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Internacional

Alemanha condena China por filmar Liu Xiaobo contra a sua “expressa vontade”

Liu foi transferido da prisão para um hospital chinês no final de junho

PATRICK LIN

Embaixada alemã em Pequim diz que são os serviços secretos chineses e não os médicos do hospital onde o ativista está internado que estão a gerir os tratamentos. Nobel da Paz condenado a 11 anos de prisão sofre de um cancro terminal no fígado

A Alemanha emitiu um comunicado duro contra a China após terem sido publicados na internet vídeos da recente visita de médicos ocidentais ao ativista Liu Xiaobo, que no final de junho foi transferido da prisão para um hospital das proximidades, na cidade de Shenyang, após ter sido confirmado que padece de um cancro terminal no fígado.

A embaixada alemã em Pequim acusa a China de filmar a visita dos dois médicos, um deles um oncologista alemão, contra a sua "expressa vontade". No comunicado, a diplomacia alemã também acusa os serviços de segurança chineses de estarem a gerir os tratamentos de Liu em vez dos médicos. Para já, as autoridades chinesas ainda não responderam a Berlim.

O caso

Liu Xiaobo foi condenado a 11 anos de prisão em 2009 por subversão estatal, após assinar um manifesto em que exigia mais garantias democráticas no seu país-natal. No ano seguinte foi laureado com o Nobel da Paz, o que levou as autoridades chinesas a colocarem a sua mulher em prisão domiciliária sem qualquer acusação ou condenação formal.

Sob pressão internacional desde que Liu foi transferido da prisão para o hospital de Shenyang, cidade no noroeste do país, Pequim autorizou na semana passada que dois médicos ocidentais — o alemão Markus Bücher e o norte-americano Joseph M. Herman — examinassem o dissidente no hospital.

A visita dos médicos estrangeiros aconteceu este fim-de-semana, com a parelha a informar depois os media que Liu ia ser autorizado a viajar para o estrangeiro a fim de receber os melhores cuidados paliativos para a doença sem cura. Especialistas chineses tinham dito previamente que o estado de saúde do ativista é frágil ao ponto de o impossibilitar de viajar.

O que implicam os vídeos?

Pelo menos duas gravações foram publicadas na internet desde domingo por grupos e sites ligados ao regime chinês. Num deles vê-se os dois médicos ocidentais ao lado da cama de hospital de Liu, ladeados pela mulher do dissidente, Liu Xia, e por vários médicos e enfermeiros chineses. Aquele que será o dr. Bücher é ouvido a dizer aos médicos chineses que está "muito empenhado" em tratar Liu.

No segundo, partilhado pelo jornal "Global Times" no seu site oficial, vê-se os médicos chineses e ocidentais numa sala de reuniões, ouvindo-se o especialista alemão dizer: "Não penso que possamos garantir-lhe melhor tratamento médico que vocês."

Os vídeos foram recebidos com algum cepticismo por jornais e blogues sediados fora da China. Alguns críticos garantem que as imagens foram editadas para passar a ideia de que os médicos chineses são vistos com bons olhos pelos ocidentais e para dar credibilidade ao argumento de Pequim de que Liu está demasiado doente para ser transferido para outro hospital.

O facto de os vídeos terem sido primeiramente publicados no YouTube, um site com acesso bloqueado na China, também está a alimentar a especulação de que a intenção era que fossem vistos por audiências estrangeiras.

O que diz a Alemanha?

Reagindo à divulgação das gravações, a embaixada alemã em Pequim emitiu um comunicado na segunda-feira à noite acusando "certas autoridades" de criarem os registos áudio e vídeo e de os divulgarem "de forma seletiva a meios de comunicação estatais chineses" — uma clara quebra do sigilo e confidencialidade entre médico e doente.

Os vídeos, acrescenta a embaixada, "foram captados contra a vontade expressa do lado alemão, que foi comunicada por escrito" às autoridades chinesas antes da visita dos dois médicos ocidentais. "Parece que houve órgãos de segurança ao leme do processo, não especialistas médicos. Este comportamento mina a confiança nas autoridades que estão a lidar com o caso de Liu, confiança essa que é vital para garantir o máximo sucesso do seu tratamento médico."

À BBC, o advogado do dissidente, Jared Genser, disse que é "triste" mas "pouco surpreendente" que "o governo chinês leve a cabo este tipo de vigilância sobre qualquer pessoa que esteja em contacto com Liu Xiaobo e com Liu Xia".

Ao canal britânico, Genser voltou a repetir os pedidos de evacuação médica, depois de na semana passada a equipa do hospital de Shenyang ter dito que o estado de saúde do ativista está a deteriorar-se rapidamente.

"A meu ver, a China pode demonstrar que é uma potência forte e segura, autorizando-o a viajar para o estrangeiro a fim de receber tratamentos médicos", refere o advogado. Mas "em vez disso, eles parecem ter medo deste homem e das suas visões sobre como a China pode evoluir de um sistema de partido único para uma democracia multipartidária."

A China já reagiu?

Para já ainda não. No seu último comentário oficial sobre o assunto, após ter sido questionado sobre se Liu foi de facto autorizado a viajar para o estrangeiro, o Ministério dos Negócios Estrangeiros disse ontem à tarde que espera que "os países relevantes respeitem a soberania da China e não usem casos individuais para interferir nos assuntos internos da China".

Também ontem, o editorial do "Global Times", um jornal de língua inglesa ligado ao Partido Comunista, sublinhou que as autoridades chinesas "estão a fazer o seu melhor para tratar Liu e para cumprir as suas obrigações humanitárias", com o jornal a acusar "forças estrangeiras" de "ainda estarem a espremer Liu para obterem ganhos políticos, desrespeitando o seu estado de saúde crítico".