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Trump Jr. foi informado sobre esforços da Rússia para ajudar o seu pai a ser eleito

Donald Trump Jr., o filho mais velho do Presidente, fotografado no elevador da Torre Trump em Manhattan

John Moore

Filho mais velho do Presidente aceitou encontrar-se com uma advogada com ligações ao Kremlin que lhe prometeu informações "danosas" sobre Hillary Clinton "úteis" para a campanha do seu pai

Quando Donald Trump Jr. aceitou encontrar-se com uma advogada russa que lhe prometeu informações prejudiciais para a campanha de Hillary Clinton, o filho mais velho do agora Presidente dos EUA recebeu um email em que lhe era explicado que essas informações integravam um esforço do governo russo para ajudar a campanha do pai.

Assim avançou na segunda-feira à noite o "New York Times" com base em três fontes que leram o email em questão, um que terá sido enviado a Trump Jr. pelo relações públicas Rob Goldstone, que organizou o encontro de junho de 2016, duas semanas antes de Donald Trump conseguir a nomeação republicana para disputar a presidência com Clinton.

Depois de o NYT ter revelado no sábado que esse encontro teve lugar na Torre Trump a 9 de junho do ano passado entre o mais velho dos filhos de Trump, Natalia Veselnitskaya, o genro do Presidente, Jared Kushner, e o então diretor da campanha republicana, Paul Manafort, Trump Jr. confirmou que se encontrou com a advogada sem avançar porquê nem que tópicos foram discutidos.

Manafort, que dirigiu a campanha de Trump até agosto, é alvo de uma série de investigações nos EUA

Manafort, que dirigiu a campanha de Trump até agosto, é alvo de uma série de investigações nos EUA

Chip Somodevilla

No dia seguinte, domingo, o mesmo jornal noticiaria com base num punhado de fontes com conhecimento do encontro que Trump Jr. aceitou reunir-se com Veselnitskaya porque esta lhe prometeu informações "danosas" sobre a candidata democrata. Aí, o filho do atual líder norte-americano virou o jogo contra a oposição, dizendo que o que a advogada russa queria era informá-lo de que havia operativos russos a ajudar a campanha de Clinton — e acrescentando que ela acabou por não lhe passar "quaisquer informações de valor".

Na segunda-feira, três fontes avançaram ao NYT que existe um email a comprovar que Trump Jr. sabia que a advogada próxima do Kremlin, que é casada com um funcionário do governo federal russo, queria passar-lhe informações danosas sobre a rival do pai como parte de um esforço do governo de Vladimir Putin para ajudar Donald Trump a vencer as eleições de novembro.

No rescaldo da primeira das três notícias, Veselnitskaya desmentiu as alegações de que trabalha para o Kremlin, já depois de Goldstone ter previamente rejeitado que sabia do envolvimento do governo russo na campanha eleitoral norte-americana — uma forte suspeita denunciada pela primeira vez ainda antes da ida às urnas, que entretanto está a ser investigada pelo FBI e pelas duas câmaras do Congresso norte-americano.

Crê-se que esta é a primeira prova substancial de conluio entre o círculo próximo do atual Presidente dos EUA e operativos russos ligados ao governo de Putin para impedir a vitória de Hillary Clinton em novembro.

Reagindo à mais recente revelação bombástica, o principal democrata da comissão de serviços de informação da Câmara dos Representantes — uma das comissões do Congresso responsáveis por investigar as suspeitas — referiu que a notícia do NYT é "um sério desenvolvimento".

"Tudo isto exige uma investigação aprofundada", referiu ontem Adam Schiff em entrevista à MSNBC. "Toda a gente que participou naquele encontro tem de ser presente à nossa comissão."

Trump Jr. já contratou um advogado de defesa de Nova Iorque para o representar no âmbito destas investigações. Esse conselheiro legal, Alan Futerfas, já argumentou publicamente que as notícias sobre o encontro de há um ano são "muito barulho sobre nada", garantindo que o seu cliente não fez nada de errado.

O filho do Presidente declarou ontem que terá "todo o prazer em trabalhar com a comissão" para transmitir o que sabe aos congressistas, depois de ter garantias prévias de que não discutiu nada de subtancial sobre a campanha presidencial com Veselnitskaya.

O chefe da equipa legal do Presidente Trump garantiu no domingo à Associated Press que Donald Trump não participou nem teve conhecimento do encontro que teve lugar na sua Torre de Manhattan — sendo depois revelado que a primeira vez que tweetou sobre os "33 mil emails desaparecidos" de Clinton, os mesmos que seriam depois obtidos por hackers russos e divulgados pela WikiLeaks, foi a 9 de junho de 2016, precisamente o dia em que o filho, o genro e o seu diretor de campanha se encontraram com a advogada russa.

O que está em causa?

O encontro aconteceu a 9 de junho do ano passado na Torre Trump, em Manhattan, duas semanas antes de Donald Trump conseguir a nomeação republicana para disputar a Casa Branca com Clinton. Esta é a primeira vez que se confirma que teve lugar durante a campanha um encontro privado entre um cidadão russo e pessoas do círculo próximo do agora Presidente.

