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O que vai Trump discutir com Putin? Poucos sabem a resposta. Mas convém não se rir

Imagens de Putin e de Trump num mural da capital da Lituânia

getty

Nesta sexta-feira à tarde, à margem da cimeira do G20, em Hamburgo, o Presidente norte-americano vai reunir-se pela primeira vez com o homólogo russo. Não há agenda definida para o encontro e os analistas já avisaram que Trump tem muito a perder em casa se aparecer sorridente ao lado de Putin, como aconteceu em maio ao receber na Casa Branca o chefe da diplomacia russa, Sergei Lavrov

Faltam menos de 24 horas para aquele que será o primeiro encontro entre Donald Trump e Vladimir Putin e ainda não há uma agenda delineada para a conversa. Ao que parece, nenhuma haverá, antevendo-se que a reunião bilateral à margem da cimeira do G20 - os vinte países mais desenvolvidos do mundo - decorra ao sabor da vontade dos envolvidos. “Não existe qualquer agenda definida, vai depender daquilo que o Presidente quiser debater”, confirmou esta semana o chefe do Conselho de Segurança Nacional da Casa Branca, H. R. McMaster.

Por causa das suspeitas de ingerência russa nas eleições americanas, e do alegado conluio entre a equipa de campanha de Trump e o governo de Vladimir Putin para impedir a vitória de Hillary Clinton, as atenções vão estar tão focadas nesse encontro como na própria cimeira, a decorrer entre sexta-feira e sábado em Hamburgo, a cidade-natal de Angela Merkel.

Em Hamburgo, a cimeira do G20 é aproveitada por uma cervejeira, que faz publicidade com as caras dos presidentes turco, russo e norte-americano

Em Hamburgo, a cimeira do G20 é aproveitada por uma cervejeira, que faz publicidade com as caras dos presidentes turco, russo e norte-americano

reuters

Depois da cimeira do G7 em maio ter culminado com a chanceler alemã a declarar que a Europa já não pode depender do seu aliado tradicional, e de Trump ter dado seguimento a esse encontro com a retirada dos EUA do Acordo do Clima de Paris, antecipa-se que esta cimeira não vá ser diferente no que toca às relações transatlânticas— sobretudo depois de Trump ter aproveitado a sua visita à Polónia, esta quinta-feira, para questionar se o Ocidente terá “vontade de triunfar” nesta nova era geopolítica (sobre a visita à Polónia, ver notícia nesta edição, na zona do noticiário internacional).

Desestabilizações e armadilhas

O que vai mudar é que, desta vez, haverá líderes de outras grandes potências mundiais presentes no encontro, entre eles o Presidente da China, Xi Jinping, e o líder do Kremlin. Com o primeiro, é provável que Trump debata a atual ameaça norte-coreana, agora que o regime de Kim Jong-un acabou de testar com sucesso o seu primeiro míssil balístico intercontinental, um projétil com alcance suficiente para atingir o estado do Alasca. Com o segundo, contudo, não é certo o que será discutido.

No aeroporto de Hamburgo, à espera dos chefes de Estado

No aeroporto de Hamburgo, à espera dos chefes de Estado

epa

“Tal como o Presidente já deixou claro, ele quer que os EUA e todo o Ocidente desenvolvam uma relação mais construtiva com a Rússia”, declarou McMaster na semana passada. “Mas ele também deixou claro que fará tudo o que for necessário para confrontar o comportamento destabilizador da Rússia.” A ideia tinha sido reforçada pelo Presidente numa conferência de imprensa em fevereiro. “Eles são uma potência nuclear muito forte e nós também. Acreditem, se tivermos uma boa relação com a Rússia, isso será uma coisa boa, não uma coisa má.”

“Se Vladimir Putin apresentar uma grande proposta, é bom que o alarme do Presidente Trump se faça soar, porque [a proposta] pode parecer muito boa mas pode conter armadilhas”, defende Steven Pifer, ex-embaixador dos EUA na Ucrânia que atualmente dirige a Iniciativa para o Controlo de Armas e a Não-Proliferação no Instituto Brookings. “Não é provável que estas armadilhas sejam notórias no primeiro encontro”, acrescenta em declarações à CNN.

À espera de um passo em falso

À NPR, a rádio pública norte-americana, outro investigador do Brookings, Michael O’Hanlon, lembrava há alguns dias que a vontade de Trump de forjar uma maior cooperação com Moscovo enfrenta grande oposição em casa, o que lhe deixa pouca margem de manobra. “Trump não pode dar-se ao luxo de avançar novas ideias que possam aproximá-lo de Putin, vai parecer que está a sujeitar-se a Putin ou que Putin ainda o tem na palma da mão”, defende O’Hanlon. “É por isso que ele tem de assumir uma posição firme neste encontro, demonstrando que está frustrado e zangado com o comportamento da Rússia.”

