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A conclusão do G20: Trump sozinho no mundo

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Uma fotografia captada durante a cimeira do G20 está a ser classificada como a “metáfora perfeita” para o lugar dos EUA no mundo com Donald Trump no leme — isolado. Resumimos o encontro em quatro pontos, o último deles sobre a primeira prova concreta do alegado conluio entre a equipa de Trump e operativos russos para influenciar as eleições — denunciada já depois de Trump ter aceitado as garantias de Putin sobre não-ingerência. Ou será que não aceitou?

Depois do descalabro na cimeira do G7 em maio, que culminou com Angela Merkel a declarar que a Europa já não pode contar com o seu aliado tradicional (leia-se os EUA) e com Donald Trump a abandonar o Acordo do Clima de Paris, o mundo esteve de olhos postos em Hamburgo este fim de semana. Foi ali que os líderes do G20 estiveram reunidos entre sexta-feira e sábado. Foi ali também que Donald Trump se encontrou pela primeira vez cara-a-cara com Vladimir Putin — o homem com quem é suspeito de ter colaborado para impedir a vitória de Hillary Clinton nas presidenciais.

Com mais de 100 mil pessoas em protesto contra o facto de 20 líderes estarem à porta fechada a decidir os destinos do planeta, e perante vários encontros bilaterais à margem da cimeira cujos conteúdos não foram totalmente divulgados, foram as lentes dos fotógrafos que alimentaram o imaginário dos curiosos. E não faltaram imagens para todos os gostos.

A começar pela foto oficial do encontro, em que Trump foi literalmente chutado para canto: surge na ponta esquerda, num claro contraste com o que aconteceu em maio, quando empurrou o primeiro-ministro do Montenegro à cotovelada para aparecer em primeiro plano numa foto oficial da NATO.

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A juntar a essa foto, outras três imagens poderosas. Em duas é Merkel a protagonista — numa aparece com a cara enterrada nas mãos enquanto ouve Trump falar sobre qualquer coisa; na outra, um vídeo, surge a revirar os olhos enquanto Vladimir Putin discorre sobre outra coisa qualquer. A terceira, contudo, foi a que mais vezes foi partilhada nas redes sociais, com muitos a notarem que retrata perfeitamente o lugar dos EUA no mundo ao leme da atual administração: nela, vários delegados conversam animadamente em grupos de dois ou de três, enquanto Trump está sentado sozinho a uma mesa, de olhar vago estampado na cara.

A foto foi alardeada como a “metáfora perfeita” para a atual posição da América no mundo, com um jornalista australiano a fazer depois um resumo da cimeira que rapidamente se tornou viral. “Trump foi uma figura desajeitada, sozinha e pouco à vontade neste encontro e houve uma forte sensação de que alguns líderes fizeram o seu melhor para trabalharem à volta dele”, sentenciou Chris Uhlmann, do canal ABC. “Aprendemos que Donald Trump acelerou o declínio dos EUA como líder global. Conseguiu isolar a sua nação, confundir e alienar os seus aliados e diminuir a América.”

Eis o nosso resumo da cimeira em quatro pontos:

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G20 vs. G19: livre comércio sim, Acordo de Paris não

Contra a vontade dos EUA, os líderes das restantes 19 potências mundiais “reafirmaram” o seu compromisso “irreversível” no combate às alterações climáticas com base no Acordo do Clima de Paris, já ratificado por quase todos os países do mundo. Os norte-americanos fizeram parte dessa lista até maio, quando Trump decidiu abandonar o tratado. Isto não foi esquecido no comunicado final e deu origem a inúmeras manchetes sobre “a vitória do G19” — “A América contra o resto do mundo”, como noticiou a SkyNews.

A grande surpresa nos debates políticos teve que ver com protecionismo. Antes da viagem até Hamburgo, fontes da Casa Branca tinham avançado que Trump se preparava para declarar guerra económica aos aliados, com a aprovação de uma tarifa de 20% sobre as importações de aço e outros produtos de países como a Alemanha e a China, em linha com os seus planos para retirar os EUA de uma série de acordos de livre comércio. Contudo, Trump acabou por alinhar-se com os restantes, com o G20 a comprometer-se a “lutar contra o protecionismo” bem como “contra todas as práticas comerciais injustas, reconhecendo o papel dos instrumentos legítimos de defesa do comércio nesse ponto”.

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Nepotismo renascido das cinzas

Durante a cimeira, Trump teve coisas boas a dizer sobre a sua política favorita do sexo feminino. Não sobre Angela Merkel, com quem continua em rota de colisão, nem sobre Theresa May, a primeira-ministra britânica, que tem estado a fazer uma aproximação estratégica à administração americana perante a anunciada saída da UE e os conflitos que o Brexit fez surgir dentro do bloco. Falamos de Ivanka Trump, filha do Presidente, que apesar de não ter sido eleita para qualquer cargo já ocupa um gabinete da Casa Branca e que tomou o lugar do pai numa das reuniões do G20. “Estou muito orgulhoso da minha filha Ivanka, desde o primeiro dia…”, declarou Trump aos líderes do G19. “Se ela não fosse minha filha, teria uma vida muito mais fácil. Se querem saber a verdade, essa é provavelmente a única coisa má que ela enfrenta.”

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O facto de Ivanka ter tomado o lugar do pai em discussões políticas de alto nível fez renascer as acusações de nepotismo contra o líder americano, cujos filhos e genro continuam a desempenhar papeis turvos no seu governo. Não se sabe por quanto tempo é que Trump teve de se ausentar da reunião sobre “Parcerias com África, Migrações e Saúde” e só se sabe que Ivanka tomou o seu lugar entre May e o Presidente da China, Xi Jinping, porque um delegado russo partilhou uma foto desse momento. “Ivanka oficializa o nepotismo”, noticiou a revista “New Republic”. “O antigo ditador do Uzebequistão costumava fazer este tipo de coisas com a filha dele”, referiu no Twitter Brian Klaas, da London School of Economics. “Os EUA a darem um grande exemplo no G20.”