A primeira notícia do NYT, avançada no sábado ainda antes do final da cimeira do G20 em Hamburgo, teve como base "descrições de registos confidenciais do governo" feitas por fontes próximas da administração Trump. A segunda, dando conta de que Veselnitskaya prometeu fornecer a Trump Jr. informações danosas sobre Clinton, foi sustentada em cinco fontes — três conselheiros da Casa Branca com conhecimento do encontro privado e outras duas pessoas informadas sobre a mesma reunião.

Depois de o filho do Presidente ter dito em comunicado que o encontro foi organizado por um seu "conhecido" com que se cruzou pela primeira vez durante o concurso Miss Universo em 2013, o "Washington Post" confirmaria que esse elo é Goldstone, um relações públicas ligado à indústria musical na Rússia. Trump Jr. diz nesse comunicado que foi convidado a encontrar-se com "uma pessoa que poderia ter informações úteis para a campanha" do pai. "Não me disseram o nome dela antes da reunião. Pedi ao Jared [Kushner] e ao Paul [Manafort] para irem comigo, mas não lhes disse nada de substancial."

Kushner, casado com a filha de Trump e atualmente conselheiro do Presidente, também participou no encontro de 9 de junho de 2016

Kushner, casado com a filha de Trump e atualmente conselheiro do Presidente, também participou no encontro de 9 de junho de 2016

Win McNamee

O que foi discutido?

Segundo Trump Jr. nesse mesmo comunicado, "depois de uma troca de cumprimentos, a mulher declarou que tinha informações sobre indivíduos ligados à Rússia que estavam a financiar a Comissão Nacional Democrata [o órgão central do partido] e a apoiar Clinton. As declarações dela foram vagas, ambíguas e não fizeram sentido. Não nos foram fornecidos nem sequer oferecidos quaisquer detalhes ou outros dados. Tornou-se rapidamente claro que ela não detinha quaisquer informações úteis de valor. Aí ela mudou de assunto e começou a discutir a adoção de crianças russas e mencionou a Lei Magnitsky. Tornou-se claro para mim qual era a verdadeira agenda dela e que as alegações de informações potencialmente úteis foram um pretexto para que o encontro tivesse lugar."

Veselnitskaya disse por sua vez no sábado que "nada foi discutido sobre a campanha presidencial" e insistiu que "nunca" agiu "em nome do governo russo" nem discutiu "quaisquer destes assuntos com qualquer representante do governo russo".

Na segunda-feira, Trump Jr. tweetou de forma sarcástica: "Obviamente que eu sou a primeira pessoa de uma campanha eleitoral a algum dia participar num encontro para saber informações sobre um opositor..." Na mesma rede social, também rejeitou as acusações de ter emitido comunicados contraditórios no rescaldo de cada uma das notícias do NYT, fazendo referência a um artigo em que o tablóide "New York Post" refere que "as 'revelações' do Times sobre Donald Trump Jr. são uma grande seca".

O que é a Lei Magnitsky? E quem é Veselnitskaya?

Adotado em 2012 pelo Congresso norte-americano, o projeto-lei permite aos EUA rejeitar a atribuição de vistos e congelar bens financeiros de indivíduos russos ligados ao governo que sejam suspeitos de envolvimento em violações de direitos humanos. A lei foi batizada em honra do advogado russo, Sergei Magnitsky, que foi detido na Rússia após ter acusado as autoridades de fraude fiscal e que acabaria por morrer na prisão.

O corpo de Magnitsky está enterrado no cemitério Preobrazhenskoye, em Moscovo

O corpo de Magnitsky está enterrado no cemitério Preobrazhenskoye, em Moscovo

ANDREY SMIRNOV

À data, Putin acusou os EUA de encenarem um "teatro do absurdo" e ficou tão irritado com a aprovação da lei que decidiu retaliar com a suspensão de um programa federal que permite a adoção de crianças russas por cidadãos norte-americanos.

Natalia Veselnitskaya é uma advogada russa com uma carteira de clientes que inclui várias empresas e pessoas próximas do Kremlin, tendo sempre dado a cara pelo Estado russo nas tentativas de reverter a Lei Magnitsky.

Ontem, o porta-voz de Putin, Dmitry Peskov, insistiu que não faz ideia de quem ela seja, sublinhando: "Não podemos estar a par de todos os encontros que todos os advogados russos mantêm dentro e fora do país."

Como está a reagir a administração Trump?

Para já, Kushner e Manafort continuam sem comentar publicamente as denúncias, embora o advogado do genro do Presidente Trump tenha garantido que Kushner referiu que o encontro com Veselnitskaya teve lugar quando preencheu os formulários de segurança para ter acesso à Casa Branca. Previamente, Manafort tinha referido a mesma reunião aos investigadores do Congresso que estão a investigar a ingerência russa nas eleições e o alegado conluio entre Moscovo e a equipa de Trump.

No domingo, um porta-voz da equipa legal do Presidente americano garantiu que Trump "não soube do encontro nem participou nele". O chefe de gabinete da Casa Branca, Reince Priebus, disse por sua vez que as notícias do NYT são muito alarido sobre nada ('a big nothing burger'). O jornal lembra que, em março, Trump Jr. disse a um seu jornalista que nunca se encontrou com qualquer cidadão russo para discutir assuntos relacionados com a campanha eleitoral.