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Internacional

EUA admitem usar força militar contra a Coreia do Norte “se tiver de ser”

Alex Wong

“Vamos usar as nossas forças militares consideráveis, se tiver de ser, mas preferíamos não ter de seguir esse rumo”, disse a embaixadora dos EUA na reunião de emergência do Conselho de Segurança da ONU

Os Estados Unidos não excluem a possibilidade de recorrer às suas "forças militares consideráveis" contra a Coreia do Norte "se tiver de ser", na sequência do teste de um míssil balístico intercontinental (MBI) na terça-feira.

Assim declarou ontem Nikki Haley, embaixadora dos EUA na ONU, durante a reunião de emergência do Conselho de Segurança, convocada a pedido dos norte-americanos, do Japão e da Coreia do Sul logo a seguir a Pyongyang ter lançado um MBI contra o Mar do Japão — um projétil que, segundo especialistas, demonstra que o país tem agora capacidades para atacar o estado norte-americano do Alasca.

Antes da reunião no final de quarta-feira, o secretário de Defesa norte-americano, James Mattis, e o ministro homólogo nipínico, Tomoni Inada, tinham voltado a sublinhar que o teste foi uma "provocação inaceitável" — com Mattis a declarar ainda, num comunicado emitido pelo Pentágono após o telefonema com Inada, que os EUA estão comprometidos com a defesa do Japão e com a dissuasão do regime de Kim Jong-un.

"Os Estados Unidos estão preparados para usar todas as nossas capacidades para nos defendermos", diria Haley aos outros membros do CS. "Uma das nossas capacidades são as nossas forças militares consideráveis. Iremos usá-las, se tiver de ser, mas preferíamos não ter de seguir esse rumo."

O teste do MBI "está rapidamente a anular qualquer possibilidade de uma solução diplomática", acrescentou, condenando a escalada militar na península coreana e ameaçando o recurso a mais sanções comerciais e económicas.

Logo a seguir ao encontro, os EUA e a Coreia do Sul lançaram mais mísseis para o Mar do Japão, parte dos exercícios militares conjuntos a serem conduzidos desde o teste de terça-feira. Os exercícios envolvem vários destroyers, outros navios de guerra e caças, que estão a simular ataques com mísseis, noticiou a agência sul-coreana Yonhap.

Haley diz que, entre as alternativas de retaliação, conta-se também a possibilidade de os EUA cortarem os laços comerciais com países que continuem a negociar com a Coreia do Norte em violação das resoluções da ONU impostas ao país. "Iremos dar atenção a qualquer país que opte por fazer negócios com este regime fora da lei."

Pyongyang já reagiu, dizendo que não vai negociar com os EUA a menos que o país acabe com as suas "políticas hostis" contra os norte-coreanos. No rescaldo do teste, após um encontro em Moscovo, os Presidentes da China, Xi Jinping, e da Rússia, Vladimir Putin, pediram às partes que se sentem à mesa de negociações — algo que as sucessivas administrações norte-americanas têm recusado desde que as duas Coreias assinaram um armistício em 1953 para suspenderem uma guerra que, contudo, nunca chegou a ter uma "solução final pacífica".

Antes da reunião do Conselho em Nova Iorque, Donald Trump reforçou a retórica contra a China por manter trocas com a Coreia do Norte e por não estar a pressionar o regime de Kim para que acabe com os seus programas nuclear e de mísseis. O teste de terça-feira representou o 11.º lançamento de mísseis norte-coreanos desde o início deste ano.

Hoje, Trump aterrou em Varsóvia para uma visita oficial à Polónia, onde vai encontrar-se com Xi Jinping pela segunda vez desde que tomou posse. Depois viajará até Hamburgo para a cimeira do G20, que deverá ser dominada pela questão dos mísseis norte-coreanos.

Quem apoia potenciais ações militares?

Ontem, o Presidente da Coreia do Sul, Moon Jae-in, disse estar preocupado com a expansão das capacidades nucleares e de mísseis do Norte, que estão a "avançar muito mais rápido do que era esperado". Em Berlim, após um encontro com a chanceler alemã, Angela Merkel, Moon disse que vai "examinar as possibilidades de reforçar as sanções" contra Pyongyang, sem referir qualquer hipótese de recurso à força militar.

A ideia de uma nova resolução que imponha mais sanções económicas à Coreia do Norte foi apoiada pelo embaixador de França na ONU durante o encontro do Conselho de Segurança.

A Rússia, que já condenou o teste, diz que a alternativa de usar medidas militares contra o país "deve ser excluída" do leque de possibilidades. O repreentante da China disse, por sua vez, que as ações da Coreia do Norte são "inaceitáveis" mas repetiu os pedidos feitos na terça-feira para que os dois lados se acalmem e iniciem conversações.

A proposta dos dois países passa pela suspensão dos programas bélicos da Coreia do Norte em troca do congelamento das atividades militares dos EUA e da Coreia do Sul na região, com ambos a exigirem ainda aos EUA que revertam a instalação do seu controverso escudo antimísseis no território sul-coreano. Tanto a China como a Rússia são membros permanentes do Conselho, tendo o poder de vetar qualquer nova resolução contra Pyongyang.

Reação da Coreia do Norte

Citado pela agência estatal KCNA, o regime de Kim Jong-un disse ontem que "a estratégia de força dos EUA" a par das pressões aplicadas nos últimos anos "nunca irá funcionar". A menos que os norte-americanos ponham fim às suas "políticas hostis", Pyongyang "nunca irá levar a questão nuclear e os mísseis balísticos para a mesa de negociações".

Na terça-feira, Kim tinha sido citado pela mesma agência dizendo que o teste de um novo MBI nessa madrugada era um "presente" aos americanos no seu Dia da Independência, referindo que já deu ordens ao seu Exército para que continue a "enviar prendas grandes e pequenas frequentes aos Yankees".

O MBI testado anteontem, o Hwasong-14, alcançou uma altitude de 2802 quilómetros e voou 933 quilómetros durante 39 minutos antes de atingir o Mar do Japão (Mar do Leste para as Coreias). Especialistas foram rápidos a notar que, com este alcance, o míssil conseguiria não só atingir várias bases militares dos EUA num vasto arco do Pacífico como o estado do Alasca.

A Coreia do Norte, anunciou nesse dia o seu líder, tem agora "total poderio nuclear e está na posse do mais poderoso míssil balístico intercontinental, capaz de atingir qualquer parte do mundo". Apesar de os especialistas concordarem que o teste demonstra que Pyongyang já conseguiu desenvolver mísseis de longo alcance, muitos duvidam que o regime já tenha capacidades de integrar nos MBI ogivas nucleares em miniatura.