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Foi um acesso de raiva do genro de Trump que provocou a crise no Qatar?

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“The Intercept” revela que Jared Kushner tentou — e não conseguiu — obter um empréstimo de 500 milhões de dólares do Qatar antes de o seu sogro, o Presidente dos EUA, ter assumido uma postura mais dura contra a nação do Golfo isolada pelos seus vizinhos há um mês

Jared Kushner, o marido de Ivanka Trump que é um dos conselheiros da atual administração norte-americana, tentou obter um empréstimo de 500 milhões de dólares (cerca de 435,5 milhões de euros) de um empresário do Qatar, antes de o seu sogro, o Presidente dos EUA, ter assumido uma postura mais dura contra o país, alinhando-se com as nações árabes que continuam a manter o pequeno emirado isolado e sob sanções económicas e diplomáticas.

De acordo com uma investigação do "The Intercept", o site fundado pelo jornalista Glenn Greenwald e pela realizadora de documentários Laura Poitras, o empréstimo que Kushner não conseguiu obter envolve um negócio na 5.ª Avenida em Nova Iorque, onde o genro de Donald Trump comprou o edifício 666 por 1,8 mil milhões de dólares no início da sua carreira no ramo imobiliário.

A compra do prédio deu-se em 2007, tinha Kushner 26 anos, com recurso a 500 milhões de dólares da sua família e a empréstimos que totalizaram 1,3 mil milhões de dólares — o dobro do valor pelo qual o edifício tinha sido vendido ao seu proprietário anterior.

Antes da crise financeira estalar em 2008, quando o prédio estava quase totalmente ocupado, só gerava cerca de dois terços da receita de que Kushner precisava para saldar as dívidas contraídas para o comprar. Depois da crise, as coisas só pioraram e o agora conselheiro do governo americano viu-se obrigado a alugar escritórios para continuar a pagar os empréstimos em prestações, antes de ser forçado a alocar metade do espaço à empresa americana Vornado como parte de um acordo de refinanciamento.

O "New York Times" diz que o edifício continuou, mesmo assim, a não gerar dinheiro suficiente para saldar as dívidas, forçando a Kushner Companies a cobrir a diferença multimilionária. Em 2015, quando Donald Trump deu início à sua campanha para as presidenciais do ano passado, Kushner estava a trabalhar com o seu pai biológico para tentar manter a propriedade e aí contactou um xeque qatari, Hamad bin Jassim al-Thani, bilionário que foi primeiro-ministro do Qatar, conhecido como "HBJ", para ser seu potencial investidor. HBJ aceitou investir 500 milhões de dólares no edifício, dizem fontes ao "The Intercept", na condição de a Kushner Companies encontrar o resto do dinheiro para manter o negócio à tona.

O bilionário Hamad bin Jassim al-Thani (HBJ) foi primeiro-ministro do Qatar entre 2007 e 2013

O bilionário Hamad bin Jassim al-Thani (HBJ) foi primeiro-ministro do Qatar entre 2007 e 2013

YOAN VALAT

O marido de Ivanka Trump, a filha mais velha do Presidente americano, procurou financiamento junto de uma seguradora chinesa, a Anbang, que em março deste ano aceitou emprestar-lhe 4 mil milhões de dólares para investir no projeto (o negócio foi noticiado pela primeira vez pelo "New York Times" em janeiro, antes de Trump tomar posse). Semanas depois, com o amontoar de conflitos de interesse que continuam a pairar sobre a atual administração dos EUA, a Anbang reverteu essa decisão e fechou a torneira.

Sem a ajuda da Anbang, a empresa de Kushner não tinha como cumprir o acordado com HBJ — uma fonte qatari diz que o bilionário decidiu acabar com o negócio, outra que apenas o suspendeu até novos desenvolvimentos.

O que se sabe é que passaram poucas semanas entre essa decisão do empresário qatari, qualquer que ela tenha sido, e o estalar da crise diplomática em torno do Qatar — quando, no início de junho, pelo menos seis países árabes impuseram sanções ao Qatar acusando-o de financiar grupos terroristas.

Desde então, esses países, ao leme da Arábia Saudita, impuseram 13 condições ao Qatar para acabar com o seu isolamento, entre elas o encerramento da estação televisiva Al-Jazeera, o corte de relações diplomáticas com o Irão xiita e a expulsão de tropas da Turquia instaladas numa base militar do emirado.

No rescaldo do corte de relações dos aliados árabes com o Qatar, o secretário de Estado dos EUA, Rex Tillerson, pediu aos países que dessem início a um "diálogo calmo e profundo" para evitar "uma escalada de tensões na região". Trump, pelo contrário, lançou uma série de ataques contra o Qatar, acusando-o de ser um "financiador de alto nível do terrorismo" — numa altura em que vários analistas notaram que o isolamento do país surgiu depois da controversa visita do Presidente dos EUA a Riade, vista como "carta branca" da administração norte-americana aos sauditas.

A reação de Trump surpreendeu Tillerson e fontes dizem que foi Kushner quem alimentou essa retórica do Presidente, seu sogro. Veja-se um artigo publicado pelo "The American Conservative" logo a seguir à imposição de sanções ao Qatar, a 27 de junho; ao site, uma fonte próxima de Tillerson disse estar convencida de que a reação oficial de Trump foi preparada pelo embaixador dos Emirados Árabes Unidos, Yousef Al Otaiba, que é amigo próximo de Kushner. "Otaiba falou com Jared e Jared falou com Trump. Uma confusão."

Mesmo que esta versão dos acontecimentos corresponda à verdade, notava ontem o "The Independent", continua a não se perceber porque é que Kushner quereria convencer o Presidente a atacar o Qatar. Uma possibilidade é o tal corte de financimento de HBJ revelado pelo "The Intercept".

As razões de Tillerson para apoiar o Qatar e pedir que se evite uma escalada do conflito no Golfo são mais transpartentes: não só os EUA gerem uma importante base aérea no território qatari como o país integra a coligação internacional que os norte-americanos lideram e que tem estado a levar a cabo uma intensa campanha de bombardeamentos na Síria e no Iraque contra o autoproclamado Estado Islâmico (Daesh).

O secretário de Estado norte-americano deu início a um périplo regional na segunda-feira que o vai levar à Turquia, ao Kuwait, aos Emirados Árabes Unidos, ao Qatar e à Arábia Saudita, para tentar mediar uma solução para a crise no Golfo. As revelações sobre os interesses e negócios de Kushner que aparentam estar relacionados com essa crise política e diplomática reforçam as suspeitas de conflitos de interesse que continuam a ensombrar a administração Trump.