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May acusada de "abandonar deveres" por não priorizar o clima na cimeira do G20

Mais de 100 mil pessoas estão a participar em protestos contra o G20 em Hamburgo

ODD ANDERSEN

Acordo do Clima de Paris, abandonado por Donald Trump no final de maio, não integra a lista de quatro prioridades apresentada pela primeira-ministra britânica para o encontro desta sexta-feira e sábado em Hamburgo

A chefe do governo britânico está a ser acusada de "abandono de deveres" após ter sido revelado que as alterações climáticas foram excluídas da sua lista de prioridades para a cimeira do G20, a decorrer entre hoje e sábado na cidade alemã de Hamburgo.

Apesar de se antever que o assunto vá ser um dos tópicos centrais nos debates entre as 20 potências mundiais — sobretudo depois de Donald Trump ter decidido retirar os EUA do Acordo do Clima de Paris no rescaldo da cimeira do G7 no final de maio — Theresa May excluiu a questão da sua lista de quatro prioridades para o encontro.

Antes de os líderes do G20 viajaram até à Alemanha, Angela Merkel tinha sublinhado que garantir o combate às alterações climáticas e ao aquecimento global tem de ser um dos objetivos-chave da cimeira depois de o Acordo do Clima ter perdido o segundo maior poluidor do mundo da sua lista de signatários.

Enquanto anfitriã da cimeira na sua cidade-natal, a chanceler alemã disse que não quer que as discussões sobre o Ambiente se limitem a esse acordo, alcançado no final de 2015 em Paris para limitar a subida da temperatura do planeta a um máximo de dois graus centígrados.

Contudo, uma fonte do governo britânico avançou ao "The Independent" que, após promessas de se unir aos restantes países na oposição a Trump, May decidiu não dar prioridade à questão. Em vez disso, a primeira-ministra vai focar-se nos tópicos do financiamento de grupos terroristas, migrações globais, escravatura moderna e "fazer com que a economia global funcione para toda a gente", referiu a fonte.

Reações

"É extremamente desapontante que o governo não esteja a priorizar as alterações climáticas nesta cimeira", lamentou a codirigente d'Os Verdes, Caroline Lucas, esta sexta-feira. "Com Theresa May prestes a ter um encontro bilateral com Donald Trump, ela devia colocar a ação sobre o clima no topo da sua agenda — e pressionar o Presidente dos EUA a reverter a sua decisão desastrosa de abandonar o Acordo de Paris. Claro que ninguém está a defender que o clima deva ser o único tópico em debate no G20 — as outras prioridades do governo são extremamente importantes. Mas relegar a maior ameaça que enfrentamos para segundo plano é um abandono de deveres por parte deste governo."

Também em declarações ao "The Independent", Jeremy Corbyn lembrou que "as alterações climáticas só podem ser combatidas de forma eficaz através da cooperação internacional", com as 20 nações mais ricas e poderosas do mundo à cabeça.

"O governo devia exercer pressões para mais ações e coordenação ao nível global no G20 mas falhou em mencionar as alterações climáticas nos seus quatro objetivos", acusou o líder do Partido Trabalhista. "Theresa May tem de defender as pessoas e o planeta e estar preparada para exercer pressão sobre Donald Trump para que altere o curso catastrófico decorrente da sua decisão de sair do Acordo do Clima de Paris."

As ONG também se dizem chocadas com a decisão de May, com o diretor de campanhas da Oxfam a lembrar hoje que as alterações climáticas são uma ameaça "real que está a acontecer neste preciso momento".

"No rescaldo da decisão do Presidente Trump, resta aos outros países do G20 honrar e implementar o acordo", diz Steve Price-Thomas. "Os combustíveis fósseis não são o futuro. Apesar de os subsídios do governo às indústrias do petróleo e do carvão estarem a torná-las mais ricas, o boom de energias limpas está a criar oportunidades para todos. Temos visto alguns dos países mais pobres do mundo comprometerem-se a 100% com as energias limpas e renováveis até 2050 — o G20 deve seguir esse exemplo."

Promessas

A decisão de May em retirar o tema da sua lista de prioridades contraria informações avançadas na quarta-feira por uma fonte do governo, que garantiu que no encontro com Trump à margem da cimeira a primeira-ministra ia "levantar a questão das alterações climáticas".

A fonte citada pelo "The Independent" garante que o Reino Unido continua "totalmente comprometido" com o Acordo de Paris e que, tal como o resto da Europa, "não vê necessidades de o renegociar". Contudo, Downing Street continua sem dar garantias públicas de que não vai renegociar esse tratado com Washington.

Ontem, o chefe da diplomacia britânica disse que o Reino Unido vai atuar como moderador entre os EUA e a União Europeia para demover Trump das suas políticas mais extremas também ao nível ambiental. "O nosso papel", referiu Boris Johnson, "é representar os pontos de vista sobre a NATO, sobre a importância vital do artigo 5.º, sobre as alterações climáticas, sobre o acordo nuclear com o Irão — penso que é o Reino Unido que está realmente a ajudar a mitigar algumas das atitudes e políticas americanas da atual Casa Branca para as conduzir a um sítio melhor".

A decisão de May surge numa altura em que o seu governo tem sido levado a tribunal várias vezes por causa da má qualidade do ar no Reino Unido e perante rumores de que pôs de lado um plano ambiental para os próximos 25 anos — depois de, em 2016, ter sido acusada de silenciar um relatório sobre o antecipado impacto devastador das alterações climáticas na saúde dos cidadãos e nas infraestruturas. O plano foi apresentado pela primeira vez há dois anos pelo seu antecessor, David Cameron, e deveria ser implementado este ano.