Não será só o Partido Democrata ou o resto do mundo que estarão à espera de um passo em falso do Presidente americano. Dentro da Administração Trump, há elementos que continuam a condenar publicamente a interferência de Moscovo nas eleições de novembro através de uma campanha de ciberataques e notícias falsas, a sua contínua ocupação da Crimeia — a península situada no leste da Ucrânia, onde forças pró-russas continuam em guerra com os ucranianos pró-União Europeia — e o seu apoio ao governo sírio de Bashar al-Assad.

“Vocês já me viram a condenar a Rússia por causa da Ucrânia”, declarou no final de junho Nikki Haley, embaixadora dos EUA na ONU, diante de uma comissão da Câmara dos Representantes. “Já me viram a criticar a Rússia por causa da Síria. Já me viram a criticar a Rússia sempre que a Rússia tem alguma atitude condenável. E sim, eu acredito que a Rússia interferiu nas nossas eleições. E sim, já o disse ao Presidente.”

Haley não está sozinha. Senão vejam-se as declarações do secretário de Estado, Rex Tillerson, em abril, quando acusou a Rússia de não fazer cumprir o acordo de desarmamento da Síria após um alegado ataque químico das forças de Assad a uma cidade de Idlib — após o qual Trump ordenou o lançamento de 59 mísseis contra uma base aérea síria. As relações Washington-Moscovo, declarou na altura o chefe da diplomacia dos EUA, atingiram um ponto baixo. “Não sabemos se a Rússia falhou em cumprir a sua obrigação ou se foi incompetente”, acrescentaria o secretário de Estado na cimeira do G7. “Mas essa distinção não faz muita diferença para os que morreram” naquele ataque químico (quase 100 pessoas, incluindo dezenas de crianças).

Culpa não é de Putin, é dos jornalistas

Na ponta oposta à de vários dos seus ministros e diplomatas, Trump continua a rejeitar as alegações de que Moscovo interferiu nas presidenciais que ele venceu e, no que toca ao comportamento russo na Síria ou na Ucrânia, culpa não o governo Putin mas os jornalistas do seu país, que continua a acusar de perseguição. “As notícias falsas e horríveis tornam muito mais difícil alcançar um acordo com a Rússia”, declarou em fevereiro.

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A etiqueta “notícias falsas” é sobretudo usada pelo Presidente sempre que os jornalistas desvendam novos pormenores sobre a alegada colaboração de membros da sua equipa com operacionais russos para destabilizar a política interna dos EUA. Foi uma dessas notícias que ditou a queda de Michael Flynn, o antecessor de McMaster, que foi forçado a demitir-se em fevereiro por causa de contactos ilegais com o embaixador russo em Washigton. Na altura, Trump assumiu que sabia desses contactos há várias semanas antes de pedir ao conselheiro que resignasse ao cargo e que só decidiu fazê-lo porque ele “mentiu” ao governo sobre os tópicos discutidos com Sergei Kislyak, incluindo formas de aliviar as sanções dos EUA a Moscovo.

É proibido aparecer a rir-se

Entretanto, Trump continua a enfrentar acusações de obstrução à Justiça por ter despedido o diretor do FBI, James Comey, dias depois de este ter pedido mais fundos para acelerar a investigação a Flynn, e por ter pedido a Comey que suspendesse esse inquérito, como o próprio confirmou ao Senado há um mês. O comportamento levantou suspeitas junto dos membros do Congresso, levando a câmara alta a aprovar um novo pacote de sanções à Rússia e um projeto-lei para dificultar o trabalho da Casa Branca caso esta tente anular essas sanções.

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É isso que Putin quer, como referiu num artigo de opinião que assinou esta quinta-feira num jornal alemão, e é com esta bagagem que Trump viaja esta quinta-feira de Varsóvia para Hamburgo, onde se encontrará com o Presidente russo esta sexta-feira à tarde. A ensombrar o encontro estarão as fotografias partilhadas pelos media russos um dia depois do despedimento de Comey — onde Trump surge a rir-se com Kislyak e com o chefe da diplomacia russa, Sergei Lavrov, na Sala Oval da Casa Branca. Pifer vaticina: “Não vai ser bom para a sua situação doméstica se as imagens que surgirem do encontro mostrarem um Presidente Trump jovial e sorridente ao lado do Presidente Putin, como as fotos que surgiram do encontro com o ministro Lavrov.”

  • Trump, Kim Jong-un e a “diplomacia do hambúrguer”

    Há quem defenda que, perante o falhanço das sucessivas sanções contra a Coreia do Norte e dado o recente progresso do regime no desenvolvimento de mísseis de longo alcance, a Administração norte-americana não tem outra hipótese a não ser dar início a conversações diretas com Pyongyang