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Amnistia Internacional. Todos os lados violaram os direitos humanos em Mossul

AHMAD AL-RUBAYE

“Mesmo nos ataques que parecem ter atingido o alvo militar pretendido, o uso de armas inadequadas ou a falta de outras precauções necessárias resultaram na perda desnecessária de vidas civis e, em alguns casos, parecem ter constituído ataques desproporcionais”, avança o relatório

A Amnistia Internacional afirma que identificou um padrão nos ataques das forças iraquianas e da coligação militar liderada pelos Estados Unidos que violam o direito internacional humanitário e que podem constituir crimes de guerra. Diz ainda que os combatentes do autoproclamado Estado Islâmico (Daesh) violaram essa mesma lei ao colocarem os civis em perigo de forma deliberada, por forma a protegerem os seus combatentes e impedirem o avanço das forças iraquianas e da coligação.

O primeiro-ministro iraquiano, Haider al-Abadi, declarou formalmente a vitória em Mossul na segunda-feira, três anos depois de o Daesh ter tomado a cidade. Num relatório publicado um dia depois de as forças iraquianas declararem a vitória em Mossul, o órgão de vigilância dos direitos humanos pediu uma investigação minuciosa para verificar se foram cometidos crimes de guerra na batalha pela cidade.

A Amnistia disse que as forças iraquianas e a coligação realizaram uma série de ataques ilegais no oeste de Mossul que causaram estragos em áreas densamente povoadas. “Mesmo nos ataques que parecem ter atingido o alvo militar pretendido, o uso de armas inadequadas ou a falta de outras precauções necessárias resultaram na perda desnecessária de vidas civis e, em alguns casos, parecem ter constituído ataques desproporcionais”, indica o relatório.

De acordo com o documento, os combatentes do Daesh reuniram residentes em aldeias e bairros locais e forçaram-nos a entrar em zonas de conflito no oeste de Mossul para serem usados como escudos humanos. Quando os confrontos estavam iminentes, eles prendiam os civis dentro das casas, sem acesso a alimentos ou cuidados médicos.

Segundo a “Al Jazeera”, nem o Ministério da Defesa iraquiano nem os funcionários da coligação se disponibilizaram para comentar o relatório da Amnistia.

Na terça-feira, Zeid Ra’ad Al Hussein, chefe das Nações Unidas para os Direitos Humanos, afirmou que “as mulheres, crianças e homens de Mossul viveram o inferno na terra, suportando um nível de depravação e crueldade que dificilmente se exprime por palavras”. Al Hussein exigiu que os infratores sejam levados à justiça e todas as violações examinadas por completo.

“As causas profundas da violência e dos conflitos no Iraque devem ser abordadas como violações dos direitos humanos, sofridas por todas as comunidades do país ao longo de várias décadas. Só então podem ser estabelecidas bases para a paz duradoura que o povo iraquiano merece”, continuou. Acrescentou também que “o Daesh forçou dezenas de milhares de pessoas a deixarem as suas casas em torno da cidade e usou-as como escudos humanos, um crime de guerra ao abrigo do direito internacional humanitário e uma violação dos padrões mais básicos de dignidade e moralidade humanas”.

A ONU disse na segunda-feira que a crise humanitária no Iraque estava longe de acabar. Entre as mais de 897 mil pessoas deslocadas de Mossul, milhares não poderão provavelmente retornar à cidade devido aos “danos extensos causados durante o conflito”.