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Americanos confiam mais na CNN que em Donald Trump

ROBYN BECK

Depois de o Presidente ter publicado um vídeo em que agride um homem com o logótipo do canal televisivo colado à cara, uma sondagem do SurveyMonkey apurou que Trump parece estar a perder a guerra contra os media

Uma sondagem conduzida entre quinta-feira e esta segunda pelo SurveyMonkey junto de 4695 eleitores norte-americanos apurou que uma maioria confia mais na CNN do que no Presidente. Do total de pessoas inquiridas entre 29 de junho e 3 de julho, 50% disse que tem mais confiança no canal televisivo, que tem sido alvo de recorrentes ataques por Donald Trump, contra 43% que confiam mais no líder do país e 7% que dizem não saber em quem depositar a sua confiança.

Entre os eleitores que se classificam como independentes, o número dos que confiam mais na CNN é superior, na ordem dos 55%, com apenas 40% a optarem por Trump e 5% dos inquiridos sem certezas. "A luta entre a Casa Branca e grandes organizações de media tornou a questão da veracidade tão partidária quanto o sistema de saúde ou outras questões políticas", apontou ao Axios Jon Cohen, vice-diretor de sondagens no SurveyMonkey.

A relação de Trump com os jornalistas tem sido marcada por uma série de ataques do Presidente aos que o criticam, muitos deles lançados ainda antes de ter vencido as eleições de novembro. Durante a corrida à Casa Branca, o candidato republicano aproveitou comícios de campanha para se queixar de estar a ser perseguido pela imprensa — sugerindo que, se fosse eleito, ia alterar as leis de difamação em vigor no país para poder processar judicialmente os repórteres que assinem peças incómodas sobre ele e a sua família.

Até ver, a liberdade de imprensa continua protegida pela Constituição, embora já estejam a ter lugar nos EUA casos judiciais em que milionários conseguem calar jornais e repórteres, como é demonstrado no documentário da Netflix "Nobody Speak", que estreou no final de junho.

Desde a sua tomada de posse a 20 de janeiro, Trump tem recorrido ao Twitter para tecer críticas aos media "falsos", destacando uma série de jornais e canais investidos em investigar escândalos e suspeitas de ilegalidades que pendem sobre o Presidente e a sua equipa — caso do alegado conluio com a Rússia para impedir que Hillary Clinton vencesse as presidenciais.

Entre esses media-alvos conta-se a CNN, com Trump a publicar um vídeo no domingo em que surge a agredir um homem com o logótipo do canal norte-americano estampado na cara. Os críticos do Presidente destacaram de imediato a ironia de ele recorrer a um vídeo manifestamente manipulado para atacar um canal que acusa de disseminar falsidades, incentivando ao espancamento de jornalistas.

"É um dia triste quando o Presidente dos Estados Unidos encoraja violência contra repórteres", reagiu a CNN. Em comunicado, o canal acusou Trump de "estar envolvido em comportamentos infantis muito aquém da dignidade do gabinete que ocupa", acrescentando: "Vamos continuar a fazer o trabalho que nos compete. Ele deve começar a fazer o seu."

No rescaldo da publicação do vídeo, vários jornais dentro e fora dos EUA, incluindo o israelita "Haaretz", denunciaram que o criador desse vídeo é um utilizador do Reddit, HanAssholeSolo, que tem um historial de declarações antissemitas e islamofóbicas na internet.

Entretanto, foi igualmente noticiado que o primeiro jornalista a apurar a autoria do vídeo tem estado a ser ameaçado de morte por neonazis que apoiam a administração Trump. "No rescaldo disso, recebi várias ameaças", denunciou Jared Yates Sexton no Twitter. "Dizem-me que há pessoas que me querem dar um tiro, estrangular-me, enforcar-me, atirar-me de um helicóptero... Agora há artigos a aparecer em sites neonazis, há vídeos com [o ministro da propaganda de Hitler, Joseph] Goebbels a dizer-me para não testar a paciência dele. Também há uma cena tirada do Natural Born Killers [filme de 1994 realizado por Quentin Tarantino] em que um jornalista é executado com uma espingarda de canos cerrados."

Note-se ainda que, nos últimos tempos, a Casa Branca tem estado a tentar impedir os jornalistas acreditados de filmarem as conferências de imprensa que é suposto cobrirem e transmitirem aos cidadãos. Durante quatro dias no final de junho, os porta-vozes da administração só aceitaram responder a perguntas se os jornalistas desligassem as câmaras e os gravadores. Depois, a 22 de junho, o governo distribuiu um documento pelos jornalistas a proibi-los de noticiar a própria proibição da cobertura.

Em fevereiro, a Casa Branca já tinha impedido pelo menos oito meios de comunicação, incluindo a CNN, a BBC, o "New York Times" e o Politico, de participarem numa conferência de imprensa.