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Tensões com Trump levam chefe do gabinete de ética a demitir-se

AFP

Apesar de não tecer críticas diretas ao Presidente, Walter Shaub refere que foi um privilégio poder trabalhar com todos os que respeitam o fundamento de "pôr a lealdade à Constituição, às leis e aos princípios éticos acima de ganhos privados"

O diretor do Gabinete de Ética Governamental norte-americano (GEG) anunciou a sua demissão na quinta-feira após repetidos confrontos com o Presidente. Numa carta enviada à Casa Branca, Walter Shaub — que dirige o GEG desde 2013 e que ainda tinha seis meses para completar o mandato de cinco anos — explicou que vai abandonar funções a 19 de julho porque, "ao trabalhar com a atual administração, tornou-se claro que são necessárias melhorias no atual programa de ética".

No Twitter, Shaub acrescentou que vai passar a dirigir o programa de ética do Campaign Legal Center, uma organização sem fins lucrativos que trabalha para reformar as leis de financiamento de campanhas eleitorais nos EUA, dizendo que continuará empenhado em alcançar "reformas éticas a todos os níveis do governo".

Também decidiu partilhar a carta que enviou à administração — na qual, embora não critique diretamente Donald Trump, refere que foi um privilégio poder trabalhar com aqueles que protegem o fundamento de "pôr a lealdade à Constituição, às leis e aos princípios éticos acima de ganhos privados".

Os primeiros choques com o atual líder dos EUA surgiram ainda antes de Trump tomar posse em janeiro, quando o então Presidente eleito anunciou que pretendia passar a gestão do seu império aos filhos em vez de criar um fundo fiduciário cego para eliminar quaisquer suspeitas de conflitos de interesses e garantir que não lucra com o cargo público máximo que ia passar a ocupar,

Em janeiro, o dirigente do GEG disse que a proposta não afastava potenciais conflitos de interesse nem respeitava os "padrões" seguidos por todos os Presidentes norte-americanos nos últimos 40 anos. "Cada Presidente dos tempos modernos tem tomado o medicamento da alienação [dos seus bens]", referiu Shaub na altura.

O gabinete de ética voltaria a chocar com o Presidente republicano perante as suas escolhas para cargos de topo do governo, com muitos dos nomeados a manterem consideráveis portefólios de bens e interesses financeiros.

Em fevereiro as tensões adensaram-se, com Shaub a pedir à Casa Branca que investigasse a assessora presidencial Kellyanne Conway, após esta ter aproveitado uma aparição na Fox News para encorajar os norte-americanos a "irem comprar coisas da Ivanka" — uma quebra das regras que definem claramente que membros do governo não podem patrocinar produtos, no caso a linha de roupa da filha mais velha do Presidente, que à data estava a ser boicotada em várias cadeias de venda a retalho (levando essas lojas a suspenderam as encomendas da coleção seguinte).

A administração rejeitou esse pedido, argumentando que Conway falou "sem intenções nefastas" e que, por isso, não merecia ser castigada nem sequer alvo de um inquérito. Shaub respondeu que, ao não agir perante essa violação, o governo se arriscava a "minar o programa de ética".

Apesar dos óbvios choques, o demissionário fez questão de garantir ontem ao "Washington Post" que não sofreu quaisquer pressões da administração Trump para se demitir, dizendo que o que aconteceu foi que se "tornou claro" para ele "que não há mais nada que possa alcançar [no GEG]."

Em comunicado, a Casa Branca disse que "preza o serviço" prestado por Shaub e avançou que "o Presidente vai nomear um sucessor no curto prazo". Trump poderá agora escolher o seu diretor de ética governamental, sujeito à confirmação do Senado.