Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

Filho de Trump encontrou-se com advogada russa para saber podres de Clinton

David Becker

Encontro com Natalia Veselnitskaya deu-se a 9 de junho de 2016, duas semanas antes de Donald Trump ter destronado os rivais republicanos nas primárias. Presentes na reunião estiveram também o genro do agora Presidente, Jared Kushner, e o seu diretor de campanha, Paul Manafort

O filho mais velho de Donald Trump aceitou encontrar-se com uma advogada com ligações ao Kremlin no ano passado, após lhe ter sido prometido que ia obter informações danosas sobre a candidata democrata à Casa Branca, Hillary Clinton.

De acordo com o "New York Times", numa notícia avançada inicialmente sábado, Donald Trump Jr. reuniu-se com Natalia Veselnitskaya a 9 de junho do ano passado na Torre Trump, em Nova Iorque, duas semanas antes de o então aspirante presidencial ter garantido a nomeação republicana para disputar a Casa Branca com Clinton.

Jared Kushner, marido de Ivanka Trump e genro do agora Presidente, e Paul Manafort, que abandonaria a direção da campanha republicana em agosto, também estiveram presentes no encontro.

Reagindo à notícia, Trump Jr. confirmou ontem que se encontrou com Veselnitskaya há um ano mas que a advogada "não tinha informações significativas" sobre a candidata democrata. Nem Kushner nem Manafort reagiram ainda à denúncia.

Crê-se que este é a primeira prova concreta de um encontro privado entre um alegado operativo russo e membros do círculo próximo do Presidente dos EUA desde que as autoridades norte-americanas começaram a investigar as alegações de conluio para influenciar as presidenciais de novembro.

Neste momento, o FBI e as duas câmaras do Congresso têm em marcha inquéritos formais às suspeitas de ingerência russa nas eleições e ao alegado conluio entre a equipa de campanha de Trump e o Kremlin. Para já, nenhuma das investigações apurou ainda provas irrefutáveis que sustentem as suspeitas.

A notícia do NYT foi avançada durante a cimeira do G20, que esteve a decorrer entre sexta-feira e sábado em Hamburgo, à margem da qual Trump teve o seu primeiro encontro cara-a-cara com Vladimir Putin. Depois da reunião de mais de duas horas, o líder norte-americano disse que confrontou o Presidente russo duas vezes sobre as suspeitas de ingerência nas eleições dos EUA — através de uma campanha de ciberataques e de notícias falsas — e que este lhe garantiu que não orquestrou qualquer tentativa de impactar os resultados eleitorais.

Desmentidos e marcha-atrás

Quando o NYT noticiou o encontro pela primeira vez no sábado, Trump Jr. e Veselnitskaya confirmaram que se encontraram mas ambos garantiram que a campanha presidencial norte-americana não foi discutida.

No domingo, o jornal nova-iorquino acrescentaria — com base em informações avançadas por três conselheiros da Casa Branca informados sobre o encontro e por outras duas fontes — que o filho mais velho do Presidente aceitou encontrar-se com a advogada russa após esta lhe prometer que ia entregar-lhe informações com potencial para fazer descarrilar a campanha democrata.

Aí, Trump Jr. emitiu um comunicado onde reverteu a postura inicial — confirmando que foi convidado a encontrar-se com "uma pessoa que me disse que teria informações úteis para a campanha" republicana mas virando o jogo contra os democratas. "Não sabia o nome dela antes da reunião. Pedi ao Jared [Kushner] e ao Paul [Manafort] para participarem, mas não lhes disse nada de substancial. Depois de trocarmos cumprimentos, a mulher disse que tinha informações sobre indivíduos ligados à Rússia que estavam a financiar a Comissão Nacional Democrata e a apoiar Clinton. As declarações dela foram vagas, ambíguas e não fizeram sentido. Nenhuns detalhes ou informações adicionais foram fornecidos ou sequer oferecidos. Tornou-se rapidamente claro que ela não detinha informações significativas."

No mesmo comunicado, Trump Jr. disse que Veselnitskaya mudou o rumo da conversa para o programa federal dos EUA que permite a cidadãos norte-americanos adotarem crianças russas, um que Putin tinha acabado de suspender após o Congresso norte-americano ter aprovado uma lei para aplicar mais sanções às autoridades russas. "Tornou-se claro para mim que esta era a sua verdadeira agenda e que as alegações de informações potencialmente danosas eram um pretexto para o encontro acontecer."

Ontem, o advogado de Kushner disse apenas que o genro de Trump já tinha informado as autoridades sobre este encontro nos formulários de autorização de segurança que cada membro de uma nova administração tem de preencher para ter acesso à Casa Branca. Um porta-voz da equipa legal do Presidente disse por sua vez que Trump "não estava a par do nem participou" no encontro de junho de 2016.

Contactada pelo NYT, Veselnitskaya disse no sábado que "nada foi discutido sobre a campanha presidencial" de Trump. "Eu nunca aceitei agir em nome do governo russo e nunca discuti esses assuntos com qualquer representante do governo russo."

As agências de informação norte-americanas acreditam que Moscovo tentou influenciar a rota eleitoral para ajudar Trump a vencer — uma suspeita que Putin continua a desmentir. Na semana passada, na véspera da cimeira do G20, Trump disse que a interferência nas eleições americanas "pode muito bem" ter sido orquestrada por outros países que não a Rússia — acrescentando, depois do encontro com Putin, que aceitou as garantias do líder russo sobre não ter interferido de forma alguma nas presidenciais.