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Trump aceitou garantias de Putin (ou será que não?)

Tão antecipada como a própria cimeira era a reunião de Trump com o Presidente da Rússia — a primeira entre ambos desde a mudança de governo nos EUA, foco de atenções sobretudo por causa das suspeitas de conluio entre pessoas próximas de ambos para evitar a vitória de Clinton.

O encontro, que juntou Trump, Putin e os chefes da diplomacia dos dois países, Rex Tillerson e Sergei Lavrov, devia ter durado meia hora mas só terminou duas horas depois, com Melania Trump, a primeira-dama, a ser enviada à sala várias vezes para tentar despachar o marido.

Na véspera da cimeira, Trump tinha voltado a recusar-se a acusar a Rússia de interferir no processo eleitoral norte-americano, dizendo que a campanha de notícias falsas e de ciberataque ao Partido Democrata “pode muito bem” ter sido orquestrada por outro país. Todas as agências secretas norte-americanas dizem que as provas incriminam Moscovo. Depois da reunião, voltou a dar primazia à versão do líder russo, que desmentiu as alegações, em detrimento do que dizem o FBI, a CIA, a NSA e toda a equipa de segurança nacional da Casa Branca. Isto até a própria Casa Branca desmentir o Presidente.

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“O Presidente não acreditou em absoluto na negação do Presidente Putin”, garantiria domingo o chefe de gabinete da administração, contradizendo o que Trump disse publicamente. O tema, acrescentou Reince Priebus, “não se limitou a ocupar cinco minutos da conversa, representou uma porção extensiva do encontro e depois de pressionar o Presidente Putin mais do que uma vez, o Presidente acabou por abordar outros assuntos”.

Antes da entrevista de Priebus, a homepage do “New York Times” já refletia o caos que tem reinado sobre o caso Trump-Rússia — no sábado, podia ler-se na manchete “Trump promete trabalhar ‘de forma construtiva com a Rússia’ após Putin negar hacking eleitoral” e logo abaixo “Autoridades dos EUA: hackers do governo russo penetraram redes de empresas energéticas”.

Surgiria depois Nikki Haley, embaixadora dos EUA na ONU, a contribuir para o desentendimento. Há um mês já tinha declarado ao Congresso que não tem “quaisquer dúvidas” de que os russos se imiscuíram na campanha presidencial. No domingo, acrescentou em entrevista à CNN: “Toda a gente sabe que a Rússia interferiu nas nossas eleições. Toda a gente sabe que a ingerência deles não se limita às eleições dos EUA. Eles estão a fazer isto em múltiplos continentes e estão a fazê-lo para provocar o caos dentro dos países”.

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O encontro de Trump Jr. com uma advogada do Kremlin

As contradições subiram de tom quando, ainda antes de a cimeira do G20 acabar, o “New York Times” avançou que o filho mais velho do Presidente se encontrou com uma advogada ligada ao Kremlin em junho do ano passado, duas semanas antes de Trump firmar a nomeação republicana para disputar a presidência.

Primeiro o jornal noticiou que esse encontro teve lugar entre Donald Trump Jr., Natalia Veselnitskaya, o marido de Ivanka Trump, Jared Kushner, e o então diretor da campanha republicana, Paul Manafort. Trump Jr. admitiu de imediato que se encontrou com ela para discutir um programa de adoção de crianças russas por cidadãos americanos, que Putin tinha acabado de suspender no rescaldo da aprovação de mais sanções a personalidades russas pelo Congresso dos EUA.

No dia seguinte, o diário acrescentaria que Trump Jr. se encontrou com Veselnitskaya porque esta lhe prometeu informações danosas sobre Hillary Clinton. E, aí, o filho do Presidente virou o jogo contra os democratas: apesar de ter confirmado que Veselnitskaya lhe prometeu “informações úteis” para a campanha do pai, alegou que o que a advogada próxima de Putin queria afinal transmitir-lhe é que havia operativos russos a trabalhar com a oposição americana para minar a candidatura de Trump.

“Como se a substância das novas revelações não fosse suficientemente condenatória”, notava ontem o site “Daily Beast”, “Trump Jr. atraiu ainda mais escrutínio com os seus comunicados públicos em que confirmou que estava à procura de informações sobre Clinton após os media revelarem detalhes adicionais sobre a interação”.

“A admissão de Trump surge numa altura em que o Departamento de Justiça dos EUA está a investigar se a campanha de Trump trabalhou com o Kremlin para influenciar as eleições de 2016”, refere esta segunda-feira o “Financial Times”. “Os críticos estão a aproveitar a revelação como o sinal mais claro até agora de que pessoas do círculo próximo de Trump cortejaram ativamente os esforços da Rússia para minar Clinton. Até alguns republicanos já levantaram questões sobre a decisão.”

O porta-voz da equipa legal do Presidente, Mark Corallo, já garantiu à Associated Press: “O Presidente não sabia do encontro nem participou nele”. Coincidência ou não, o primeiro tweet de Trump a referir a existência dos “33 mil emails desaparecidos” de Cinton, obtidos nos ciberataques e que a WikiLeaks acabaria por divulgar, foi publicado precisamente a 9 de junho de 2016, o dia em que o filho, o genro e Manafort se encontraram com Veselnitskaya na Torre Trump.