a situação neste momento."

Na mesma entrevista, o Presidente garante que a maioria dos turcos "já não quer a UE" porque o bloco regional tem sido "desonesto" com eles. "Apesar de tudo isto", acrescenta Erdogan, "vamos continuar a ser sinceros com a UE por um bocadinho mais de tempo. Veremos o que isso nos trará".

'Não há jornalistas presos'

A entrevista exclusiva com a BBC será transmitida esta sexta-feira, na véspera de se marcar o primeiro ano do golpe de Estado falhado de 15 de julho de 2016, no qual pelo menos 260 pessoas morreram quando soldados de uma fação que se opõe ao atual governo islamita atacaram edifícios e infraestruturas estatais em Ancara e Istambul.

Nos 12 meses que passaram desde então, a Turquia tem estado a viver num estado de emergência declarado pelo Presidente Erdogan, sob o qual as autoridades já prenderam mais de 50 mil pessoas, a par de 140 mil funcionários públicos despedidos ou suspensos dos seus cargos.

Durante o mesmo período, cerca de 160 meios de comunicação social foram encerrados à força e 2500 jornalistas ou profissionais de media foram afastados dos seus empregos — levando a Turquia a tornar-se novamente na maior prisão de jornalistas do mundo, de acordo com a Comissão de Proteção de Jornalistas.

Erdogan rejeita os balanços na entrevista a Badawi, acusando o jornalista da BBC de o impedir de falar. "Vê, agora você está a falar mais do que eu, tem mais liberdade do que eu. Não me está a deixar exercer o meu direito à liberdade. Está a fazer-me esta entrevista, mas não me dá a oportunidade de falar... Ninguém está preso por causa do jornalismo aqui, temos de reconhecer isso. Os jornalistas da oposição escrevem muitos artigos insultuosos sobre mim."

"Recentemente até o fizeram durante a marcha [contra o governo, que terminou no passado domingo]. Esses artigos insultuosos continuam à solta. Estas pessoas que estão dentro da prisão não têm título de jornalistas. Algumas colaboraram com organizações terroristas; algumas foram presas por estarem na posse de armas de fogo. Algumas foram presas por vandalizarem e roubarem máquinas de multibanco."

Logo a seguir, Erdogan reconhece que essas pessoas "têm carteira de jornalistas" mas "não é oficial, é uma carteira que eles dizem ser de jornalista". "O número não é 170 como você disse, isso é mentira. Já o dissemos repetidamente. Na verdade só há dois verdadeiros jornalistas na prisão neste momento. Tudo o resto que se diz são mentiras. Por favor vamos não enganar o mundo com estas mentiras."

O líder de 63 anos continua a garantir que os seus opositores "infiltraram-se no ramo judicial, no Exército, na polícia e nos media" e que "foi assim que se organizaram e que tentaram executar o golpe, como a máfia". "Eles trabalharam em conjunto para derrubar um Estado e depois procuraram refúgio dizendo-se jornalistas para se salvarem. Isto não é aceitável. Não temos medo de quaisquer comunicados ou declarações sobre este assunto", acrescenta em referência ao amontoar de condenações da UE, de dirigentes políticos europeus e das ONG.

Sobre a crise do Qatar

Relativamente ao papel da Turquia no palco internacional, o jornalista da BBC questiona Erdogan sobre o seu forte e contínuo apoio ao Qatar, que continua sob bloqueio de quatro dos seus mais poderosos vizinhos árabes — pelo que a Arábia Saudita, o Bahrain, os Emirados Árabes Unidos e o Egito dizem ser o seu apoio a grupos terroristas.

Uma das condições apresentadas pelas quatro nações árabes para suspender as sanções ao Qatar é o encerramento de uma base militar que a Turquia controla no território qatari. As autoridades qataris continuam a rejeitar a lista de 13 exigências e, em resposta àquela condição em particular, Erdogan reforçou o número de pessoal militar nessa base.

Questionado sobre se teme que as tensões no Golfo escalem para um conflito regional, o líder turco insiste que não quer fazer parte de qualquer braço-de-ferro. "Ouça, agora está a fazer-me essa pergunta — mas porque é que não pergunta isso aos Estados Unidos? Porque é que não coloca essa questão a França ou a Inglaterra? Nós não fazemos parte destas crises. Pelo contrário, na região do Golfo o que queremos é promover o diálogo e a paz. Temos pressa para encontrar uma solução. A Turquia nunca será a favor de muçulmanos lutarem contra muçulmanos. Estamos fartos disto."

E continua: "Não queremos o que está a acontecer no Iémen... Não queremos desenvolvimentos como os que estão a ter lugar na Palestina e na Líbia. O que está a passar-se na Síria é claro, o que está a passar-se no Iraque é claro. A Turquia está a pagar o preço destas questões. E não queremos isso. E portanto também não aceitamos isto para o Qatar."